14 de dez. de 2012

O inesquecível amor de García Marquez

Manuella Sampaio


(Foto: Manuella Sampaio)
O amor, assunto tratado à exaustão, principalmente na literatura, pode ser incrível de se ler, como também pode acabar caindo em um clichê insosso. Conheci obras que tocavam no tema das mais diferentes formas, algumas totalmente fantasiosas, outras criteriosamente reais. Mas nunca, para mim, ler o amor foi tão intenso e perturbador quanto pela mente de Gabriel García Marquez.

Gabo – seu apelido e também como gosto de chamá-lo, pois a verdade é que me sinto tão íntima do escritor colombiano quanto de seus escritos – é ícone literário mundial. Recebeu em 1982 o prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra que, dentre outros, fazem parte o aclamado 'Cem anos de solidão' e 'Os funerais da mamãe grande'. É um dos pais do "Realismo Mágico", estilo literário surgido no início do século XX, característico por mostrar o irreal ou o estranho como algo cotidiano e comum.
Ao longo de sua trajetória ganhou admiração do público também por sua personalidade. Trata-se de um homem discreto, que não gosta de ter sua imagem exposta na mídia, chegou a dizer, sobre este fato, que o sucesso havia lhe custado caro, já que teria perdido o sossego depois que seus livros começaram a ser vendidos “como salsichas”. Conhecido também por apoiar firmemente o amigo de longa data Fidel Castro, no governo de Cuba, foi apelidado pelo ganhador do Nobel de Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa, de "Lacaio de Fidel".
(Foto: Reprodução)
Explorando lendas, cenários e características próprias do povo latino, das mais variadas formas praticamente todos os seus livros falam de amor e, às vezes, mesmo que quase imperceptível, o sentimento ainda está lá, entranhado em suas histórias. O primeiro contato que tive com o autor, folheando 'Cem Anos de Solidão', roubou-me o ar, não por ter achado o máximo aquelas linhas que falavam da desconhecida cidade de Macondo, da família Buendía e de um misticismo estranho, mas porque, ali, o sentimento descrito me pareceu distante, incrédulo, meio sem eira nem beira. A forma sagaz e direta com que ele colocava o amor dentro dele mesmo foi uma isca, e eu mordi. A partir de então, a passos lentos, fui mastigando e digerindo seu humor, as artimanhas dos enredos, a sagacidade dos desfechos e a originalidade em cada parágrafo.

Quando pousei os olhos e a mente sobre o drama de Florentino Ariza, em 'O amor nos tempos do cólera', tomei para mim cada frase das 439 páginas, e o danado me convenceu de sua genialidade. Um amor que esperou meio século para suceder, real, quase de carne e osso, de solidão, de casamentos felizes, infelizes e os dois juntos. Romances furtivos, remanescentes, fortes, e até mesmo os pálidos, unidos em um mesmo feixe de folhas. “Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma”, ele dizia.

Em 'Do amor e outros demônios', há um enredo forte, envolto por suspense, no qual um padre se encontra exorcizando não mais o domínio de uma menina pelo demônio, mas uma possessão pessoal e incurável, pois fora possuído pelo mais grave dos sentimentos: novamente o amor.

Ao que me parece, para o autor, amar é como respirar: indispensável. Impossível não o fazê-lo a cada segundo de vida, até o momento de morte. Basta ver a história do ancião de Memória de minhas putas tristes, “ele estava feliz, porque velho, estava condenado a morrer amando, em qualquer dia depois dos cem anos”.
(Foto: Francis Giacobetti)
A vida em muitas histórias contadas por Gabo parece sempre uma peça pregada, uma brincadeira de mau gosto. Mais eis que a ficção sai do papel, e vive. Há alguns anos o escritor que em muitos livros, a exemplo de 'Cem anos de solidão', tratou da perda de memória com bom humor, vem sofrendo de esquecimentos, lapsos de memória que a princípio eram dados ao peso de seus 85 anos, agravados pelas quimioterapias a que fora submetido para curar-se de um câncer linfático.

Há alguns meses seu irmão Jaime declarou em entrevista que o autor não voltará a escrever, pois sofre de doença senil. Plínio Apuleyo Mendoza, jornalista e diplomata que dividiu horas de conversas com o amigo colombiano, de onde nasceram os livros 'Cheiro de Goiaba' e 'Aqueles tempos com Gabo', contou que sempre mantiveram contato, porém nos últimos anos Gabriel deixou de ligar e ele não quis incomodá-lo, a doença os afastou. O jornalista Eric Nepomuceno, tradutor de muitas das suas obras e amigo do mesmo, contou que, na última conversa que tiveram, recebeu entristecido a resposta à pergunta se não teria mais ideias para escrever: “ideias até tenho, mas na hora de escrever, não lembro de nenhuma”.

Com o rebater de suas obras que tanto falaram da velhice e das lembranças, das dores e, é claro, do amor, é triste e irônico que, justo no primeiro aspecto, a história saia do livro e vire realidade. Ironia maior é a sua autobiografia, 'Viver para Contar', afirmar que a vida não é o que vivemos, mas o que e como a recordamos para contá-la. Gabo já não recorda e, contrariando o que ele escreveu, afirmo que ele vive, afinal sua obra é presente, está eternizada na literatura e na mente de quem gosta de navegar no seu realismo mágico. Embora tudo indique que ele não mais nos falará sobre tudo que discorri neste texto, uma coisa é certa: do grande jornalista, escritor e romancista Gabriel García Marquez, de seus amores, no olvidaremos.