3 de abr. de 2013

O humor silencioso de Orlando Pedroso

Renan Guerra

Foto: acervo pessoal
Conversei via e-mail, há tempos, com Orlando Pedroso e a conversa foi tão boa – ele me respondeu coisas tão bonitas – que eu queria produzir um belo texto e não apenas distribuir as respostas por aqui, mas nada me vinha à mente e de repente o tempo foi passando e as belas respostas do ilustrador foram ficando guardadas apenas no meu e-mail, quando deveriam ser de conhecimento de todos.

De traços delicadamente marcantes e frases aparentemente simples se faz o “humor silencioso” de Orlando Pedroso, que aos poucos tem se espalhado pela internet. Porém, ele que trabalha com ilustração desde 1979, é cauteloso e afirma “na net, o trabalho circula muito, mas ‘likes’ não pagam contas”. O texto criativo não veio, mas as palavras de Orlando já dizem muito de seu olhar sincero sobre o mundo.


O desenho e as lembranças:
A lembrança que eu tenho é a de que meu pai e todos os meus irmãos (3) desenhavam de alguma forma. Entre os irmãos era uma briga pelo papel manteiga aonde o pão vinha embrulhado todos os dias e era aquilo o que a gente teria até o dia seguinte. Lembro dos desenhos dos jornais que chegavam gratuitamente em casa e, mais tarde um pouco, nos do Maurício de Souza que ilustravam a folhinha. Depois vieram os gibis do Tarzan, Super-Homem, Homem-Aranha, Pasquim, Folha de São Paulo, etc.


A busca por uma voz própria:
Durante anos você tenta descobrir onde se encaixa o seu desenho, procura o que dizer. No meu caso, o trabalho profissional não foi suficiente e acabei me dedicando muito a um trabalho mais pessoal que pode ou não vir a ser publicado. Esse trabalho acabou me fazendo economizar caminhões de dinheiro em terapia. :>) 

O porquê do uso do fotolog:
O fotolog passou a ser o meu diário e continuo lá. Tem mais de 1000 desenhos e me dá uma preguiça louca de migrar tudo isso pra outro lugar.
Então, fico.
Agora tenho me dedicado mais ao meu blog no uol e lá faço diferente do flog. No fim, tudo se mistura porque está sempre dentro do monitor de alguém interessado. 

Sobre viver das ilustrações:
Vivi e vivo. Eu sempre trabalhei com imprensa e com livros. Ilustrando ou fazendo projetos gráficos. Hoje ninguém lê jornal e os livros têm um alcance limitado, mas nesse círculo adquiri respeito e credibilidade e é do que vivo.
Se você não é banqueiro e trabalha, tudo ficou mais difícil. O Brasil é um país inóspito, que maltrata seu povo desde sempre. Eu trabalho desde 1979 e nunca soube o que é trabalhar sem que o país estivesse passando por uma crise. O que eu nunca iria imaginar em meus tenros anos é que crises iriam se tornar um grande negócio para os "espertonildos".

Sobre a criação:
Imaginação!
Para executar as ideias, o que estiver à mão ou o que for conveniente. Pode ser lápis carvão, guache, acrílica, nanquim, lápis de cor, o que for.

Das influências:
Rapaz, a lista é enorme, mas posso falar de Ralph Steadman, [Roberto] Negreiros, Crist, Buster Keaton, Woody Allen, David Lynch, Robert Frank, Amos Oz, Luis Fernando Verissimo, Nelson Rodrigues, Tom Waits, Luis Melodia, David Bowie e Jamelão.
Dos orgulhos:
Ter conseguido chegar até aqui, sustentado minha família e alguns sonhos com o desenho e ainda os amigos que fiz.