18 de mar. de 2013

Meu eu literário

Pamela Faustino

Foto: Nycolas Ribeiro
Sabe quando um texto te faz pensar sobre a sua própria vida? Pois foi exatamente o que aconteceu quando li "Cadê a pessoa?", escrito pela jornalista Eliane Brum. Ela descreve o sofrimento de uma amiga após a leitura de dois textos: “A dama do cachorrinho” e o “Oblómov”. O ponto alto das obras é mostrar como todos nós temos dois eus, um oculto, no qual se encontra o melhor de nós, e um externo, no qual construímos uma fachada para viver em sociedade. Brum mostra que a identificação da amiga com o personagem Oblómov, homônimo da obra, a fez perder seu próprio eu, pois, assim como ele, ela não conseguia lidar com a ideia de ter duas facetas distintas e entrou numa crise existencial.

Na mesma época havia sido realizada uma pesquisa pela Universidade de Ohio, que abordava a identificação das pessoas com as personagens de obras literárias. O estudo apontou que nos tornamos propensos a adquirir várias características das nossas personagens favoritas, sejam homens ou mulheres, porque ao lermos nos colocamos em seus lugares, e, então, passamos a pensar e agir como elas, mas a duração dessa empatia depende da ligação que criamos com essas figuras. Foi exatamente o que aconteceu com B, a amiga de Brum.

No entanto, acredito que esse fenômeno não precisaria ter respaldo de pesquisa para ser comprovado. Enquanto lia o texto de Brum, identifiquei-me com a querida B, visto que, como leitora assídua, diversas vezes eu assumi os sentimentos e as características das minhas personagens favoritas. Assim, cheguei à conclusão que ao longo dos anos, nós, leitores, construímos um novo eu, o eu literário, uma parte de nós que é composta pelo conjunto de características de todas as nossas personagens favoritas (aquelas pelas quais criamos grandes laços de empatia) e em cada fase da vida esse eu literário se mostra mais ou menos intenso.

Lembro que ao ler “Pollyana”, de Eleonor H. Porter, fiquei comovida com a história da menina que utiliza o jogo do contente para amenizar suas frustrações e isto me tornou uma pessoa mais compassiva. Já quando conheci Hermione Granger, personagem do livro “Harry Potter”, de J. K. Rowling, a identificação foi instantânea, ela era inteligente, aventureira e sempre sabia o que fazer nas situações inesperadas, então, por conta dela, o estudo se tornou ainda mais interessante para mim naquela época. 

Foto: Nycolas Ribeiro
 
Seja a Hanna, de “Hanna, o anjo menorzinho de Deus”, com sua imaginação; a Liesel, de “A Menina que roubava livros”, pela sua paixão por livros; o Andarilho, de “O código das águas”, com a determinação e os sonhos; o Werther, de “O sofrimento do jovem Werther”, com seu amor incorrigível; a Capitu, de “Dom Casmurro”, por seu sofrimento e seu ar de dissimulada; a Tris, de “Divergente”, por sua coragem e determinação; o Kvothe, de “O nome do vento”, por sua bagagem cultural ou qualquer outra personagem que eu tenha lido, todas fazem parte do meu eu literário, já que plantaram em mim diversos sentimentos e características que carrego junto a minha própria personalidade.

A verdade é que ao lermos entramos em contato com outros mundos e temos a oportunidade de nos tornarmos outras pessoas, às vezes mais parecidas conosco, às vezes alguém que gostaríamos de ser. Por isso, em cada final de livro, eu padeço numa despedida triste, pois ao fechar uma obra me despeço de um novo universo. Entretanto, faço questão de recomendar os meus livros favoritos, para que, talvez um dia, eu possa encontrar um pouco daquelas personagens em pessoas que compõem a minha realidade, afinal, seria interessante viver em meio a características ficcionais que tanto já me impressionaram.