![]() |
| Foto: Divulgação |
Uma cartela com onze comprimidos
em um tom de rosa sóbrio e um convite – como uma sutil bula – para experimentar
um placebo por dia. Essa é a proposta do site do músico João Cavalcanti: te
oferecer uma amostra de pílulas de seu álbum “Placebo”, lançado em outubro do
ano passado, apresentando, assim, a estreia na carreira solo do também vocalista
do grupo de samba Casuarina, fundado em 2001. Teimoso, consumi todos em um só
dia e o tratamento terapêutico com este “falso fármaco musical” se mostrou, para
mim, uma das melhores experiências com a música brasileira, já que tenho um
majoritário gosto por artistas internacionais.
Filho do cantor, compositor,
escritor, letrista e músico Lenine, o carioca João Cavalcanti fez um álbum que
carrega todas suas referências musicais (sim, as do pai também) em um casamento
feliz de ritmos diversos espalhados pelas onze canções autorais. “Placebo”
abarca todo o pluralismo cultural que é o Brasil e, principalmente, o próprio
João. MPB, rock, tango, música eletrônica,
e (por que não?) samba, todos coexistindo em uma harmonia musical que nos dá
vontade de juntar um punhado de amigos, pedir inúmeras rodadas de cerveja em um
bar carioca e curtir um ao vivo de Cavalcanti.
Em entrevista exclusiva para a
Revista Tudo e Etc, João conversou sobre toda a ideia e urgência por trás da
carreira solo, como foi o desenvolvimento do álbum “Placebo” e o que pretende
passar com suas músicas. Seria injusto com você, leitor, a privação das respostas
atenciosas do músico, então confira a entrevista na íntegra abaixo:
Tudo e Etc: A ideia por trás do
“Placebo” é justamente que a música é um não-remédio que cura. Quando você
decidiu fazer uma carreira solo paralelamente ao Casuarina, você sentiu a necessidade
de “tomar um placebo”? De onde surgiu essa decisão?
João Cavalcanti: É, de fato, o
Placebo me cura de uma certa distorção a respeito de mim mesmo que acabei por
promover com a carreira do Casuarina - a de eu ser sambista. Jamais renegaria o
samba, e muito menos minha história junto ao Casuarina, mas sempre fiz de tudo
e os rótulos sempre me causaram desconforto. E acredito que o sambista, o
roqueiro, o funkeiro, o sertanejo, recebem esse "aposto" muito mais
pelo que não fazem do que pelo que fazem. Por isso mesmo sempre tive a intenção
de registrar em disco todo o resto que sou. Daí nasceu o embrião de
"Placebo".
Vivemos em uma sociedade que tem
a necessidade de classificar tudo: sexualidade, visão política, cor da pele,
religião... E vale o mesmo para artistas, se ele é de um segmento musical ou de
outro. É impossível colocar Placebo em uma categoria musical pelo mix de ritmos
presentes nele. Não me atrevo a fazê-lo, mas você consegue colocá-lo em uma
classificação?
Não, não consigo. E nem me
preocuparia em fazê-lo. "Placebo" é um disco de música, e gostaria de
encontrá-lo nas prateleiras de música ao redor do mundo.
O álbum traz inúmeras referências
e estilos musicais sem que eles briguem entre si e o resultado é algo
totalmente harmônico e único. Como foi a produção do “Placebo? Como músico, foi
um desafio ou o álbum se desenvolveu naturalmente?
Foi muito natural. O disco
imprime muito do que eu vinha compondo nos últimos anos e não tinha voz pra
representar. Não sou um autor "carudo" que sai mostrando as músicas
pra outros intérpretes, tenho um certo pudor. E o Casuarina só dá vazão aos
sambas que componho. Por isso Placebo é um resultado muito legítimo pra um
processo irreversível e impetuoso dos meus anseios de compositor. Como eu e
Plínio Profeta, produtor do disco, tratamos, inicialmente, canção a canção, o
processo foi menos doloroso e ainda menos comprometido com unidade estética ou
estilística. Aquela história: quem faz sentido é soldado.
Até mesmo em suas letras há esse
encontro de temáticas. Ora você traz uma relação de amor através de metáforas
tecnológicas (“Binário”) e no fim do álbum surge uma composição quase literária
sobre Pernambuco (“Frevo do Contra-êxodo”). Como funciona seu processo de
composição?
Não tenho método - até invejo quem
tenha. Meu processo de produção é totalmente livre e confuso, eventualmente. Às
vezes tudo começa numa ideia, numa frase melódica, num sorriso de um filho,
numa cena de filme... Pode partir de uma analogia super sutil e distante, que
só eu percebo, ou de um estímulo direto como foi o caso do "Frevo",
que comecei a alinhar no avião voltando de Recife.
![]() |
| Foto: Flora Pimental |
Você também é jornalista. De onde surgiu essa
vontade de fazer jornalismo? Você atua ou chegou a atuar nessa área da
comunicação?
Entrei pra comunicação por não
querer as outras coisas, meio que por eliminação. Eu tinha vontade de escrever,
mas muito mais com viés de cronista do que de repórter. Mas achava, à época (e
talvez tivesse razão), que a Faculdade de Comunicação teria mais munições a me
prover do que a de Letras. Tive um emprego formal por alguns anos, em que
lidava com texto pra web, de certa forma com uma abordagem jornalística.
Como está sendo conciliar a
carreira solo com o Casuarina?
As coisas ficam um pouco mais
fáceis à medida que somos, eu e nós, representados pelo mesmo escritório, a
Superlativa. É claro que em um primeiro momento as demandas de show e imprensa
pro Casuarina, banda já estabelecida e com anos de carreira, é maior e,
portanto, não há grandes conflitos de agenda. Mas não tenho ideia de como as
coisas se desenrolarão quando e se minha carreira solo tiver repercussão e
interesse parecido com os do Casuarina. Prefiro não antecipar problemas.
De forma geral, o que você
pretende passar com suas músicas? Vou além: há alguma mensagem para o público
ou é puramente uma extensão do João-pessoa?
Até tenho um espírito meio
panfletário quando trato de defender minhas convicções, mas isso não é
necessariamente antagônico à nudez em que me coloco quando componho. Quero
dizer, tento transmitir mensagens em que intimamente acredito e que, portanto,
são extensões de mim mesmo!


