12 de abr. de 2013

Além do samba: o Placebo de João Cavalcanti

Nycolas Ribeiro

Foto: Divulgação
Uma cartela com onze comprimidos em um tom de rosa sóbrio e um convite – como uma sutil bula – para experimentar um placebo por dia. Essa é a proposta do site do músico João Cavalcanti: te oferecer uma amostra de pílulas de seu álbum “Placebo”, lançado em outubro do ano passado, apresentando, assim, a estreia na carreira solo do também vocalista do grupo de samba Casuarina, fundado em 2001. Teimoso, consumi todos em um só dia e o tratamento terapêutico com este “falso fármaco musical” se mostrou, para mim, uma das melhores experiências com a música brasileira, já que tenho um majoritário gosto por artistas internacionais.

Filho do cantor, compositor, escritor, letrista e músico Lenine, o carioca João Cavalcanti fez um álbum que carrega todas suas referências musicais (sim, as do pai também) em um casamento feliz de ritmos diversos espalhados pelas onze canções autorais. “Placebo” abarca todo o pluralismo cultural que é o Brasil e, principalmente, o próprio João.  MPB, rock, tango, música eletrônica, e (por que não?) samba, todos coexistindo em uma harmonia musical que nos dá vontade de juntar um punhado de amigos, pedir inúmeras rodadas de cerveja em um bar carioca e curtir um ao vivo de Cavalcanti.

Em entrevista exclusiva para a Revista Tudo e Etc, João conversou sobre toda a ideia e urgência por trás da carreira solo, como foi o desenvolvimento do álbum “Placebo” e o que pretende passar com suas músicas. Seria injusto com você, leitor, a privação das respostas atenciosas do músico, então confira a entrevista na íntegra abaixo:

Tudo e Etc: A ideia por trás do “Placebo” é justamente que a música é um não-remédio que cura. Quando você decidiu fazer uma carreira solo paralelamente ao Casuarina, você sentiu a necessidade de “tomar um placebo”? De onde surgiu essa decisão?

João Cavalcanti: É, de fato, o Placebo me cura de uma certa distorção a respeito de mim mesmo que acabei por promover com a carreira do Casuarina - a de eu ser sambista. Jamais renegaria o samba, e muito menos minha história junto ao Casuarina, mas sempre fiz de tudo e os rótulos sempre me causaram desconforto. E acredito que o sambista, o roqueiro, o funkeiro, o sertanejo, recebem esse "aposto" muito mais pelo que não fazem do que pelo que fazem. Por isso mesmo sempre tive a intenção de registrar em disco todo o resto que sou. Daí nasceu o embrião de "Placebo".

Vivemos em uma sociedade que tem a necessidade de classificar tudo: sexualidade, visão política, cor da pele, religião... E vale o mesmo para artistas, se ele é de um segmento musical ou de outro. É impossível colocar Placebo em uma categoria musical pelo mix de ritmos presentes nele. Não me atrevo a fazê-lo, mas você consegue colocá-lo em uma classificação?

Não, não consigo. E nem me preocuparia em fazê-lo. "Placebo" é um disco de música, e gostaria de encontrá-lo nas prateleiras de música ao redor do mundo.


O álbum traz inúmeras referências e estilos musicais sem que eles briguem entre si e o resultado é algo totalmente harmônico e único. Como foi a produção do “Placebo? Como músico, foi um desafio ou o álbum se desenvolveu naturalmente?

Foi muito natural. O disco imprime muito do que eu vinha compondo nos últimos anos e não tinha voz pra representar. Não sou um autor "carudo" que sai mostrando as músicas pra outros intérpretes, tenho um certo pudor. E o Casuarina só dá vazão aos sambas que componho. Por isso Placebo é um resultado muito legítimo pra um processo irreversível e impetuoso dos meus anseios de compositor. Como eu e Plínio Profeta, produtor do disco, tratamos, inicialmente, canção a canção, o processo foi menos doloroso e ainda menos comprometido com unidade estética ou estilística. Aquela história: quem faz sentido é soldado.

Até mesmo em suas letras há esse encontro de temáticas. Ora você traz uma relação de amor através de metáforas tecnológicas (“Binário”) e no fim do álbum surge uma composição quase literária sobre Pernambuco (“Frevo do Contra-êxodo”). Como funciona seu processo de composição?

Não tenho método - até invejo quem tenha. Meu processo de produção é totalmente livre e confuso, eventualmente. Às vezes tudo começa numa ideia, numa frase melódica, num sorriso de um filho, numa cena de filme... Pode partir de uma analogia super sutil e distante, que só eu percebo, ou de um estímulo direto como foi o caso do "Frevo", que comecei a alinhar no avião voltando de Recife.

Foto: Flora Pimental

Você também é jornalista. De onde surgiu essa vontade de fazer jornalismo? Você atua ou chegou a atuar nessa área da comunicação?

Entrei pra comunicação por não querer as outras coisas, meio que por eliminação. Eu tinha vontade de escrever, mas muito mais com viés de cronista do que de repórter. Mas achava, à época (e talvez tivesse razão), que a Faculdade de Comunicação teria mais munições a me prover do que a de Letras. Tive um emprego formal por alguns anos, em que lidava com texto pra web, de certa forma com uma abordagem jornalística.

Como está sendo conciliar a carreira solo com o Casuarina?

As coisas ficam um pouco mais fáceis à medida que somos, eu e nós, representados pelo mesmo escritório, a Superlativa. É claro que em um primeiro momento as demandas de show e imprensa pro Casuarina, banda já estabelecida e com anos de carreira, é maior e, portanto, não há grandes conflitos de agenda. Mas não tenho ideia de como as coisas se desenrolarão quando e se minha carreira solo tiver repercussão e interesse parecido com os do Casuarina. Prefiro não antecipar problemas.

De forma geral, o que você pretende passar com suas músicas? Vou além: há alguma mensagem para o público ou é puramente uma extensão do João-pessoa?

Até tenho um espírito meio panfletário quando trato de defender minhas convicções, mas isso não é necessariamente antagônico à nudez em que me coloco quando componho. Quero dizer, tento transmitir mensagens em que intimamente acredito e que, portanto, são extensões de mim mesmo!