Ao entardecer, naquele momento em que o horizonte é pintado
por matizes alaranjados, chego ao apartamento de Carlota Aquino, senhora alta,
loira e leitora assídua de várias obras. Na sala, a televisão seria apenas uma
espectadora muda de nossa conversa animada sobre o mundo das letras e sua fome
por leitura. Como de hábito, já havia devorado dois livros e meio no último mês
- o terceiro exemplar seria concluído logo após minha saída.Sem pressa, Carlota relatou que não foi na infância e nem adolescência que se interessou por livros, pois quando lia algo preferia os quadri-nhos. Com o casamento, o emprego no Ministério da Saúde e os filhos, abandonou qualquer tipo de leitura, deixando-se levar por uma rotina pendular: família - casa - trabalho.
Os romances de mais de cem páginas apareceram em sua vida numa
fase não muito romântica, logo após a sua separação, quando voltou a morar com
os pais. Uma vizinha, dona de vasta biblioteca, foi quem lhe apresentou um
mundo a descobrir: o dos livros. E foi amor à primeira leitura, o passa-tempo
do qual não largou mais. Tanto que desde que se aposentou, há aproximadamente
vinte anos, tornou-se uma frequentadora assídua da Biblioteca Municipal de São
Borja. Contudo, vinte anos de leitura assídua não significa uma biblioteca, pelo
contrário. Carlota mantém um número reduzido de livros na estante: “já doei uns
sessenta livros para a biblioteca, não fico com livro parado” – tem perfil de
leitora atenta, não apegada aos volumes e os que ela mantém em sua estante
podem ser doados a qualquer momento. Prática no mínimo coerente num país onde, na
maioria das vezes, comprar livros não é uma opção viável.
Na sala, uma grande estante exibe alguns exemplares onde se
podem tatear títulos que contam a história de personagens franceses, como Os Miseráveis,
de Vitor Hugo, obra que figura na sua lista de mais lidos. Carlota já passeou
os olhos pelas agruras que passou o protagonista da história, Jean Valjean,
umas quatro vezes, depois de me lembrar de também ter assistido à adaptação
para o cinema.
Entre outros títulos surge o seu amor pelos versos de Mário
Quintana - um dos poucos escritores nacionais que lê, pois “sempre gostei de
literatura estrangeira”. Em meio a tantas descrições e críticas, contava fatos pitorescos
sobre experiências de leitura, como, por exemplo, quando desistiu de ler o
clássico Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes, com suas folhas amareladas,
traduzido para um português de além-mar, edição antiga de uma amiga. Romance é
o gênero preferido de Carlota, se estrangeiro, melhor ainda! Foi na descoberta
dessas histórias, num momento de fragilidade, que a fez desenvolver interesse
pela arte de decifrar as obras.
Carlota Aquino demonstra que não há idade nem momento
exato para começar a ler, pelo contrário: o desejo de leitura pode surgir em
qualquer fase da vida. Carlota é assim: fica com os romances, às vezes alguns
poemas, mas nunca sem leitura. Até porque se não tiver “eu dou um jeito de
conseguir algum livro pra ler” – encerra.

