25 de nov. de 2011

Eu leio, tu lês, carlota lê

 Sofia Silva

Ao entardecer, naquele momento em que o horizonte é pintado por matizes alaranjados, chego ao apartamento de Carlota Aquino, senhora alta, loira e leitora assídua de várias obras. Na sala, a televisão seria apenas uma espectadora muda de nossa conversa animada sobre o mundo das letras e sua fome por leitura. Como de hábito, já havia devorado dois livros e meio no último mês - o terceiro exemplar seria concluído logo após minha saída.



Sem pressa, Carlota relatou que não foi na infância e nem adolescência que se interessou por livros, pois quando lia algo preferia os quadri-nhos. Com o casamento, o emprego no Ministério da Saúde e os filhos, abandonou qualquer tipo de leitura, deixando-se levar por uma rotina pendular: família - casa - trabalho.

Os romances de mais de cem páginas apareceram em sua vida numa fase não muito romântica, logo após a sua separação, quando voltou a morar com os pais. Uma vizinha, dona de vasta biblioteca, foi quem lhe apresentou um mundo a descobrir: o dos livros. E foi amor à primeira leitura, o passa-tempo do qual não largou mais. Tanto que desde que se aposentou, há aproximadamente vinte anos, tornou-se uma frequentadora assídua da Biblioteca Municipal de São Borja. Contudo, vinte anos de leitura assídua não significa uma biblioteca, pelo contrário. Carlota mantém um número reduzido de livros na estante: “já doei uns sessenta livros para a biblioteca, não fico com livro parado” – tem perfil de leitora atenta, não apegada aos volumes e os que ela mantém em sua estante podem ser doados a qualquer momento. Prática no mínimo coerente num país onde, na maioria das vezes, comprar livros não é uma opção viável.

Na sala, uma grande estante exibe alguns exemplares onde se podem tatear títulos que contam a história de personagens franceses, como Os Miseráveis, de Vitor Hugo, obra que figura na sua lista de mais lidos. Carlota já passeou os olhos pelas agruras que passou o protagonista da história, Jean Valjean, umas quatro vezes, depois de me lembrar de também ter assistido à adaptação para o cinema.


Entre outros títulos surge o seu amor pelos versos de Mário Quintana - um dos poucos escritores nacionais que lê, pois “sempre gostei de literatura estrangeira”. Em meio a tantas descrições e críticas, contava fatos pitorescos sobre experiências de leitura, como, por exemplo, quando desistiu de ler o clássico Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, com suas folhas amareladas, traduzido para um português de além-mar, edição antiga de uma amiga. Romance é o gênero preferido de Carlota, se estrangeiro, melhor ainda! Foi na descoberta dessas histórias, num momento de fragilidade, que a fez desenvolver interesse pela arte de decifrar as obras.

Carlota Aquino demonstra que não há idade nem momento exato para começar a ler, pelo contrário: o desejo de leitura pode surgir em qualquer fase da vida. Carlota é assim: fica com os romances, às vezes alguns poemas, mas nunca sem leitura. Até porque se não tiver “eu dou um jeito de conseguir algum livro pra ler” – encerra.