| (Foto: Manuella Sampaio) |
Gabo – seu apelido e também como gosto de chamá-lo, pois a verdade é que me sinto tão íntima do escritor colombiano quanto de seus escritos – é ícone literário mundial. Recebeu em 1982 o prêmio Nobel de Literatura pelo conjunto de sua obra que, dentre outros, fazem parte o aclamado 'Cem anos de solidão' e 'Os funerais da mamãe grande'. É um dos pais do "Realismo Mágico", estilo literário surgido no início do século XX, característico por mostrar o irreal ou o estranho como algo cotidiano e comum.
Ao longo de sua trajetória ganhou admiração do público também por sua personalidade. Trata-se de um homem discreto, que não gosta de ter sua imagem exposta na mídia, chegou a dizer, sobre este fato, que o sucesso havia lhe custado caro, já que teria perdido o sossego depois que seus livros começaram a ser vendidos “como salsichas”. Conhecido também por apoiar firmemente o amigo de longa data Fidel Castro, no governo de Cuba, foi apelidado pelo ganhador do Nobel de Literatura em 2010, Mario Vargas Llosa, de "Lacaio de Fidel".
Explorando lendas, cenários e características próprias do povo latino, das mais variadas formas praticamente todos os seus livros falam de amor e, às vezes, mesmo que quase imperceptível, o sentimento ainda está lá, entranhado em suas histórias. O primeiro contato que tive com o autor, folheando 'Cem Anos de Solidão', roubou-me o ar, não por ter achado o máximo aquelas linhas que falavam da desconhecida cidade de Macondo, da família Buendía e de um misticismo estranho, mas porque, ali, o sentimento descrito me pareceu distante, incrédulo, meio sem eira nem beira. A forma sagaz e direta com que ele colocava o amor dentro dele mesmo foi uma isca, e eu mordi. A partir de então, a passos lentos, fui mastigando e digerindo seu humor, as artimanhas dos enredos, a sagacidade dos desfechos e a originalidade em cada parágrafo.
Quando pousei os olhos e a mente sobre o drama de Florentino Ariza, em 'O amor nos tempos do cólera', tomei para mim cada frase das 439 páginas, e o danado me convenceu de sua genialidade. Um amor que esperou meio século para suceder, real, quase de carne e osso, de solidão, de casamentos felizes, infelizes e os dois juntos. Romances furtivos, remanescentes, fortes, e até mesmo os pálidos, unidos em um mesmo feixe de folhas. “Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma”, ele dizia.
Em 'Do amor e outros demônios', há um enredo forte, envolto por suspense, no qual um padre se encontra exorcizando não mais o domínio de uma menina pelo demônio, mas uma possessão pessoal e incurável, pois fora possuído pelo mais grave dos sentimentos: novamente o amor.
Ao que me parece, para o autor, amar é como respirar: indispensável. Impossível não o fazê-lo a cada segundo de vida, até o momento de morte. Basta ver a história do ancião de Memória de minhas putas tristes, “ele estava feliz, porque velho, estava condenado a morrer amando, em qualquer dia depois dos cem anos”.
A vida em muitas histórias contadas por Gabo parece sempre uma peça pregada, uma brincadeira de mau gosto. Mais eis que a ficção sai do papel, e vive. Há alguns anos o escritor que em muitos livros, a exemplo de 'Cem anos de solidão', tratou da perda de memória com bom humor, vem sofrendo de esquecimentos, lapsos de memória que a princípio eram dados ao peso de seus 85 anos, agravados pelas quimioterapias a que fora submetido para curar-se de um câncer linfático.
