4 de set. de 2012

Candy Mel fala sobre as músicas de Motel

Nycolas Ribeiro

Nos bastidores da pré-entrevista – mesmo que por telefone – fiz minha “lição de casa” e pesquisei tudo sobre o álbum 'Motel' dos goianos da Banda UÓ. Preparei um roteiro de perguntas e liguei para Candy Mel. Simpática, a integrante da banda pediu para eu retornar depois de cinco minutos. Preocupado em não deixar alguma pergunta importante de fora, aproveitei o tempo para revisar os rabiscos na folha A4. Na segunda chamada, Mel avisou que estava pronta para a conversa, de banho tomado. Após 8 minutos de entrevista, percebi que em nenhum momento recorri às perguntas do papel pardo em cima da mesa.

A conversa se desenvolveu de forma natural e divertida e, entre declarações sérias sobre a produção do primeiro álbum da Banda UÓ e boas risadas sobre a cafonice do mundo pop, Mel mostrou porque o trio é tão querido pelos fãs e chamam a atenção não só pelos cabelos e vestuários extravagantes, mas primeiramente pelo seu carisma.

Depois do sucesso do EP 'Me Emoldurei de Presente Pra Te Ter', um prêmio VMB na categoria de melhor Webclipe por 'Shake de Amor' e conseguindo despertar o interesse pelo eletrobrega em jovens alternativos mais interessados em um bom indie rock, os goianos Mateus Carrilho, Davi Sabbag e Mel Gonçalves lançam o totalmente autoral 'Motel'. Além de Preta Gil - uma madrinha tão porra-louca quanto a própria banda - que faz uma participação na faixa 'Nega Samurai', a Banda UÓ também conta com o renomado produtor Diplo, cara responsável por levar batidas do funk carioca para as músicas de gringos, como M.I.A. e Nicola Roberts.

Supervisionados por Pedro D’eyrot e Rodrigo Gorky do Bonde do Rolê, o trio participou de todas as etapas da produção do disco, principalmente na composição das letras que, segundo Mel, representam momentos específicos pelos quais a banda passou, como, por exemplo, a história por trás da faixa 'I <3 Cafuçú'. Mel conta que a caminho do aeroporto de Recife (PE), um letreiro chamou sua atenção: uma festa que acontece durante o carnaval pernambucano e celebra a cafonice, a 'I Love Cafusú', serviu de inspiração para a criação da 9º música do álbum. “O Davi criou a base em cima [da ideia] e depois a gente foi com a letra”, conta a cantora.

Candy Mel (Foto: Reprodução)

Quando perguntada sobre a diferença de um trabalho para outro, Mel afirma que “o EP era mais cru”, um “nicho pequeno de músicas de versões feitas a partir de músicas que já existem”. O desafio de criar tudo do zero, abusando de influências e estilos que os integrantes da banda gostariam de trabalhar (como o hip hop) é o que deixa 'Motel' interessante. “Com esse álbum que a gente está lançando agora dia 4, vai tirar de vez essa imagem de tecnobrega da gente, porque tá tão misturado... tem tanta coisa... tá tão mais diverso que o nome [tecnobrega] já não cabe mais pra gente”, explica Mel sobre toda essa mistura presente nas melodias das músicas.

Como quem pergunta a uma mãe qual é o seu filho favorito, questionei a cantora se havia alguma faixa da qual ela tinha um maior apego. A princípio, Mel relutou e afirmou que todas as músicas eram especiais. Após explicar como tinham inúmeras referências culturais e de cotidiano em cada uma, admitiu, com um sotaque goiano forte, que uma se destacava: “Mais pela minha terra mesmo, que é a terra do sertanejo, a que mais tenho carinho é por 'Cowboy'. É uma música muito bonita! Ela é muito fofa e não deixa de ser brega... cafona no jeito de cantar”.

Alimentados por músicas do exterior – as quais todo o EP foi construído, fazendo paródias de músicas de artistas como Willow Smith, Two Door Cinema Club e Mariah Carey – a Banda UÓ também se inventa, principalmente, no pop internacional. “O pop é extremamente cafona!”, afirma Mel ao explicar que, ao traduzir uma música da Beyoncé ou da Britney Spears, você entende que esse universo é muito brega e apenas disfarçado pelas letras em inglês. “É muito engraçado! Se você for traduzir junto com a música... a Nicki Minaj, bem vadia: ‘olhe pra mim, se você quiser fazer um som venha fazer comigo’, é muito cafona [risos]”.

Mateus, Mel e Davi grafitam o "movimento UÓ" ao fim do clipe 'Faz UÓ' (Foto: Reprodução)

O coletivo Avalanche Tropical (composta por bandas como Holger e Drunk Disco) parece obter sucesso em sua proposta de evidenciar uma cultura musical brasileira que é considerada trash. Com isso, o segundo semestre de 2012 será marcado pelo “movimento UÓ” que, segundo Mateus Carrilho, é “um estilo de vida e comportamento onde a idéia é a liberdade para fazer o que se tem vontade”. Além do lançamento de 'Motel' com direito a show no Cine Joia em São Paulo (06/09) junto com o Bonde do Rolê (que está lançando seu segundo álbum 'Tropical/Bacanal'), a Banda UÓ fará parte das atrações nacionais do festival Planeta Terra 2012, dividindo palco com Mallu Magalhães e Madrid. Mel diz que os três estão muito felizes em poder participar de um evento desse porte e que esse era um desejo antigo da banda. “A expectativa pro Planeta Terra é que a gente divirta o pessoal... que eles curtam a ideia [do Motel]”.

Lançado pela mesma gravadora do Boss In Drama e a dupla Agridoce, Deckdisc, o primeiro álbum da Banda UÓ promete apresentar essa transcultura quase impossível de se rotular: o encontro do tecnobrega paraense com as músicas eletrônicas do pop internacional, mesclados com batidas de reggaeton, se utilizando de termos nortistas e nordestinos através de letras enfeitadas de brega e do sertanejo, feitas de quem para quem consome música alternativa e se diverte fazendo piadas de todo um cenário uó.

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