Merli Leal,
especial para a TUDO.
Chico Buarque não lançava CD desde 2006. Os chicolatras estavam desesperados por novas melodias e letras. Chico é um artista de sorte: quase uma unanimidade nacional, passeia pela literatura e música com desenvoltura e elegância, produzindo cultura sem pressa e em tempos diferentes. Segundo ele, escrever é algo intenso e que esgota, então cada livro pede um espaço de descanso para navegar por outra linguagem – a musical.
Seu livro Leite Derramado é o culpado por sua ausência na música por cinco anos. Foi escrito com o mesmo jeito inteligente e sensível de suas letras e músicas. O livro fala da finitude, da impermanência, da nossa fraqueza no final das contas. Ele migrou da música para literatura com a mesma “boniteza” de sempre! Mergulhou e se afastou para retornar à música.
O processo de criação necessita desse distanciamento do objeto a ser criado, para poder se abrir a muitas possibilidades estéticas que estão aí, pela vida. Para Chico, quanto mais perigoso, mais divertido! Ele afirma que seus personagens não são reais, que tudo é inventado e construído em função de uma estética sonora e poética.
A ousadia estética de Chico segue na releitura de uma matéria de jornal transformada em música: Chico “poetiza” que a dor da gente não sai no jornal. E não sai mesmo, mas pode sair do olhar de um poeta altamente simples e, paradoxalmente, complexo. Criar sem pressão é fundamental para este padrão de qualidade tão alto, poética e musicalmente falando. As gravadoras são máquinas de ganhar dinheiro, tiram o sangue do artista e fazem contratos draconianos. Chico transita fora desse mundo, faz o trabalho quando tem obra pronta e boa! Este tempo de maturação em suas obras mostra que Adorno e Benjamin estavam corretos ao criticar a indústria cultural, que transforma arte e artista em produtos de massa. Chico está sempre no auge da criação porque sabe dar tempo ao tempo e criar para ter prazer com o que faz. Quando sente necessidade de sair às ruas, sem chamar atenção e virar notícia, vai a Paris. Anda feito louco, inspira-se e trabalha. Não é um pop star, mas aos 67 anos arranca suspiros tanto de meninas de15, quanto de senhoras com 80.
Um homem maduro e amoroso desponta neste novo trabalho pela Biscoito Fino. Sem contrato com gravadora, faz todo o ritual em um ritmo tranquilo. Seu compromisso é com uma vida esteticamente confortável, sem espetacularização. Francisco Buarque segue sendo Chico! Não dá para abrir mão de quem você é por causa da mídia. Ela que corra atrás de migalhas.
Dono de si, ele cria obras que entram para a história da cultura brasileira, mas o faz sem pensar em vaidades. Seu fazer criativo é, como sempre, rigoroso, transgressor e altamente inovador! Vale referenciar algumas músicas, para deixar você com vontade de ouvir todo o CD: em “Querido Diário” ele capta os olhares dos outros sobre si e repensa sua rotina na relação com o que contextualiza sua solidão; o blues maravilhoso “Essa Pequena” parece feito sob medida para uma mulher mais jovem que ele não cansa de contemplar: “Sinto que ainda vou penar com essa pequena, mas/ o blues já valeu a pena”; a doce e harmoniosa “Se Eu Soubesse”, mostra os revezes de um amor intenso, difícil de resistir: “Ah, se eu pudesse não caía na tua/ conversa mole, outra vez/ não dava mole à tua pessoa”.
O lançamento do álbum “Chico”, no dia 20 de junho, contou com chat ao vivo na casa do moço, tocando e cantando com João Bosco a música Sinhá. Foram cerca de 15 mil acessos online para ouvir e ver o nosso Chico rindo meio tímido, meio nervoso e surpreso com as facilidades da Internet. A gravadora criou um projeto de lançamento digital à altura do seu Chico Buarque. A sensação é de que ele está aprendendo tudo de novo aos 67 anos. Tem coisa mais poética e transformadora?
