Confesso que fiquei tão tonta com a questão da ação e da reação na divulgação do tal filme, que mal pude entender o que, de fato, ele aborda. Notícias nos mostram que o roteiro da película faz críticas graves, do ponto de vista islâmico, ao profeta Maomé – símbolo de devoção político-religiosa dos quase um bilhão de pessoas que compõem a população muçulmana no mundo. Da mesma forma, argumentos que defendem a livre expressão do pensamento, constroem a massa crítica da mídia.
Fala-se em consequências do neoliberalismo, em políticas conspiratórias, estratégias de rejeição aos protestos árabes, atentado à liberdade nas suas mais inebriantes escalas e em todas as coisas que prendem a atenção do público para o que não interessa. Isso é comum.
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| 18 de setembro - Paquistaneses queimam um boneco representando o presidente dos EUA, Barack Obama, em manifestação em Peshawar (Foto: Reprodução G1) |
Lembro que quando lançaram a polêmica sobre as intervenções na exibição do Serbian Film aqui no Brasil, não adiantou justiça, religiosos, nem quaisquer outros vínculos morais que fizessem com que as pessoas não corressem para baixar (em péssima qualidade) o torrent daquele “terror sem limites”. Inclinado à modinha, o RioFan (Festival Fantástico de Cinema do Rio de Janeiro), que tinha comprado a autorização para exibir o filme, cancelou a mostra de cinema com uma explicação infundada que só: o filme é uma obra que questiona os limites da representação cinematográfica e que lida com situações e temas absolutamente condenáveis, explica a nota de desculpas do festival. Censura? Eles juraram que não. Imediatamente, o povo que estava pê da vida por não poder apreciar a obra na sala do cinema, correu para a internet para baixá-la.
Uns nem se deram ao trabalho de procurar um cinema e já foram se beneficiando das regalias que a web disponibiliza. Neste ponto vejo uma convergência de fatores que levam a não apreciação reflexiva do momento vivido. Assim como no caso da repercussão do Filme Sérvio, a Inocência dos Muçulmanos tem sido focada de forma igualmente contraditória ao momento ideológico e, por que não, cultural que o oriente vive.
Fala-se em liberdade de expressão ao ataque moral (e obviamente político) de uma obra que implica com a própria liberdade do mundo islâmico. Aliás, já chegou a hora do mundo ocidental conviver com amarras político-religiosas que enfrentam as relações entre os dois mundos. Ao contrário do que dizem muitos argumentos por aí, a divisão do antiamericanismo e pró-americanismo não existe há tempos.
Não sejamos, contudo, ingênuos em acreditar que o tal filme e sua polêmica não tenham algum motivo político implícito – que sempre tem. Mas façamos valer os princípios da arte em isentar-se e tornar-se alheio dos interesses que a nossa lógica não dá conta de resolver. Até por que, a obra do diretor californiano mal foi lançada e já existem milhares de interpretações pró e contras à simbologia do filme. Antes de julgar (e censurar), sejamos francos, quem entendeu a lógica daquele filme? Ao entendedor, minhas sinceras culpas.
- Há vários links para download do filme (como no The pirate bay e Kickass), mas muitos estão sendo bloqueados rapidamente.
- Veja o trailer no Youtube:


