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| Foto: Janyne Sattler |
Dia desses, procrastinando no
Tumblr, vi uma foto de intervenção urbana em uma placa que dizia “Don’t grow
up. It’s a trap”. Refleti sobre a frase e concordei com o conselho e a ideia de
que a vida adulta é realmente uma armadilha. Tornamo-nos burocráticos,
pragmáticos e obstinados por ideais superficiais. Por um doce contraponto, a
minha timeline no Facebook me apresentou o olhar sobre a vida com sensibilidade
e inocência invejáveis do pequeno Armandinho e as delícias de ser criança. Os incessantes compartilhamentos das tirinhas
do guri que mal alcança os joelhos dos pais, fez com que, através de seus
certeiros questionamentos, eu refletisse sobre situações corriqueiras em que me
encontro e os posicionamentos que tomo na vida.
Por trás dessas histórias está o
engenheiro agrônomo e jornalista-ilustrador Alexandre Cechetto Beck. Este é seu
trabalho mais visível, mas, como o mesmo afirma, é quase um hobby. Depois de
cinco anos como ilustrador no Diário Catarinense (2000 a 2005), no qual fez
suas primeiras tirinhas, Alexandre decidiu trabalhar como ilustrador autônomo. Aos
41 anos, o catarinense – que mora atualmente em Santa Maria (RS) – possui uma
pequena empresa de comunicação e trabalha principalmente com materiais
educativos no formato de história em quadrinhos para prefeituras, secretarias
de educação, fundações de meio ambiente, Polícia Ambiental e Defesa Civil.
Em nossas trocas de e-mails,
descobri de quem Armandinho herdou toda a gentileza e perspicácia. Atencioso,
Alexandre conta que não há regras para produzir as tirinhas: ora a ideia surge espontaneamente
e ele a desenvolve através dos desenhos e textos, ora escolhe um tema ou uma
mensagem que queira destacar e trabalha em cima disso até ficar de acordo com o
que pretende passar. “Em minha mesa há muitos papeis rabiscados de ‘ideias’ que
precisam ser trabalhadas”, afirma Beck, ressaltando que às vezes esse processo
se desenrola por dias. Alexandre também conta que várias tirinhas são
originadas de situações reais: “Uma tira que gosto muito é com o Armandinho
levando uma bronca do pai e depois, perguntado se não teria nada a dizer,
responde ‘abraço!’. Essa tira é minha filha.”
Pergunto quais cartunistas
Alexandre admira e influenciam diretamente o seu trabalho. O primeiro da lista
é o gaúcho Samuel Casal, artista de quem é fã e amigo, já que foi ele quem deu
a chance de Beck trabalhar com desenhos no Diário Catarinense. Henfil, Laerte,
Galvão e Angeli são outras grandes influências, apesar de divergirem do teor de
seu trabalho. As comparações com Calvin, do estadunidense Bill Watterson, e
Mafalda, do argentino Quino, são eminentes e justas. “Fico feliz com isso, pois
são autores e personagens que admiro muito, e mais alinhados com meu
pensamento”. Entretanto, o trabalho que mais marcou o ilustrador foi “O Pequeno
Nicolau”, dos franceses Sempé e Goscinny. Com saudosismo, Alexandre conta que
sua avó lia para os netos antes de dormirem, há mais de 30 anos. “A grande
influência que tenho da família foram seus valores. A sensibilidade de perceber
o que realmente importa”.
Casado com a professora de
filosofia Janyne Sattler, Alexandre é pai de Augusto (17) e Fernanda (10), e,
categórico, afirma que seus filhos são a inspiração e a motivação de seu
trabalho. “Sou o responsável por trazê-los ao mundo. Talvez seja pretensão ou
ingenuidade, mas penso ter, por isso, a obrigação de, mais do que ‘prepará-los
para esta vida cruel e dura’, tornar este mundo um pouco melhor pra eles”. E Dinho
(como é carinhosamente apelidado) se mostra promissor nessa tarefa. Em suas
curtas histórias, o gurizinho de cabelo azul também aborda assuntos que estão
em voga na sociedade, que vão da preservação do meio ambiente ao preconceito
com relacionamentos homossexuais. “Os temas que abordo nas tiras são minha
preocupação há muito tempo. O que tento com as tiras é colocar assuntos sob
pontos de vista diferentes, questionando pontos não discutidos, ou de forma
simples, como uma criança o faria”, explica Alexandre, completando que gosta de
pensar que as ilustrações podem servir de ponto inicial de reflexões e
discussões sobre vários assuntos, além de acreditar que ter uma criança como
personagem facilite isso.
Na maioria dos quadrinhos, Armandinho
está acompanhado (pelas pernas) de seu pai. Pergunto se este seria um alter ego
do ilustrador, que me responde que as pessoas (ele, inclusive) costumam dizer
que Dinho seria seu terceiro filho. Alexandre considera o pai como uma “versão
adulta” do personagem principal, com todos seus limites, imposições e “valores”
que nos são repassados: “Temos muito a aprender com as crianças. Inclusive a
nos resgatar. Faço tiras que eu gostaria de ler”.
Apesar das sacadas inteligentes e
engraçadas em suas tiras, Alexandre não se considera um humorista: “Uso o humor
como um meio, e o que dá o teor de humor é o próprio leitor”. Sobre a
importância que atribui ao seu trabalho enquanto cartunista, ao realizar
críticas e fomentar debates nas redes sociais, Alexandre expõe que percebeu com
gosto o estopim de valiosas discussões que suas tirinhas proporcionaram através
de compartilhamentos no Facebook. “Penso que todos temos responsabilidade para
com os outros em tudo o que fazemos. Não gostaria que meu trabalho fosse visto
como entretenimento apenas”, enfatiza o ilustrador ao considerar que a troca de
ideias e pontos de vista são essenciais para as mudanças.
Do retorno gratificante do
público (“não intencional, mas muito positivo”, como conta), Alexandre diz perceber
que muitos pais que lêem as tiras passam a prestar mais atenção em seus
próprios filhos, “ao que eles dizem e sentem, às suas reais necessidades”. Através
da simplicidade e a ingenuidade de uma criança, o trabalho de Beck tem nos
divertido e nos desafiado a repensar sobre nossas mais diversas atitudes,
envolvendo respeito e tolerância, com um pouco de humor e carinho nas falas de
uma criança astuta e esperta. “Acho que se há alguém próximo a ele sou eu
mesmo, usufruindo de toda a liberdade de pensamentos e ideias que toda criança
possui”. E é nessa proposta que Alexandre mostra o paizão que é.
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