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| Foto: Divulgação |
Conheci a Bona Fortuna pela
indicação de um amigo em março, quando a banda lançou o segundo álbum da
carreira, Reviver. “Lembrou-me um pouco Moptop”, comentei com quem me sugeriu
ouvir as músicas da banda de Mariana, Minas Gerais. Após baixar os dois discos
da Bona Fortuna em seu site oficial, encontrei melodias que me remetiam ao som
do Apanhador Só e Los Hermanos, apesar dos caras não tentarem atingir essa
semelhança propositalmente. Já encantado com os arranjos musicais, atentei para
as letras das músicas e percebi que é nas belas composições (vide De Mala e Cuia e Por Uma Felicidade) que o grupo mostra
sua maior fortuna enquanto banda autoral e independente no cenário musical
brasileiro.
Em entrevista por e-mail, me
surpreendi novamente: ao invés de um integrante responder a todas as perguntas
e se fazer o porta voz da banda (o que é bastante comum), os cinco músicos foram
atenciosos e dividiram espaço na entrevista, demonstrando que o espírito de
coletividade e harmonia da banda não se dá só em estúdio ou nos shows. O Bona
Fortuna falou com a Revista Tudo e Etc sobre suas influências, sonhos, download
gratuito e sobre o apoio da Lei de Incentivo à Cultura no Brasil. Confira a
entrevista na íntegra abaixo:
Quais são as principais
influências musicais da banda?
FELIPE D'ANGELO: As influências
são muitas e variadas. Ouvimos bastante as bandas independentes brasileiras e
não podemos nos esquecer das coisas antigas, os grandes clássicos. Os Beatles,
The Beach Boys e Os Mutantes tiveram muita importância no processo de criação
das músicas do álbum Reviver.
É bem visível (pelas músicas)
que, de um álbum para o outro, a banda amadureceu muito. Esse foi um processo
natural ou vocês sentiram a necessidade de produzir algo mais maduro?
FILIPE OLIVEIRA: O nosso primeiro
álbum foi lançado oficialmente em 2012, mas foi produzido e gravado em meados
de 2010. Além disso, foi um projeto restrito apenas a mim e ao André, já que os
demais integrantes entraram na banda somente após a finalização do primeiro CD.
Assim, acredito que a maior diferença esteja tanto no meu amadurecimento como
compositor e produtor quanto no amadurecimento da Bona Fortuna como banda. Essa
evolução não é nenhum privilégio, é apenas o reflexo do longo lapso temporal
que separa os dois álbuns e a interferência dos novos músicos no processo de
criação de arranjos. Contudo, a essência da banda ainda está presente e vários
elementos característicos do trabalho anterior foram até mesmo intensificados
no Reviver, como, por exemplo, os coros que marcam ainda mais as músicas neste
álbum.
Comumente achamos bandas que
estão começando e já cobram o download de suas músicas, posição que vocês não
têm. Quando e por que vocês decidiram que iriam disponibilizar os álbuns
gratuitamente para download?
LUCAS OLIVEIRA: Este é um
paradigma que nos acompanha desde a criação da banda. É tudo uma questão de
prioridade, na medida em que nosso principal objetivo é levar nossa música ao
maior número possível de pessoas. Infelizmente, percebemos que muitas vezes o
download pago serve como uma barreira ao conhecimento de novas bandas autorais.
Penso que já se criou uma cultura de se esperar o CD gratuito, mas espero que
aos poucos vá mudando e que se entenda que a música, como qualquer outra arte,
merece seu reconhecimento e recompensa.
Em um dos releases vocês dizem
que contaram com o apoio da Lei de Incentivo à Cultura de MG para concretizar
os projetos da banda. Qual importância vocês atribuem a esse tipo de apoio?
DAVI QUEIROZ: No caso da Bona
Fortuna a lei auxiliou no financiamento da gravação do nosso segundo álbum,
Reviver. Gravar um disco em um estúdio muito bom e com uma qualidade
excepcional não é barato, e para bandas que estão começando, principalmente que
faziam parte de um meio independente, fica muito difícil. O mercado é muito
fechado, encontramos muitas dificuldades para divulgar o nosso trabalho e ter
um retorno financeiro. Dessa forma, a Lei de Incentivo à Cultura catalisa o
processo e nos auxilia a preparar um ótimo material de divulgação, tanto do
álbum quanto do próprio nome da banda. Além disso é muito importante não só
para a banda, mas para a sociedade, que a cultura seja estimulada e, como
consequência, surjam novos projetos, sejam esses musicais, cênicos etc. É
extremamente valioso para um artista sentir-se apoiado para continuar seu
trabalho, uma vez que sem tal apoio a possibilidade de desistência é imensa.
O que vocês pretendem passar com
as músicas e as letras da Bona Fortuna?
FILIPE OLIVEIRA: Quando estou
compondo procuro não pensar nas consequências, possíveis interpretações e
alcance das canções, já que isso limitaria o processo de criação e restringiria
os temas. Assim, não há uma pretensão clara acerca do que queremos passar ou
quem queremos atingir com as músicas, simplesmente as criamos com a maior
honestidade e entrega possível e observamos posteriormente o que elas acabam
representando e como são assimiladas por pessoas distintas. E é extremamente
gratificante quando ouvimos que determinada música foi muito importante em um
período difícil na vida de algum amigo ou fã, ou que o certa canção da banda é
a "música-tema" de um relacionamento (rs), etc.
Sem ter medo de hipérboles, qual
é o maior sonho da banda? Onde vocês querem chegar?
ANDRÉ ARAÚJO: Eu acredito que um
dos sonhos de cada um é poder viver da música, fazer com que a Bona Fortuna
seja o nosso sustento. E, além disso, o reconhecimento em nível nacional, shows
pelo país e até fora dele. Tornar a banda o acontecimento de nossas vidas,
aquilo que a gente vai deixar pra filhos, netos, e assim por diante. É isso,
como você disse, sem medo de hipérboles. (rs)


