Geder Parzianello,
especial para a TUDO.
Quando morei no Maranhão, estado brasileiro, aliás, que pelo IBGE de 2010 é o mais pobre da federação, vi muitos Maranhões num só. Impossível não ver a miséria e as precárias condições habitacionais, de saneamento e higiene, quando circulamos pelas regiões periféricas da capital ou pelo interior, locais que não eram trajetos litorâneos turísticos, nos quais paisagens paradisíacas como o mar, os coqueiros, as avenidas pavimentadas, a rede de hotéis de luxo e os imensos navios, tudo contrastava com as outras partes, as casas sem acabamento, habitações subumanas, esgoto a céu aberto e gente vivendo sem água potável e sem energia elétrica por toda parte. Mas estranhamente exalavam felicidade pela vida e pelo contato com a gente que vinha de fora: os tais forasteiros do Sul.
Acredito realmente que viajar é uma forma de aprender e por isso faço isso sempre que posso. Conheci muitos países e continentes, vivi em diversos lugares distintos: da Europa à África, de um hemisfério ao outro, e em cada lugar que estive, em cada espaço compartilhado, também eu me tornei um sujeito diferente. A diferença é sempre bem-vinda. Ser diferente é normal: somos diferentes e é isto que nos torna a cada um de nós e a cada uma das culturas globais de certa forma, assim tão especiais. O problema, no entanto, é quando tornamos a diferença uma razão para a desigualdade. Somos todos diferentes, mas somos todos iguais. Desigualdade é coisa feia, antidemocrática e indesejável: promove conflitos, gera batalhas e destrói vidas humanas, física e emocionalmente falando.
Quando estamos num outro lugar da cultura, estamos em contato com o diferente, com o Outro como escreve Eric Landowski, para quem “o sentido não é mais o simples produto de um pensamento diretamente confrontado com a realidade”. De fato o Maranhão fez outro sentido para mim à medida que fui interagindo com as pessoas. O Maranhão foi se tornando Outro. Importa, assim, dizer que o Maranhão é em sentido e não em essência, o que eu pude ou fui capaz de perceber e sentir.
E esta percepção é que eu com partilho: o Maranhão é um lugar quente. Faz muito calor. Isso praticamente todo mundo sabe, mas a gente não acredita o que isso representa até morar lá, num lugar em que existe apenas uma estação de chuvas no ano e que dura poucas semanas, proximamente ao mês de maio, porque no resto do ano só faz sol. Nossa sensação, disposição e relação com o mundo. A umidade do ar deixa as páginas dos livros moles e tudo gruda, a água do banho fica salobra e é muito difícil conseguir fazer espuma, a gente sai do banho com a sensação de que precisa tomar banho outra vez.
O Maranhão é contraditório. É um estado pobre e ao mesmo tempo tão rico. As danças, o folclore colorido e diversificado, aquela gente toda trabalhando o ano todo para fazer a festa popular do Tambor de Crioula, do Carnaval e das festas datadas de junho e julho, costurando e bordando, exaltando sua história e suas tradições. O Maranhense é orgulhoso de ser quem é, tanto quanto os gaúchos o são. Lá, como aqui, os lugares, as músicas, as comidas, as paisagens, os ritmos, as lendas, o jeito das pessoas falarem, o "sutaque", como eles dizem, enfim, tudo só estando lá e vivendo como eles vivem para ser capaz de senti-lo.
O Maranhão para mim é predicado de gente que se orgulha de falar um português correto, que dizem, porque mais próximo do português de Portugal. Que se orgulha de expressar sua religiosidade, que é criativo, generoso e solidário. Teria muitas histórias para contar que explicam porque os vejo com cada um destes qualificativos. Continuo até hoje conhecendo o Maranhão. Recebo amigos maranhenses em minha casa, oportunizo a eles a experiência similar que me ofereceram por lá.
O sentido não é dado prontamente. A gente constrói. Ainda sigo conhecendo os Maranhões e tantos outros lugares como a mim mesmo. A semiótica chama a isso de semiose infinita. Infinitos somos nós. Ou como diz Riobaldo, em Grande Sertão Veredas, por Guimarães Rosa: “o importante nesta vida é que não estamos nem nunca terminados”.
