15 de nov. de 2012

Entre as paredes da videolocadora


(Foto: Renan Guerra)
Esses dias, lendo uma das tirinhas d’O Pintinho, deparei-me com uma situação que eu ainda fingia ser uma percepção social exagerada: o fim das videolocadoras. Mas a era do streaming chegou e nos dominou. Agora, enquanto escrevo esse texto, relembro que faz no mínimo uns seis meses que eu não entro em uma videolocadora, levando em consideração que esse dado cotidiano de minha vida é, sim, relevante, já que ainda acho interessantíssimo e adoro o hábito de alugar filmes e todo aquele ritual que isso envolve.


Pensem comigo: as videolocadoras sempre foram espaços de convivência muito significantes. Todos aqueles filmes reunidos num só lugar, onde as pessoas vão, ficam na dúvida, trocam experiências, afinal, vez e outra rola um papo com o balconista perguntando se ele gosta ou não do filme, se tem boa saída ou se nunca foi alugado, ou ainda com outrem que esteja na mesma situação que você sobre a qualidade de uma obra, até que finalmente se escolhe. A balconista de uma das locadoras que eu frequentava sempre dizia que o filme tinha sido muito bem cotado pelos clientes: “aquele ali? Não vi não, mas o pessoal diz que é muito bom”, no fim todos eram muito bons, até que cansei de questionar.

Quem já foi a locadoras com os amigos sabe que é diversão pura: você zoa aquela comédia romântica tenebrosa que sua colega ama, ri das capas esteticamente horrorosas e às vezes alguém ainda tem a sorte de derrubar todos os filmes da prateleira. As videolocadoras são ótimos espaços de socialização, se não fossem elas não teríamos conversas tão inutilmente enriquecedoras. Não haveriam filmes como “O Balconista” e muito menos diretores como o próprio Kevin Smith e Quentin Tarantino, considerados diretores da era do videocassete. Sei que já vemos nascer uma geração de diretores da era do torrent, mas ainda guardo minha nostalgia com a locação de filmes.

Brian O'halloran em O Balconista (Foto: Reprodução)


Tenho boas lembranças de infância na locadora: capas de filmes que não lembro o nome, mas que ficaram com suas imagens contundentes; aqueles filmes proibidos para a minha faixa etária que eu sempre tinha gana de alugar, mas me sobrava vergonha. Lembro-me de ter certa fixação no VHS duplo de “O Exorcista”, porém minha mãe jamais me deixava alugá-lo, além do fatídico aluguel de “Tieta do Agreste”, do qual minha mãe ficou uma fera, pois era “muita putaria para uma criança só”; e havia ainda a capa holográfica do filme “Jumanji”, que eu ainda tinha medo de alugá-lo e só fui assisti-lo numa das inúmeras exibições de sessão da tarde.

Dessa forma, apesar de as capas serem o que havia de mais visível, o espaço mais intrigante sempre foi justamente a proibida: a profana sala de pornôs. Separadas ou fechadas com cortinas, as salas adultas eram a maior curiosidade para uma criança e o maior sonho para um adolescente. Quem, em plena ebulição hormonal juvenil, não teve ganas de entrar “ilegalmente” na sessão pornô e  admirar tudo que havia de tão misterioso e atraente naquela sala? Em tempos de internet e de uma enxurrada de pornografia, os mistérios se foram pelo ralo, pois agora é simples e corriqueiro para qualquer pessoa pesquisar tudo no Google ou salvar um site na aba de favoritos. Enquanto que um dos grandes medos daquela época era vender pornografia às crianças. Certa vez, vi a dona de uma das locadoras que eu frequentava ligar para os pais de dois garotos para descobrir se eles poderiam alugar “Show de Vizinha”.

Nestes tempos de mudanças, muitos dos estabelecimentos venderam seus VHS, como logo venderão seus DVDs em troca de Blu-Rays, numa lógica um pouco perversa. Neste contexto uma das atendentes de outra locadora me falou do equívoco que cometeu: com fitas cassetes tão antigas, algumas sem capas, ela acabou colocando a boba comédia dos anos 90 “Homens brancos não sabem enterrar” na sessão de pornôs e a versão XXX de “Três solteirões e um bebê” junto com os infantis. Para o bem de todos, apenas adultos compraram os vídeos e nenhuma criança se chocou ao descobrir o que os três solteirões são capazes. Se bem que alguém ficou provavelmente triste ao descobrir que a habilidade dos brancos em “enterrar” estava relacionada ao basquete.

Talvez minhas lembranças e sensações sobre as videolocadoras sejam apenas coisas de um cinéfilo com problemas de convivência social, mas mesmo assim ainda acredito que não seja um espaço para se dizer adeus. Pesquisar torrents no Pirate Bay, por exemplo, não gera tantas histórias, nem nos faz criar tantos laços, no máximo nos possibilita encontrar aquele filme super cool do leste europeu. Pode ser um pouco piegas, mas ainda valorizo essas coisas físicas, que me façam conviver com os outros pessoalmente.