As adaptações de obras literárias nacionais para o cinema
“Meu livro preferido será adaptado pa-ra o cinema. Se-rá uma
versão fiel da história? Qual atriz será a protagonista? Esse diretor é
confiável?” Todos nos perguntamos isso, seja você um fã de Crepúsculo, de Sthepen
Meyer, ou de Dom Casmurro, de Machado de Assis. Criamos laços com a obra e a
adaptação para o cinema pode destruir aquele imaginário perfeito que criamos ao
ler. Ao mesmo tempo, um público ainda maior conhecerá aquela história, mesmo
que às vezes ela esteja um pouco (ou muito) distorcida.
De produções bem sucedidas às mais vergonhosas, dos autores clássicos
até os mais undergrounds, no Brasil temos diversos exemplos de adaptações das
páginas para o cinema. Investimentos da indústria cinematográfica à parte, o
cinema nacional tem conseguido de forma significativa emplacar filmes que
derivaram de também sucessos literários – os roteiros bem bolados que o digam! Historicamente,
uma das nossas maiores bilheterias é o clássico Dona Flor e Seus Dois Maridos,
adaptação de Bruno Barreto do livro homônimo de Jorge Amado - autor que levou
mais de 10 milhões de espectadores para o cinema. Jorge Amado, além de um dos
escritores mais lidos, é também um dos que mais são adaptados para as telonas.
Nem todos os autores nacionais têm o sucesso de público (em
literatura e cinema) de Jorge Amado, mas muitos contam com o amor incondicional
de cineastas, como Machado de Assis, que tem desde adaptações fiéis, como
Memórias Póstumas de Brás Cubas, de André Klotzel, até releituras de suas
obras, como o cru Quanto vale ou é por quilo?, de Sérgio Bianchi, adaptado do
conto “Pai contra Mãe”, ou o malsucedido Dom, de Sérgio Goés, uma modernização da
obra “Dom Casmurro”. Esse tipo de adaptação, desprovida, em partes, de
interesses comerciais, é comum, como em obras de Clarice Lispector.
Um exemplo clássico da relação de amor dos diretores com a
literatura versus a conflituosa relação dos filmes com o público pode ser
ex-pressa pela adaptação de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar feita por Luis
Fernando Carvalho em 2001. Sem roteiro prévio, o filme foi rodado tendo o livro
como base para as falas, o que alguns consideraram um ato de fidelidade e
respeito pelo texto, e outros uma subserviência desnecessária ao livro. Lavoura
Arcaica foi considerado pela maioria da crítica, tanto nacional quanto internacional,
um filme excelente, mas sofreu certo repúdio do público, em parte pela sua
longa duração (163 minutos) e seus longos takes silenciosos aliados à
fotografia abstrata e às atuações teatralizadas do elenco.
Mesmo com percalços e dificuldades, o cinema nacional
continua investindo em adaptações. Este mês estreia mais uma adaptação da obra de
Jorge Amado: Capitães de Areia, dirigido por Cecília Amado, neta do autor. E no
início de 2012 estreará Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios,
de Beto Brant e Renato Ciasca, baseado na obra homônima de Marçal Aquino. O
autor é responsável por alguns dos roteiros mais interessantes do cinema
brasileiro pós-retomada, como Crime Delicado (2005), Os Matadores (1997), O
Cheiro do Ralo (2007) e O Invasor (2001), este último com uma história sui
generis: Marçal escrevia seu livro, quando na metade da produção, o cineasta Beto
Brant leu o texto e disse “isso tem que virar filme” e lá se foram os dois a
trabalhar no roteiro. Após a finalização do longa, Marçal Aquino sentiu-se
desligado do livro, uma vez que, segundo o autor, em entrevista ao site “Solto
na cidade”, “não achava graça, sabia tudo sobre a trama”, e só acabou
finalizando o livro após muita insistência do parceiro Beto Brant.
