“Sou quem sempre chega mais tarde”, o filósofo disse no poema e assim o fez na entrevista. Paulo Eduardo da Rocha escreveu a frase que, preciso confessar, já tomei como minha também. Quando chegamos ao refúgio do artista, um sobrado de uma rua tranquila de São Borja, fomos recebidos pela simpática mãe do autor de “Poeticamente Modificado”.
Não tardou e nosso entrevistado se fez presente, conduzindo-nos ao seu refúgio particular, o escritório contíguo à sala onde estávamos. Naquele ambiente conviviam harmoniosamente símbolos religiosos, laicos e ao menos três maços de cigarros de embalagem vermelha. A religião era “por hereditariedade”, confessou.
Paulo, o escritor são-borjense com 42 anos de vida e 13 de produção, compõe uma realidade híbrida entre os novos escritores, que para publicar um livro têm como opções em comum: enviar os escritos a uma editora convencional (as grandes e tradicionais); ser independente e pa-gar pela publicação por demanda, através de uma editora (gerenciando publicidade e parte da distribuição); ou ser ainda mais independente e editar, finalizar, produzir capa e financiar a impressão do livro, além de assumir publicidade e logística de venda.
Pode parecer um conto malandro, mas lançar livros de forma autônoma se mostra como caminho viável, mais rentável e de maior prestígio. Enviar os textos originais para uma editora avaliar e patrocinar publicação, lançamento e publicidade há muito deixou de ser opção para escritores iniciantes no país. Para quem escreve e quer ser conhecido e reconhecido, a internet e as redes sociais, aliás, são hoje um grande recurso, acessível e gratuito em quase todas as ferramentas. “Através dela, de um bom site, um bom blog, uma boa divulgação, é possível criar um público cativo”, analisa Leandro. Paulo, o poeta, mantém contas no Facebook, Twitter e Blogger. Possui dois blogs, em um deles (o Poeticamente Modificado, mesmo nome do livro) compartilha 20 dos 200 poemas que estão em sua obra. É sua maneira de divulgar o trabalho e de oferecer ao leitor um preview.
O Ibope revelou em julho que R$ 7,18 bilhões serão movimentados, neste ano, com consumo de livros e publicações impressas. O dado é grandioso. Somente o sudeste corresponde por 57% desta estimativa, depois dele está o sul do país, são 15,28% do total gasto na compra de impressos. Os números parecem fascinantes. Mas, considerando valores per capita da região sul, por exemplo, são apenas R$ 46 reais ao ano. No máximo um ou dois livros. Obter sucesso nas vendas não é algo simples, é preciso “fazer um bom trabalho de autopromoção. Mantendo um bom blog, o autor pode conquistar leitores - e isso pode impulsionar a venda do seu livro, garantir uma tiragem, por exemplo”, exemplifica Leandro.
Os e-books podem ser uma opção para um investimento menor, mas essa nova realidade ainda barra em circunstâncias operacionais e de hábitos de consumo do brasileiro. Em 2010 uma pesquisa realizada pela empresa de análises de mercado GfK revelou que 67% da população desconhecia o livro digital. Neste ano o cenário parece ter mudado, mesmo que levemente, a exoneração de impostos (importação, IPI e PIS/COFINS) colocou os tablets e e-readers em evidência na mídia e reduzirá (ainda que em tese) o preço ao consumidor, motivando-o ao conhecimento e compra desses produtos. Mesmo assim, outros fatores, como o acesso, a qualidade de infraestrutura e velocidade da internet e a relevância sensorial que o consumidor dá ao impresso, ainda impedem a popularização e adesão dos livros sem papel.
Fórmula pronta como melhor plano de negócios não existe, é claro. Mas nosso filósofo é enfático “não lance de forma independente. A menos que queira dar um tiro na lua!”, Paulo propõe que o escritor se aventure somente se tiver uma produção de qualidade e dinheiro para investir. O crítico é mais otimista “após ter certeza de que se é realmente bom, o melhor caminho é brigar ao máximo possível para conseguir seu espaço na internet mesmo. Crie seu blog, escreva muito, divulgue, faça parcerias; monte seu público”. Ambos concordam em um ponto: é preciso ter qualidade na produção, que novos autores sejam autocríticos e se autopromovam, tudo começa assim.
