17 de abr. de 2013

Tentativa de compreender o amor nº 3

Renan Guerra

Foto: Nycolas Ribeiro
Tentar compreender o amor rende e acabei chegando à terceira empreitada. Mas não se preocupem, esse ciclo se encerra aqui, como uma bela trilogia. O que ainda me inquieta são todas as expectativas que criamos em torno do amor: desde que nos conhecemos por gente lá estava a princesa à espera de seu príncipe encantado entrando num cavalo branco, nem que ele fosse o Sérgio Malandro conquistando o coração de Xuxa em “Lua de Cristal”, mas, ainda assim, o momento da felicidade amorosa chegaria para todos. Começam aí as expectativas. Depois Macaulay Culkin tem seu “O Primeiro Amor” e lá vamos nós esperar por amores tão singelos quanto o dos dois adolescentes. Entretanto, só nos ferramos, é um sem-número de comédias românticas a nos entupir de sonhos, seja Meg Ryan e suas confusões ou Julia Roberts e seus amores eternos.

Já estamos ferrados e nem sabemos, esperaremos muito de todos os nossos amores. Quero um amor que goste de cães. Um amor que goste de lasanha de carne moída. Um amor que se divirta com piadas de humor negro. Um amor que escute os discos do Massive Attack enquanto transa. Um amor que saiba tocar “Make it wit Chu” do Queens of the Stone Age. Um amor que goste dos livros do Raduan Nassar. Um amor que goste de algodão doce. Um amor que não seja reacionário. Um amor que divida a louça suja. Um amor que não deixe cabelos no ralo. Um amor que abrace sem motivos. Um amor que mate baratas. Um amor que assista aos filmes do Bertolucci. Um amor que devolva o troco que veio errado. Um amor que coma manga sem medo de se melecar. Um amor que ouça The xx. Um amor.

Esperamos e esperamos, criamos e recriamos, aí o amor vem e nos prega peças. Caímos de quatro por leitores compulsivos de Paulo Coelho, por fãs da franquia Crepúsculo, por ouvintes de pagode, por garotos que consideram David Guetta o salvador da música eletrônica, por adoradores de Nicholas Sparks, por gente que não come chocolate, por gente que compartilha mensagens motivacionais no facebook, por garotos com tatuagens de estrela no ombro e garotas que usam sneakers. Ah, esses cupidos incompreensíveis.

Estar sujeito ao amor (ou melhor: estar esperando compulsivamente por ele) significa que nos ferraremos, pois nem sempre nos apaixonamos por pessoas que sonhamos, mas sim por aquelas que mais nos cativam, mais nos fazem rir, mais nos envolvem e aí acontece a merda. O que há de belo e singelo no amor há de zombeteiro. Amar é simplesmente estar sujeito. Sujeito às mudanças, às diferenças, às escolhas, às confusões. Ora parece simples e ora parece impossível, mas esse tal de amor é um danado que vem, derruba nosso chão, deixa-nos um tanto zonzos e quando vemos estamos aí: compreendendo todas as canções da Calcanhotto, vendo filmes que não gostamos e ouvindo músicas que odiamos. Porém, sorrimos compulsoriamente, pois estamos amando.

Com essas expectativas e realidades, o amor se embrenha mais uma vez na gente e o que parece o fim de uma lógica de tentar compreender o amor se mostra apenas como uma pequena introdução ao terreno fértil e espinhoso dos relacionamentos. Contudo, como já apontei no primeiro destes textos, o amor se emaranha em tudo e logo escreverei mais textos que se fantasiam de sem-amor, mas que em cada entrelinha, transbordarão do mesmo.

Relembre as outras duas tentativas: nº 1 | nº 2