Sofia Silva
A jaqueta
era jeans.
Tinha um
cheiro de fumaça tão forte impresso na costuras,
que estava
rolando um alto risco de ela mesmo ser tragada na falta de cigarro.
Por baixo
havia uma camiseta vagabunda sem nenhuma estampa digna de reflexão,
que tocavam
as axilas molhadas de suor ainda que eu sentisse um vento frio no rosto.
Aquele era
um estado de nada - um momento em que repassamos o quanto
conversas
não servem nem para inspirarem uma crônica.
Por isso, eu
olhei para as tartarugas.
Elas estavam
lá,
no meio da
água que está no centro da praça,
com seus
pescoços esticados em busca de sol todos os dias no mesmo horário,
o que, por
sinal, não era bem a minha certeza.
Mas eu
acreditei e fiz da ausência algo para se bocejar de indiferença
Elas e eu
cuidávamos das vidas delas - algo muito dinâmico.
Até que os
óculos escuros não seguraram a claridade e eu baixei os olhos
e mirei um
par de allstar com cadarços de tamanhos diferentes,
que não
faziam a menor diferença.
Migalhas de
minutos que deixei o organismo seguir com os seus movimentos autônomos.
Até que o
molho de chaves estava ali em cima do banco gelado,
ao lado da
coxa.
E lembrei a agenda
com todos os meus garranchos de compromissos ainda descumpridos.
Então é
assim que se mata o tempo?
Pela memória?
Respirei
fundo, de forma não autônoma, sentindo a jaqueta revirar-se pra dentro do
pulmão.
E admiti,
dolorosamente, que as tartarugas podem se cuidar sozinhas.
Atravessei a
rua.
E deixei as chaves
saltitarem para a vida real.
