| Foto: Nycolas Ribeiro |
A música de Chico me fez chegar a uma conclusão dolorosa: o pior do fim de um relacionamento é pedir de volta os livros que foram emprestados. Livros que talvez nem foram lidos, como a obra de Neruda da canção. Quão delicada é essa situação? A pessoa entrega como? Vai até sua casa e deixa na porta? Marca um chá das 05h para fazer uma rápida troca de bens adquiridos no calor do amor? O diálogo seria “Ok, passa em casa às 03h, fiz um bolo de chocolate, comemos enquanto você me devolve meus livros de poesia da Hilda Hilst e eu devolvo seus discos do Pearl Jam”? Não parece muito simples. É civilizado, mas não simples.
Mandar pelo correio pode parecer bastante informal. Entregar para amigos em comum pode ser um pouco delicado. Talvez ignorar esses pertences possa parecer sensato, mas e aquelas anotações que você fez na sua edição toda amassada de “Cem anos de solidão”? Chamem isso de “amor pequeno-burguês”, que se preocupa mais com bens materiais e blá-blá-blá. Afinal, foda-se: queremos nossos pertences para aliviar momentaneamente todas as mágoas.
Vocês me dirão que o amor é mais que livros, discos e DVD’s, mas, na realidade, lá no fundo o amor não tem nada a ver com esses pertences, mas com a relação entre eles e a nossa mágoa. Amar tem dessas de jogos de gato e rato, de frios na barriga, de dúvidas e entregas, de trocas de referências, de produtos e, nesses tempos 2.0, de trocas de arquivos. Assim se criam mais expectativas e mais dores de cabeça, contudo ninguém pensa nisso enquanto está amando e nem deve pensar, pois entregar-se é um ponto-chave em qualquer relação. Quando o amor for se abrasando, aí se pensa em enviar os livros por correio ou talvez vendê-los a um sebo, mas, por favor, sem olhos nos olhos ou apertos de mão.