| Lilian Cabral em Diva |
O sucesso literatura/cinema tem se tornado cada vez mais
comum no país, sendo um dos grandes sucessos dos últimos anos a comédia Divã, de
José Alvarenga Jr., baseado no romance tragicômico-cotidiano da autora Martha
Medeiros. O sucesso de público é uma comum tanto do livro, que vendeu cerca de
50 mil exemplares antes da adaptação, e do filme, que levou aos cinemas um público
de 159.700 pessoas, apenas nos três primeiros dias de exibição, (no intermezzo,
foi sucesso no teatro também). Em entrevista para a TUDO E ETC, ela afirmou que “toda obra adaptada sofre alterações, novas
‘leituras’. Passa a ser um trabalho de equipe, todos interferem no resultado final”.
Mas ainda assim gosta da adaptação, “achei o filme delicado e divertido, ele é muito
fiel à peça de teatro que a Lilia já havia encenado, mas a familiaridade com o livro
não é tão grande assim.” Com ressalvas, Martha enxerga o filme com olhos de uma
mãe que vê seu filho ganhar o mundo e fica surpresa que ele tem pernas para ir
ao teatro, ao cinema e às telas da Rede Globo. A autora conclui “o melhor mesmo
é não comparar [as obras] e apenas curtir”, mas, ainda assim, ressalta que a
Mercedes, protagonista da história, feita pela atriz Lília Cabral é “mais divertida
do que a ‘minha’ Mercedes, mas tem muito a ver, sim. A Lília sabe equilibrar
drama e comédia com muita competência”.
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| Martha Medeiros |
As adaptações se tornaram um mercado
lucrativo no cinema brasileiro. Há os livros que vendem muito e rendem
produções caprichadas, já que as produtoras preferem investir em sucessos
garantidos, como os filmes baseados nas obras “Carandiru”, de Drauzio Varella,
e “O doce veneno do escorpião”, de Raquel Pacheco. A versão para o cinema da
história de Raquel Pacheco, Bruna Surfistinha, alcançou uma bilheteria de 4,2
milhões de reais, e Carandiru, dirigido por Hector Babenco, foi assistido por
cerca de 4,6 milhões de pessoas no cinema. Há ainda o inverso, como Tropa de
Elite, de José Padilha, que atingiu cerca de 2,4 milhões de espectadores,
fazendo ascender a busca pelo livro “Elite da Tropa”, de André Batista, Rodrigo
Pimentel, Luiz Eduardo Soares e Claudio Ferraz, que chegaram a escrever uma
sequência para o livro, que se transformou no filme Tropa de Elite 2 – O
Inimigo Agora é Outro, o qual é o indicado brasileiro para o Oscar 2012, na
categoria Filme Estrangeiro.
Os produtores nacionais, a cada
dia, descobrem novos filões, como o caso da literatura espírita e a infanto-juvenil.
Atualmente vemos um crescente de filmes com a temática espírita, como a
cinebiografia Chico Xavier, dirigida por Daniel Filho e baseada no livro “As
vidas de Chico Xavier”, de Marcelo Souto Maior; e o recém estreado O livro dos
espíritos, de André Marouço e Michel Dubret. No entanto, veem-se ainda outros
espaços que não foram realmente galgados, como por exemplo, o público
infanto-juvenil – historicamente relegado às reproduções de enredos e
personagens advindos da televisão. Não vemos uma adaptação de qualidade para
este público desde Menino Maluquinho, do Ziraldo, adaptado em 1994 por Helvécio
Ratton. Livros como os de Lygia Bojunga Nunes, de Ana Maria Machado e até mesmo
de Thalita Rebouças não dariam bons filmes voltados a esse público?
De qualquer forma, o cinema nacional
é um aprendiz. Mas com todas essas adaptações, espera-se apenas que o público
se interesse cada vez mais por cinema e especialmente por literatura, pois como
diz o cineasta Jorge Furtado: “Só a leitura produz escritores e só a leitura
produz bons cineastas. O cinema e a televisão criam imagens, a leitura cria
imaginação.”

