![]() |
| Wes Craven e Drew Barrymore nos bastidores de Pânico (1996) |
Explico-me: os anos 80 foram regados por um terror barato que se misturava com ficção científica, geralmente com zumbis ou serial killers como personagens principais. Cheios de referências ao mundo punk e com efeitos especiais poucos elaborados, a década possuiu seus clássicos – que hoje são reutilizados através de remakes – como Sexta Feira 13 (1980) e A Hora do Pesadelo (1984).
Os anos 90 trouxeram um foco
diferente: adolescentes do high school eram massacrados por assassinos que se
divertiam com o suspense psicológico e se satisfaziam com mortes sangrentas. Eu Sei / Ainda Sei / Sempre Vou Saber o Que
Vocês Fizeram no Verão Passado (1997/1998/2006) são exemplos (infelizes)
dessa moda noventista. Entretanto, o deboche do diretor Wes Craven é a receita
certa para criticar os filmes do gênero que estavam no auge nessa época. O
mestre nos presenteia com a trilogia Pânico
(1996/1997/2000) provocando medo e riso sem que um apagasse o outro,
fazendo piadas dos clichês através de N referências.
![]() |
| "Nova década. Novas regras." - Pânico 4 (2011) |
Com altos e (majoritariamente)
baixos, o gênero terror tem (sobre)vivido: alguns grandes roteiros capazes de
nos fazer trancar o cu do começo do filme até dias depois de seu término, e
aqueles que são resultado da desesperada tentativa de ganhar dinheiro
exprimindo ideias originais a péssimas produções, como quando tentamos retirar
o último resquício do creme dental de dentro do tubo amassado. Wes Craven
iniciou a segunda década do milênio mostrando que era capaz de se reinventar e
fazer Pânico 4 (2011) um verdadeiro
exemplo de como surpreender a plateia, contando – onze anos depois – uma
história que todos julgavam saber o fim. O plot
twist (reviravolta na história) de Pânico 4 faz pensar que ainda há
esperança para o cinema de terror.
Recentemente assisti O Segredo da Cabana (2011) – filme que
ainda não teve estreia oficial no Brasil – mesmo sob o aviso de uma amiga de
que a história era “tosquíssima”. Porém, antes mesmo do término do longa-metragem,
questionei-me se ela tinha captado a genialidade do roteiro e toda a diversão
que o filme proporciona. O filme é o primeiro trabalho como diretor de Drew
Goddard (roteirista de seriados para a TV americana, como Buffy - A Caça Vampiros e Lost),
e produzido por Joss Whedon (diretor da superprodução Os Vingadores), e posso dizer que é uma grande hipérbole, um mashup de filmes de terror que não
demonstra ter medo de nos conduzir a uma história nada convencional.
Para isso o filme se utiliza de
personagens manjados (o atleta gostosão, a loira vadia, o cara estudioso e
sensível, a virgem sonsa e o babaca do grupo) em um cenário mais batido ainda:
uma cabana no meio de uma floresta, que logo nos remete ao A Morte do Demônio (1981) de Sam Raimi. Ao mesmo tempo em que
acompanhamos esse núcleo, conhecemos, paralelamente, personagens em roupas
sociais que parecem estar entediados com sua rotina em uma grande corporação.
Acompanhando essas duas histórias que não parecem se encontrarem num enredo,
que ora nos deixa com um suspense
interessante ora nos faz rir de piadas pouco elaboradas, o filme se desenvolve
sem pressa ou pretensão de se explicar, deixando um ar de confusão a cada cena.
Até mesmo na escolha de seus
atores a produção é incomum. Pouca gente conhecida, com exceção de Chris Hemsworth
(de Thor) que, apesar de ser um dos
cinco jovens da trama, acaba não sendo o protagonista. Até mesmo Sigourney
Weaver, de Alien (1979), só faz uma
ponta nos últimos minutos do filme. O Segredo da Cabana é divertido, autêntico
e absurdo, parece ter sido muito bem planejado para chegar a esse resultado: um
filme de terror totalmente diferente do que vem sido (re)produzido nas últimas
décadas. Imagine encontrar seus maiores pesadelos, os piores assassinos e
monstros em um só cenário inimaginável?
O quarto filme da saga Atividade Paranormal será lançado em 17
de outubro e parece insistir no mesmo roteiro e proposta dos filmes anteriores.
Enquanto tiver dando dinheiro, haverá gente que investirá nesse estilo de
terror que um dia foi interessante e aterrorizador. Enquanto assistimos o
início dessa década com poucos títulos do gênero que nos fazem temer nosso
próprio psicológico, façamos um apelo: que produções com enredos mais mirabolantes e
despretensiosamente divertidos como O
Segredo da Cabana e Pânico 4 sejam
feitas, sem medo de ousar nos roteiros e, principalmente, sem caírem no
fatídico erro de copiar o mainstream
do terror e contribuir cada vez mais para os clichês do terror.
Como o slogan do filme avisa: "você acha que conhece a história"!



