| (Foto: Renan Guerra) |
Esses dias, lendo uma das tirinhas d’O Pintinho, deparei-me com uma situação que eu ainda fingia ser uma
percepção social exagerada: o fim das videolocadoras. Mas a era do streaming chegou e nos dominou. Agora,
enquanto escrevo esse texto, relembro que faz no mínimo uns seis meses que eu
não entro em uma videolocadora, levando em consideração que esse dado cotidiano
de minha vida é, sim, relevante, já que ainda acho interessantíssimo e adoro
o hábito de alugar filmes e todo aquele ritual que isso envolve.
Pensem comigo:
as videolocadoras sempre foram espaços de convivência muito significantes. Todos aqueles filmes reunidos num só lugar,
onde as pessoas vão, ficam na dúvida, trocam experiências, afinal, vez e outra
rola um papo com o balconista perguntando se ele gosta ou não do filme, se tem
boa saída ou se nunca foi alugado, ou ainda com outrem que esteja na mesma
situação que você sobre a qualidade de uma obra, até que finalmente se escolhe.
A balconista de uma das locadoras que eu frequentava sempre dizia que o filme
tinha sido muito bem cotado pelos clientes: “aquele ali? Não vi não, mas o
pessoal diz que é muito bom”, no fim todos eram muito bons, até que cansei de
questionar.
Quem já foi a locadoras com os
amigos sabe que é diversão pura: você zoa aquela comédia romântica tenebrosa
que sua colega ama, ri das capas esteticamente horrorosas e às vezes alguém
ainda tem a sorte de derrubar todos os filmes da prateleira. As videolocadoras
são ótimos espaços de socialização, se não fossem elas não teríamos conversas
tão inutilmente enriquecedoras. Não haveriam filmes como “O Balconista” e muito
menos diretores como o próprio Kevin Smith e Quentin Tarantino, considerados
diretores da era do videocassete. Sei que já vemos nascer uma geração de
diretores da era do torrent, mas ainda guardo minha nostalgia com a locação de
filmes.
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| Brian O'halloran em O Balconista (Foto: Reprodução) |
Tenho boas lembranças de infância
na locadora: capas de filmes que não lembro o nome, mas que ficaram com suas imagens
contundentes; aqueles filmes proibidos para a minha faixa etária que eu sempre
tinha gana de alugar, mas me sobrava vergonha. Lembro-me de ter certa fixação
no VHS duplo de “O Exorcista”, porém minha mãe jamais me deixava alugá-lo, além
do fatídico aluguel de “Tieta do Agreste”, do qual minha mãe ficou uma fera,
pois era “muita putaria para uma criança só”; e havia ainda a capa holográfica
do filme “Jumanji”, que eu ainda tinha medo de alugá-lo e só fui assisti-lo
numa das inúmeras exibições de sessão da tarde.
Dessa forma, apesar de as capas serem
o que havia de mais visível, o espaço mais intrigante sempre foi justamente a
proibida: a profana sala de pornôs. Separadas ou fechadas com cortinas, as
salas adultas eram a maior curiosidade para uma criança e o maior sonho para um
adolescente. Quem, em plena ebulição hormonal juvenil, não teve ganas de entrar
“ilegalmente” na sessão pornô e admirar
tudo que havia de tão misterioso e atraente naquela sala? Em tempos de internet
e de uma enxurrada de pornografia, os mistérios se foram pelo ralo, pois agora
é simples e corriqueiro para qualquer pessoa pesquisar tudo no Google ou salvar
um site na aba de favoritos. Enquanto que um dos grandes medos daquela época
era vender pornografia às crianças. Certa vez, vi a dona de uma das locadoras que
eu frequentava ligar para os pais de dois garotos para descobrir se eles
poderiam alugar “Show de Vizinha”.
Nestes tempos de mudanças, muitos
dos estabelecimentos venderam seus VHS, como logo venderão seus DVDs em troca
de Blu-Rays, numa lógica um pouco perversa. Neste contexto uma das atendentes
de outra locadora me falou do equívoco que cometeu: com fitas cassetes tão
antigas, algumas sem capas, ela acabou colocando a boba comédia dos anos 90
“Homens brancos não sabem enterrar” na sessão de pornôs e a versão XXX de “Três
solteirões e um bebê” junto com os infantis. Para o bem de todos, apenas
adultos compraram os vídeos e nenhuma criança se chocou ao descobrir o que os
três solteirões são capazes. Se bem que alguém ficou provavelmente triste ao
descobrir que a habilidade dos brancos em “enterrar” estava relacionada ao
basquete.
Talvez minhas lembranças e
sensações sobre as videolocadoras sejam apenas coisas de um cinéfilo com
problemas de convivência social, mas mesmo assim ainda acredito que não seja um
espaço para se dizer adeus. Pesquisar torrents no Pirate Bay, por exemplo, não
gera tantas histórias, nem nos faz criar tantos laços, no máximo nos possibilita
encontrar aquele filme super cool do leste europeu. Pode ser um pouco piegas,
mas ainda valorizo essas coisas físicas, que me façam conviver com os outros
pessoalmente.

