2 de dez. de 2011

A validação do ser escritor


Aline Sant Ana

Iberê Teixeira revela como a história pode ser (re)criada através da escrita e do olhar

No primeiro aperto de mão, ao cumprimentar Iberê Athayde Teixeira, nome que o então advogado do prefeito de São Borja estampa por inteiro na placa branco-dourada que marca seu escritório de trabalho, não há como não sentir a incômoda seriedade de um anistiado político diante de uma proposta de entrevista – tratando-o como se fosse uma celebridade. Ele, já mostrando ser o dominador de toda a situação, me convida para entrar e sem meias palavras vai direto ao assunto, “Você trouxe as perguntas?”.


De certo a objetividade deve ser um atributo necessário aos advogados, e ele, ciente da postura astuta recorrente no meio, desconfia nos mínimos detalhes das proporções que a gravação da conversa possa tomar. Afinal, em suas palavras, “a verdadeira virtude do ser político é responder aquilo que ele quer dizer e não aquilo que o entrevistador quer ouvir”. E eu, como uma futura repórter, quero ouvir exatamente o que ele tem a dizer.

Para evitar qualquer interpretativo, o advogado, que prefiro chamar de escritor, decide responder [digitando] pausadamente às minhas perguntas, a fim de poder compor, segundo seu próprio conceito de precisão, a entrevista. Enquanto digitava, no entanto, não deixou de contar detalhes da vida profissional e algumas passagens da sua infância, que o levaram, inclusive, a escrever. Preocupado desde sempre com a exatidão com que as histórias são contadas, o escritor, que agora chamo de historiador, diz ter sido este um dos motivos que o levaram a escrever o seu 4º livro “1933 – A invasão de Santo Tomé” (2011). Em suas escrituras, porém, há um objetivo mais nobre, de quem “apenas quer resgatar os fatos e depoimentos históricos”.

É nesse momento que entra em cena o anistiado, o ativista político que viveu o episódio do Campo de Concentração em Itaqui, em 1954, e relatou como as “Nuvens de Chumbo sobre o Cambaí” (2009) pesaram sobre aqueles que lutaram por justiça diante de uma Ditadura armada. Iberê, o ativista, conta que o episódio, vivenciado por ele e por tantos outros que se calaram com o tempo, não deveria cair no esquecimento e nem oscilar sobre as variadas versões do ocorrido. Consciente da importância do livro-documento, o ativista dá lugar ao escritor, que me mostra com precisão as páginas documentais de “Nuvens de Chumbo” precedidas da narração que, segundo ele, estruturou-se por técnicas [de escritores].

Para o Iberê advogado, um escritor deve ter “talento, imaginação criativa e cultura universal”, para entender e tocar o público ao qual fala. Mesmo reconhecendo ser portador destas características, a auto-crítica deste apreciador de verdades ainda interfere na não-assumida carreira de escritor. Quando o assunto são os escritores da cidade, Iberê faz reverências a Silva Rillo e destaca Rodrigo Bauer e Izabel Scalco na cena atual. Além disso, o advogado é sucinto ao dizer que “o povo é quem decide se somos escritores ou não”. Aliás, entre conceitos e frases de impacto, que se estenderam por mais da metade da conversa sobre os escritores, faço uma constatação interessante: como não considerar-se escritor, diante de um reconhecimento público para ser o Patrono da XXVI Feira do Livro da cidade de São Borja?

O mais recente livro, “1933”, evidencia como o autor de “O crime na Fronteira” e “Caminhos da Liberdade” busca inspiração nas verdades incompletas das histórias populares, usando a pesquisa e a investigação para reformulá-las. O livro, que traz uma nova versão do caso da invasão de Santo Tomé pelo Coronel Benjamin Vargas, o Bejo, irmão de Getúlio, que em vingança pela morte dos sobrinhos do presidente reuniu o Corpo Auxiliar da Brigada Militar para atacar a cidade vizinha, mostra de forma contundente “uma aproximação do que realmente aconteceu”.

Mesmo tendo recebido incentivo do amigo Juremir Machado e divulgação espontânea do prefeito da cidade, por onde quer que ele vá, Iberê ainda protege seu reconhecimento com uma humildade cultivada pela ambivalência de suas funções: a de um homem importante e independente da área em que atua. E é assim, com essa humildade que o advogado e o anistiado político dão lugar ao escritor - para que este refaça a imagem do Iberê que realmente fala o que quer, independente do que precise ser provado.