22 de mai. de 2013

Os mineiros da Bona Fortuna

Nycolas Ribeiro

Foto: Divulgação
Esta semana a banda mineira Bona Fortuna divulgou um vídeo acústico para a música “A Solidão” e, com um vestuário que lembra os caras do Munford and Sons, André Araújo (voz e guitarra), Davi Queiroz (guitarra), Felipe D'Angelo (piano), Filipe Oliveira (baixo) e Lucas Oliveira (bateria), mostram uma harmonia musical invejável em um vídeo fotograficamente bonito, gravado no Hotel do Teatro em Ouro Preto. Influenciado pela produção audiovisual, a banda voltou a tocar no repeat do meu Media Player. 

Conheci a Bona Fortuna pela indicação de um amigo em março, quando a banda lançou o segundo álbum da carreira, Reviver. “Lembrou-me um pouco Moptop”, comentei com quem me sugeriu ouvir as músicas da banda de Mariana, Minas Gerais. Após baixar os dois discos da Bona Fortuna em seu site oficial, encontrei melodias que me remetiam ao som do Apanhador Só e Los Hermanos, apesar dos caras não tentarem atingir essa semelhança propositalmente. Já encantado com os arranjos musicais, atentei para as letras das músicas e percebi que é nas belas composições (vide De Mala e Cuia e Por Uma Felicidade) que o grupo mostra sua maior fortuna enquanto banda autoral e independente no cenário musical brasileiro.

Em entrevista por e-mail, me surpreendi novamente: ao invés de um integrante responder a todas as perguntas e se fazer o porta voz da banda (o que é bastante comum), os cinco músicos foram atenciosos e dividiram espaço na entrevista, demonstrando que o espírito de coletividade e harmonia da banda não se dá só em estúdio ou nos shows. O Bona Fortuna falou com a Revista Tudo e Etc sobre suas influências, sonhos, download gratuito e sobre o apoio da Lei de Incentivo à Cultura no Brasil. Confira a entrevista na íntegra abaixo:

Quais são as principais influências musicais da banda?

FELIPE D'ANGELO: As influências são muitas e variadas. Ouvimos bastante as bandas independentes brasileiras e não podemos nos esquecer das coisas antigas, os grandes clássicos. Os Beatles, The Beach Boys e Os Mutantes tiveram muita importância no processo de criação das músicas do álbum Reviver.

É bem visível (pelas músicas) que, de um álbum para o outro, a banda amadureceu muito. Esse foi um processo natural ou vocês sentiram a necessidade de produzir algo mais maduro?

FILIPE OLIVEIRA: O nosso primeiro álbum foi lançado oficialmente em 2012, mas foi produzido e gravado em meados de 2010. Além disso, foi um projeto restrito apenas a mim e ao André, já que os demais integrantes entraram na banda somente após a finalização do primeiro CD. Assim, acredito que a maior diferença esteja tanto no meu amadurecimento como compositor e produtor quanto no amadurecimento da Bona Fortuna como banda. Essa evolução não é nenhum privilégio, é apenas o reflexo do longo lapso temporal que separa os dois álbuns e a interferência dos novos músicos no processo de criação de arranjos. Contudo, a essência da banda ainda está presente e vários elementos característicos do trabalho anterior foram até mesmo intensificados no Reviver, como, por exemplo, os coros que marcam ainda mais as músicas neste álbum.


Comumente achamos bandas que estão começando e já cobram o download de suas músicas, posição que vocês não têm. Quando e por que vocês decidiram que iriam disponibilizar os álbuns gratuitamente para download?

LUCAS OLIVEIRA: Este é um paradigma que nos acompanha desde a criação da banda. É tudo uma questão de prioridade, na medida em que nosso principal objetivo é levar nossa música ao maior número possível de pessoas. Infelizmente, percebemos que muitas vezes o download pago serve como uma barreira ao conhecimento de novas bandas autorais. Penso que já se criou uma cultura de se esperar o CD gratuito, mas espero que aos poucos vá mudando e que se entenda que a música, como qualquer outra arte, merece seu reconhecimento e recompensa.

Em um dos releases vocês dizem que contaram com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura de MG para concretizar os projetos da banda. Qual importância vocês atribuem a esse tipo de apoio?

DAVI QUEIROZ: No caso da Bona Fortuna a lei auxiliou no financiamento da gravação do nosso segundo álbum, Reviver. Gravar um disco em um estúdio muito bom e com uma qualidade excepcional não é barato, e para bandas que estão começando, principalmente que faziam parte de um meio independente, fica muito difícil. O mercado é muito fechado, encontramos muitas dificuldades para divulgar o nosso trabalho e ter um retorno financeiro. Dessa forma, a Lei de Incentivo à Cultura catalisa o processo e nos auxilia a preparar um ótimo material de divulgação, tanto do álbum quanto do próprio nome da banda. Além disso é muito importante não só para a banda, mas para a sociedade, que a cultura seja estimulada e, como consequência, surjam novos projetos, sejam esses musicais, cênicos etc. É extremamente valioso para um artista sentir-se apoiado para continuar seu trabalho, uma vez que sem tal apoio a possibilidade de desistência é imensa.


O que vocês pretendem passar com as músicas e as letras da Bona Fortuna?

FILIPE OLIVEIRA: Quando estou compondo procuro não pensar nas consequências, possíveis interpretações e alcance das canções, já que isso limitaria o processo de criação e restringiria os temas. Assim, não há uma pretensão clara acerca do que queremos passar ou quem queremos atingir com as músicas, simplesmente as criamos com a maior honestidade e entrega possível e observamos posteriormente o que elas acabam representando e como são assimiladas por pessoas distintas. E é extremamente gratificante quando ouvimos que determinada música foi muito importante em um período difícil na vida de algum amigo ou fã, ou que o certa canção da banda é a "música-tema" de um relacionamento (rs), etc.

Sem ter medo de hipérboles, qual é o maior sonho da banda? Onde vocês querem chegar?

ANDRÉ ARAÚJO: Eu acredito que um dos sonhos de cada um é poder viver da música, fazer com que a Bona Fortuna seja o nosso sustento. E, além disso, o reconhecimento em nível nacional, shows pelo país e até fora dele. Tornar a banda o acontecimento de nossas vidas, aquilo que a gente vai deixar pra filhos, netos, e assim por diante. É isso, como você disse, sem medo de hipérboles. (rs)

- Baixe gratuitamente os dois álbuns da Bona Fortuna clicando aqui.