A repórter Martha Mendonça aponta: “Na MTV, onde estava até agora, Adnet não chegava a 1 ponto no Ibope. Agora, prestes a receber o prêmio de Melhor Humorista de 2012, conferido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA), será protagonista de seriado num horário noturno que tem de 15 a 20 pontos de audiência”. Entretanto, me questiono se Adnet terá a mesma liberdade que tinha na “eme tê vê” (como o próprio gostava de falar) para fazer seus quadros com humor natural e irreverente, mesmo com o tal um ponto de audiência.
Capa da Época a parte, acredito que os novos rostos do humor brasileiro estão reunidos em um só programa da web: o Porta dos Fundos é (talvez) a melhor fonte de risadas do humor brasileiro atualmente. Já se foram os “anos de ouro” do stand-up comedy e das apresentações de improviso. Precisamos de mais Fábio Porchat e menos Rafinha Bastos. Mais Anões em Chamas e menos Zorra Total. Contudo, a mudança não é válida apenas para os comediantes e seus shows, que ainda satirizam sem limites os gordos, as feias, entre tantas outras minorias: é ainda mais urgente a mudança na cabeça dos que riem. E com um roteiro que brinca com o nonsense e com situações inusitadas do cotidiano, o Porta dos Fundos consegue divertir sem ofender (com exceção aos pedantes e extremistas que sempre aparecem por aí).
Que o humor no Brasil anda fedendo a chorume, não é novidade. O documentário O Riso dos Outros (2012), dirigido por Pedro Arantes, fala sobre a sutil linha que separa a comédia da ofensa, sobre o que é engraçado e a respeito do politicamente correto. No documentário, a atriz e humorista Nany People afirma que o humor é diferente de acordo com o meio em que é veiculado: humor de teatro, por exemplo, é diferente do de cinema, que é diferente do que é produzido para a televisão. Cada um sofre com limites específicos de produção e veiculação, além de uma certa censura, seja em relação ao assunto abordado ou à linguagem. Ainda em O riso dos outros, o deputado federal Jean Wyllys, apesar de ser um pouco extremista em certos pontos, afirma que “nenhum tema deve ser proibido, eu acho que a forma, a maneira como você coloca o tema, é que pode ser ofensiva ou não”.
O programa Porta dos Fundos usa o meio mais acessível e, em relação a outros veículos, o que menos repreende seu humor: a internet. Quando uma mulher poderia falar que está doida pra levar “surra de piroca até semana que vem” no programa Zorra Total? Imagine a esposa do Carlos Alberto de Nóbrega desejando participar de um bukkake em plena A Praça é Nossa. Ironicamente, muitos poderiam achar ofensivo na televisão, mas se divertem no canal do YouTube.
Assuntos que já foram tratados com um humor sem desrespeitos em sitcons dos Estados Unidos nos anos 90 - como o casal de lésbicas em Friends (1994-2004) – ainda são inexistentes daquela forma no Brasil. Programas que trazem famílias tradicionais como A Grande Família (por favor, cancelem logo!) não aprendem a se renovar nunca, trazendo a mesma fórmula de humor feita a mais de uma década. Piadas com aborto, como as que foram feitas na primeira temporada de Girls (2012) da HBO, originariam uma passeata regada a religiosos e conservadores na Praça da Sé. Claro, devemos levar em consideração o contexto social e cultural que não é idêntico, mas se não permitimos tratar de tais tópicos nem com o humor, quando isso será debatido abertamente?
Em vez de contribuir para o reforço de estereótipos ofensivos e alimentar preconceitos, o humor deve rir da lógica dos opressores e nos fazer ter um pensamento paralelo, que nos faça perceber quão determinada atitude é patética. Explico: no vídeo Village People, do Porta dos Fundos, um heterossexual é questionado por um grupo de gays sobre ser “buceteiro”. O vídeo é uma clara alusão e sátira a inúmeras situações em que gays são ridicularizados por sua sexualidade. Com humor, o roteiro contribui para a quebra de preconceitos e aborda um assunto que deve ser debatido sem ofender ainda mais uma minoria que já sofreu de piadas abusivas e ofensivas.
Em entrevista no De Frente com Gabi em 2011, Tatá Werneck diz que “o humor é a melhor fonte de sobrevivência” e isso pode servir como uma puta terapia para tolerar dificuldades da vida. Não sei o que vai ser de Marcelo Adnet na Globo, mas ainda resta um fiapo de esperança de que ele reinvente o humor da emissora e varra Os Caras de Pau do meu domingo. Enquanto isso, fico na torcida para que o Porta dos Fundos continue fazendo seu trabalho sem pudor e sem cair na mesmice, conquistando mais visibilidade e subvertendo valores desse humor atrasado.
A Tudo & Etc indica os cinco melhores vídeos do Porta dos Fundos:
1º: SOBRE A MESA
2º: DR
3º: COM QUEM SERÁ?
4º: ENCONTRO
5º: PORTA DOS FUNDOS Nº 1
A Tudo & Etc indica os cinco melhores vídeos do Porta dos Fundos:
1º: SOBRE A MESA
2º: DR
3º: COM QUEM SERÁ?
4º: ENCONTRO
5º: PORTA DOS FUNDOS Nº 1


