18 de mai. de 2012

5 Minutos

Sofia Silva

A jaqueta era jeans.

Tinha um cheiro de fumaça tão forte impresso na costuras,
que estava rolando um alto risco de ela mesmo ser tragada na falta de cigarro.

Por baixo havia uma camiseta vagabunda sem nenhuma estampa digna de reflexão,
que tocavam as axilas molhadas de suor ainda que eu sentisse um vento frio no rosto.


Aquele era um estado de nada - um momento em que repassamos o quanto
conversas não servem nem para inspirarem uma crônica.
Por isso, eu olhei para as tartarugas.

Elas estavam lá,
no meio da água que está no centro da praça,
com seus pescoços esticados em busca de sol todos os dias no mesmo horário,
o que, por sinal, não era bem a minha certeza.
Mas eu acreditei e fiz da ausência algo para se bocejar de indiferença

Elas e eu cuidávamos das vidas delas - algo muito dinâmico.

Até que os óculos escuros não seguraram a claridade e eu baixei os olhos
e mirei um par de allstar com cadarços de tamanhos diferentes,
que não faziam a menor diferença.

Migalhas de minutos que deixei o organismo seguir com os seus movimentos autônomos.
Até que o molho de chaves estava ali em cima do banco gelado,
ao lado da coxa.
E lembrei a agenda com todos os meus garranchos de compromissos ainda descumpridos.
Então é assim que se mata o tempo?
Pela memória?

Respirei fundo, de forma não autônoma, sentindo a jaqueta revirar-se pra dentro do pulmão.
E admiti, dolorosamente, que as tartarugas podem se cuidar sozinhas.
Atravessei a rua.
E deixei as chaves saltitarem para a vida real.