Marcelo Rocha,
especial para a TUDO.
A educação no território mais meridional do Brasil – que
viria a ser o Rio Grande do Sul - inicia por um projeto de catequização. Os
jesuítas que desembarcaram por aqui, no século XVII, tinham na bagagem uma
missão política e proselitista, mas que acaba se convertendo, ao mesmo tempo,
em um incipiente processo pedagógico e cultural.
No que se refere às Letras, talvez a organização de um
sistema no Estado tenha aparecido a partir da Sociedade Partenon Literário cuja
reunião de intelectuais, atuantes em Porto Alegre, principalmente, formou o
cânone do gaúcho que conhecemos, com suas variantes, até hoje. A hegemonia
política e oligárquica acaba, então, definindo o tema da identidade – embora
essa discussão fosse diferente dos parâmetros atuais - como central para a
representação ficcional, elegendo o gaúcho como per-sonagem cujos atributos heróicos
impulsionariam nossos elementos genealógicos.
São Borja, de sua parte, também fundada por jesuítas, à
margem esquerda do rio Uruguai tem, em sua representação ficcional, dois
escritores como precípuos para um início de uma História da Literatura, que são
Vargas Neto (1903- 1977) e Apparício Silva Rillo (1931-1995). O primeiro,
jornalista e bacharel em Direito, autor de “Tropilha Crioula” (1925) tem seus
textos voltados para o ambiente e os costumes do pampa, priorizando os causos,
as lendas e os personagens típicos da região. Já Silva Rillo, nascido em Porto
Alegre, possui obra mais prolífera, no que se refere à variedade de escrita em
diferentes gêneros. O autor transita pela poesia (“Cantigas ao velho pai”, obra
inaugural de 1959), causos de tradição oral (“Rapa de Tacho”) e, também, em
composições para festivais de música nativista. Silva Rillo escreve,
igualmente, ensaios e textos de pesquisa histórica, estudando o folclore e as
tradições gaúchas (como em “Já se vieram”, de 1978).
Nos anos 70, no período da ditadura militar, aparecem
inúmeros escritores, marcando uma ascensão do conto no Estado (Caio Fernando
Abreu, Moacyr Scliar, Josué Guimarães, entre outros). Na década seguinte, é a
vez do romance histórico surgir com força nas narrativas de Luiz Antonio de
Assis Brasil e José Clemente Pozzenato. Mas, ainda assim, poucos conseguiram
uma projeção nacional. Na poesia, Mario Quintana, de temática inefável para a
crítica especializada, viria a se transformar em nosso orgulho regional.
Em1982, quando perde pela terceira vez a disputa para uma vaga na Academia
Brasileira de Letras declara desistir do fardão, pois, segundo ele: “uma
terceira derrota foi trágica. Uma quarta seria cômica”.
Contudo e a despeito da trajetória lapidar de nossos
escritores, a cultura gaúcha ainda sofre da síndrome do retrovisor. Este
pequeno percurso histórico que fiz serve para ilustrar a questão. Nossa
sociedade é contaminada por um “desejo do revir”. Na cultura, reproduzimos, a
partir de uma espécie de angústia da influência, os mesmos temas e motivos dos
textos de nossos antepassados. Em São Borja, por exemplo, não temos um teatro,
uma sala de cinema e uma imprensa totalmente independente. Na música, ora
mimetizamos elementos do cânone do século XIX, ora difundimos festivais de um
ou outro gênero, prescindindo da diversidade cultural como formadora desta região de fronteira.
No âmbito político ainda aguardamos um descendente do legado
de Getúlio Vargas ou João Goulart. Ainda somos a terra dos presidentes - o que
é relevante, sem dúvida - mas isso mostra que andamos para frente arrastando a
tradição. Oxalá consigamos quebrar esse retrovisor e com os estilhaços erigir uma
política e uma cultura que ultra-passem o mero reflexo do passado! Quiçá
iniciativas como a desta revista instiguem a pensarmos algo realmente novo e
que vá além das fotos sorridentes de “socialites” em crônicas citadinas de jornais,
injustamente chamadas, em suas compilações, de literatura. O Rio Grande do Sul
e São Borja merecem muito mais que apenas isso!
