María Luisa Bombal. Já ouviu esse nome antes? Ele se refere a uma escritora chilena conhecia por ser uma das primeiras autoras a dar voz erótica literária à mulher. Sim, erótica. Mas não se anime, o erotismo aqui é da década de 30 – 40, o que significa, antes mesmo de sexual, sua postura era rebelde e feminista. Discurso pró-feminista à parte, Bombal não se resume a isso.
Dona de um texto poético e agradável, ela contrapõe essa mesma fluidez da técnica à intensidade do conteúdo – majoritariamente, do universo da mulher, quando, através dos fluxos de pensamentos de suas personagens, traz à tona as angústias e as inquietações que dilaceram a alma.
“Compreendeu que ela era e sempre fora unicamente uma das numerosas paixões de Antonio, uma paixão que por acaso, as circunstâncias tinham acorrentado a vida dele. Tolerava-a, nada mais, aceitava-a, muito a contragosto, como a conseqüência de um gesto irremediável.” (pág. 56)Doeu? Isso porque Bombal é quase sempre isso: um nó na garganta. Seja qual for o tom de sentimentalismo que se você leva a sua vida, Bombal vai cutucá-lo. O trecho acima foi retirado de "Amortalhada", um livro que, num primeiro momento, pode lembrar "Memórias Póstumas de Brás Cubas", escrito por Machado de Assis, uma vez que a personagem está morta e durante o seu funeral repassa a sua vida. Mas é só, termina aqui as semelhanças. Se for comparar Bombal a um escritor brasileiro, ela está mais para Clarice Lispector porque consegue, tal qual Clarice, arrancar de nós aquelas sensação de melancolia durante e após a leitura, de encarar a mediocridade dos atos humanos.
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| Cenas do filme "Bombal", de 2011. |
“Por que, por que a natureza da mulher exige sempre que seja um homem o eixo da sua vida? Os homens não, eles conseguem colocar sua paixão em outras coisas. Mas o destino das mulheres é remoer uma mágoa de amor numa casa arrumada, diante de uma tapeçaria inacabada.” (pág. 57)O primeiro amor, o pai, a filha, o filho preferido, o amigo, a irmã, o marido. Uma vida. Bombal nos conta a vida de uma mulher de forma tão cálida que nos sentimos íntimos de Ana Maria e facilmente esquecemos que estamos no seu velório. Há um enterro para acontecer. Ana Maria precisa ser enterrada.
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| Blanca Lewín interpreta a escritora no longa de Marcelo Ferrari |
A chilena morreu em 1980, depois de já ter enviuvado duas vezes, sozinha e sem dinheiro. Com pouca saída, no Brasil, as suas obras ressoam devagar com edições clandestinas. Mas valem muito a leitura para todos aqueles corajosos sem medo de se identificar com suas próprias angústias.