Há alguns meses seu irmão Jaime declarou em entrevista que o autor não voltará a escrever, pois sofre de doença senil. Plínio Apuleyo Mendoza, jornalista e diplomata que dividiu horas de conversas com o amigo colombiano, de onde nasceram os livros 'Cheiro de Goiaba' e 'Aqueles tempos com Gabo', contou que sempre mantiveram contato, porém nos últimos anos Gabriel deixou de ligar e ele não quis incomodá-lo, a doença os afastou. O jornalista Eric Nepomuceno, tradutor de muitas das suas obras e amigo do mesmo, contou que, na última conversa que tiveram, recebeu entristecido a resposta à pergunta se não teria mais ideias para escrever: “ideias até tenho, mas na hora de escrever, não lembro de nenhuma”.
Com o rebater de suas obras que tanto falaram da velhice e das lembranças, das dores e, é claro, do amor, é triste e irônico que, justo no primeiro aspecto, a história saia do livro e vire realidade. Ironia maior é a sua autobiografia, 'Viver para Contar', afirmar que a vida não é o que vivemos, mas o que e como a recordamos para contá-la. Gabo já não recorda e, contrariando o que ele escreveu, afirmo que ele vive, afinal sua obra é presente, está eternizada na literatura e na mente de quem gosta de navegar no seu realismo mágico. Embora tudo indique que ele não mais nos falará sobre tudo que discorri neste texto, uma coisa é certa: do grande jornalista, escritor e romancista Gabriel García Marquez, de seus amores, no olvidaremos.
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| (Foto: Reprodução) |
Quando pousei os olhos e a mente sobre o drama de Florentino Ariza, em 'O amor nos tempos do cólera', tomei para mim cada frase das 439 páginas, e o danado me convenceu de sua genialidade. Um amor que esperou meio século para suceder, real, quase de carne e osso, de solidão, de casamentos felizes, infelizes e os dois juntos. Romances furtivos, remanescentes, fortes, e até mesmo os pálidos, unidos em um mesmo feixe de folhas. “Pode-se estar apaixonado por várias pessoas ao mesmo tempo, por todas com a mesma dor, sem trair nenhuma”, ele dizia.
Em 'Do amor e outros demônios', há um enredo forte, envolto por suspense, no qual um padre se encontra exorcizando não mais o domínio de uma menina pelo demônio, mas uma possessão pessoal e incurável, pois fora possuído pelo mais grave dos sentimentos: novamente o amor.
Ao que me parece, para o autor, amar é como respirar: indispensável. Impossível não o fazê-lo a cada segundo de vida, até o momento de morte. Basta ver a história do ancião de Memória de minhas putas tristes, “ele estava feliz, porque velho, estava condenado a morrer amando, em qualquer dia depois dos cem anos”.
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| (Foto: Francis Giacobetti) |
Há alguns meses seu irmão Jaime declarou em entrevista que o autor não voltará a escrever, pois sofre de doença senil. Plínio Apuleyo Mendoza, jornalista e diplomata que dividiu horas de conversas com o amigo colombiano, de onde nasceram os livros 'Cheiro de Goiaba' e 'Aqueles tempos com Gabo', contou que sempre mantiveram contato, porém nos últimos anos Gabriel deixou de ligar e ele não quis incomodá-lo, a doença os afastou. O jornalista Eric Nepomuceno, tradutor de muitas das suas obras e amigo do mesmo, contou que, na última conversa que tiveram, recebeu entristecido a resposta à pergunta se não teria mais ideias para escrever: “ideias até tenho, mas na hora de escrever, não lembro de nenhuma”.
Com o rebater de suas obras que tanto falaram da velhice e das lembranças, das dores e, é claro, do amor, é triste e irônico que, justo no primeiro aspecto, a história saia do livro e vire realidade. Ironia maior é a sua autobiografia, 'Viver para Contar', afirmar que a vida não é o que vivemos, mas o que e como a recordamos para contá-la. Gabo já não recorda e, contrariando o que ele escreveu, afirmo que ele vive, afinal sua obra é presente, está eternizada na literatura e na mente de quem gosta de navegar no seu realismo mágico. Embora tudo indique que ele não mais nos falará sobre tudo que discorri neste texto, uma coisa é certa: do grande jornalista, escritor e romancista Gabriel García Marquez, de seus amores, no olvidaremos.


