17 de set. de 2012

Filmes de terror: quando o que mais te assusta
é o roteiro preguiçoso

Nycolas Ribeiro

Wes Craven e Drew Barrymore nos
bastidores de Pânico (1996)
Comumente me pego reclamando com amigos de que sinto falta de um bom filme de terror, daqueles que voltam à mente assim que apago as luzes para dormir e me cubro da cabeça aos pés em uma pretensa tentativa de me manter seguro de situações improváveis. Atualmente o gênero terror tem sofrido com o uso exacerbado de clichês do nicho, roteiros preguiçosos e um público que se contenta com sangue e carne em evidência sem uma história instigante e psicológica por trás. Tenho a teoria de que os filmes de terror vivem de ciclos que se iniciam e terminam ao longo de uma década, nos quais uma ou duas boas produções se destacam, ganham ampla visibilidade, produzem grandes retornos econômicos, sendo, por último, copiadas incansavelmente por diretores e produtores oportunistas. 


Explico-me: os anos 80 foram regados por um terror barato que se misturava com ficção científica, geralmente com zumbis ou serial killers como personagens principais. Cheios de referências ao mundo punk e com efeitos especiais poucos elaborados, a década possuiu seus clássicos – que hoje são reutilizados através de remakes – como Sexta Feira 13 (1980) e A Hora do Pesadelo (1984).

Os anos 90 trouxeram um foco diferente: adolescentes do high school eram massacrados por assassinos que se divertiam com o suspense psicológico e se satisfaziam com mortes sangrentas. Eu Sei / Ainda Sei / Sempre Vou Saber o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997/1998/2006) são exemplos (infelizes) dessa moda noventista. Entretanto, o deboche do diretor Wes Craven é a receita certa para criticar os filmes do gênero que estavam no auge nessa época. O mestre nos presenteia com a trilogia Pânico (1996/1997/2000) provocando medo e riso sem que um apagasse o outro, fazendo piadas dos clichês através de N referências.

"Nova década. Novas regras." - Pânico 4 (2011)
O início dos anos 2000 trouxe uma diversificação de propostas: remakes de filmes orientais ou espíritos malignos como os grandes vilões.  O Chamado (2002) foi o precursor dessa temática, e apesar de fotograficamente atrativo, não gerou tanto medo quanto o excelente O Grito (2004), dirigido por Takashi Shimizu (diretor dos filmes originais) e produzido por Sam Raimi (diretor da trilogia Homem-Aranha). O segredo era provocar medo baseado “naquilo que não podemos ver”, fantasmas vingativos e pouco sangue jorrando na tela. Além disso, para os mais sádicos, a série de filmes Jogos Mortais (2004-2010) enchia os olhos do público com litros de sangue e quilos de tripas, além de um roteiro inteligente e bem amarrado. E ao final da década, o estilo amador – que teve início no final dos anos 90 com A Bruxa de Blair (1999) – ganhou mais força com o relançamento em 2009 do filme Atividade Paranormal (2006) que, por ser um filme de baixo orçamento foi originalmente veiculado apenas em pequenos cinemas dos Estados Unidos. Contudo, a partir daí foi o mesmo do mesmo, com direito até a uma versão do clássico O Exorcista feita em câmeras supostamente amadoras.

Com altos e (majoritariamente) baixos, o gênero terror tem (sobre)vivido: alguns grandes roteiros capazes de nos fazer trancar o cu do começo do filme até dias depois de seu término, e aqueles que são resultado da desesperada tentativa de ganhar dinheiro exprimindo ideias originais a péssimas produções, como quando tentamos retirar o último resquício do creme dental de dentro do tubo amassado. Wes Craven iniciou a segunda década do milênio mostrando que era capaz de se reinventar e fazer Pânico 4 (2011) um verdadeiro exemplo de como surpreender a plateia, contando – onze anos depois – uma história que todos julgavam saber o fim. O plot twist (reviravolta na história) de Pânico 4 faz pensar que ainda há esperança para o cinema de terror.

Recentemente assisti O Segredo da Cabana (2011) – filme que ainda não teve estreia oficial no Brasil – mesmo sob o aviso de uma amiga de que a história era “tosquíssima”. Porém, antes mesmo do término do longa-metragem, questionei-me se ela tinha captado a genialidade do roteiro e toda a diversão que o filme proporciona. O filme é o primeiro trabalho como diretor de Drew Goddard (roteirista de seriados para a TV americana, como Buffy - A Caça Vampiros e Lost), e produzido por Joss Whedon (diretor da superprodução Os Vingadores), e posso dizer que é uma grande hipérbole, um mashup de filmes de terror que não demonstra ter medo de nos conduzir a uma história nada convencional.

O atleta, o estudioso, a puta, o idiota e a virgem em O Segredo da Cabana (2011)
Para isso o filme se utiliza de personagens manjados (o atleta gostosão, a loira vadia, o cara estudioso e sensível, a virgem sonsa e o babaca do grupo) em um cenário mais batido ainda: uma cabana no meio de uma floresta, que logo nos remete ao A Morte do Demônio (1981) de Sam Raimi. Ao mesmo tempo em que acompanhamos esse núcleo, conhecemos, paralelamente, personagens em roupas sociais que parecem estar entediados com sua rotina em uma grande corporação. Acompanhando essas duas histórias que não parecem se encontrarem num enredo, que ora nos deixa  com um suspense interessante ora nos faz rir de piadas pouco elaboradas, o filme se desenvolve sem pressa ou pretensão de se explicar, deixando um ar de confusão a cada cena.

Até mesmo na escolha de seus atores a produção é incomum. Pouca gente conhecida, com exceção de Chris Hemsworth (de Thor) que, apesar de ser um dos cinco jovens da trama, acaba não sendo o protagonista. Até mesmo Sigourney Weaver, de Alien (1979), só faz uma ponta nos últimos minutos do filme. O Segredo da Cabana é divertido, autêntico e absurdo, parece ter sido muito bem planejado para chegar a esse resultado: um filme de terror totalmente diferente do que vem sido (re)produzido nas últimas décadas. Imagine encontrar seus maiores pesadelos, os piores assassinos e monstros em um só cenário inimaginável?

O quarto filme da saga Atividade Paranormal será lançado em 17 de outubro e parece insistir no mesmo roteiro e proposta dos filmes anteriores. Enquanto tiver dando dinheiro, haverá gente que investirá nesse estilo de terror que um dia foi interessante e aterrorizador. Enquanto assistimos o início dessa década com poucos títulos do gênero que nos fazem temer nosso próprio psicológico, façamos um apelo: que produções com enredos mais mirabolantes e despretensiosamente divertidos como O Segredo da Cabana e Pânico 4 sejam feitas, sem medo de ousar nos roteiros e, principalmente, sem caírem no fatídico erro de copiar o mainstream do terror e contribuir cada vez mais para os clichês do terror. 


Como o slogan do filme avisa: "você acha que conhece a história"!