25 de mar. de 2013

A Clarice Lispector chilena?

Sofia Silva

María Luisa Bombal. Já ouviu esse nome antes? Ele se refere a uma escritora chilena conhecia por ser uma das primeiras autoras a dar voz erótica literária à mulher. Sim, erótica. Mas não se anime, o erotismo aqui é da década de 30 – 40, o que significa, antes mesmo de sexual, sua postura era rebelde e feminista. Discurso pró-feminista à parte, Bombal não se resume a isso.

Dona de um texto poético e agradável, ela contrapõe essa mesma fluidez da técnica à intensidade do conteúdo – majoritariamente, do universo da mulher, quando, através dos fluxos de pensamentos de suas personagens, traz à tona as angústias e as inquietações que dilaceram a alma.
“Compreendeu que ela era e sempre fora unicamente uma das numerosas paixões de Antonio, uma paixão que por acaso, as circunstâncias tinham acorrentado a vida dele. Tolerava-a, nada mais, aceitava-a, muito a contragosto, como a conseqüência de um gesto irremediável.” (pág. 56) 
Doeu? Isso porque Bombal é quase sempre isso: um nó na garganta. Seja qual for o tom de sentimentalismo que se você leva a sua vida, Bombal vai cutucá-lo. O trecho acima foi retirado de "Amortalhada", um livro que, num primeiro momento, pode lembrar "Memórias Póstumas de Brás Cubas", escrito por Machado de Assis, uma vez que a personagem está morta e durante o seu funeral repassa a sua vida. Mas é só, termina aqui as semelhanças. Se for comparar Bombal a um escritor brasileiro, ela está mais para Clarice Lispector porque consegue, tal qual Clarice, arrancar de nós aquelas sensação de melancolia durante e após a leitura, de encarar a mediocridade dos atos humanos.

Cenas do filme "Bombal", de 2011.
"Amortalhada" passa-se o tempo todo durante o funeral de Ana Maria, que se vê morta e, justamente por isso, consegue desnudar os sentimentos mais profundos que contaminavam suas relações sociais. Conforme os parentes e amigos chegam, ela repassa as experiências de sua vida com um de cada vez. Sem pressa. Com digressões dentro digressões, ela reflete e questiona os momentos que viveu e encara cada dor, cada angústia, indiferença, medo, ódio, revolta. Sem auto-piedade, retalha as memórias em pedaços, afiadas com uma lâmina. Às vezes em tons melancólicos, outras acidamente e até com humor, Ana Maria repassa e arranca tudo o que ela mesma enterrou de mágoa.
“Por que, por que a natureza da mulher exige sempre que seja um homem o eixo da sua vida? Os homens não, eles conseguem colocar sua paixão em outras coisas. Mas o destino das mulheres é remoer uma mágoa de amor numa casa arrumada, diante de uma tapeçaria inacabada.” (pág. 57) 
O primeiro amor, o pai, a filha, o filho preferido, o amigo, a irmã, o marido. Uma vida. Bombal nos conta a vida de uma mulher de forma tão cálida que nos sentimos íntimos de Ana Maria e facilmente esquecemos que estamos no seu velório. Há um enterro para acontecer. Ana Maria precisa ser enterrada.

Blanca Lewín interpreta a escritora no longa de Marcelo Ferrari
Bombal ganhou, ano passado, um filme biográfico sobre os primeiros anos de sua vida adulta, desde o momento que começa a colher os louros (ou as críticas, pois não foi assim tão bem recebido pela sociedade machista) do seu primeiro romance, "La última niebla", até a finalização do seu segundo livro, "Amortalhada". Este também aparece no filme, mas até descrever o contexto da situação seria spoiler, então fica apenas a imagem. O filme, "Bombal" (2011), possui uma fotografia impecável que reconstrói desde os figurinos até os hábitos boêmios da década de 30.

A chilena morreu em 1980, depois de já ter enviuvado duas vezes, sozinha e sem dinheiro. Com pouca saída, no Brasil, as suas obras ressoam devagar com edições clandestinas. Mas valem muito a leitura para todos aqueles corajosos sem medo de se identificar com suas próprias angústias.