Acredito que as coisas que me conquistam aos poucos são as mais intensas, e assim tem sido com as canções de Ana Larousse, em seu lindo disco “Tudo começou aqui”. Ele me chegou em um momento certo, no qual eu precisava ser acolhido pela amargura de suas letras e pela doçura de seu ritmo. É num dia ruim, em que estamos cansados das demandas diárias e de viver em sociedade (tendo que jogar com os defeitos e artimanhas dos outros), que Ana cantarola baixinho em meus ouvidos: “A vida cansa pra valer / Eu mesma vou adoecer / Talvez antes de ter histórias pra contar / Antes de ver o amor passar / Isso deve doer.” Aí é paixão completa, pois como escreveu Luiz Felipe Leprevost, “Ana canta o que dói de um jeito que salva”.
Sob essa ótica que capta a dor de existir de forma leve e acolhedora, conversei via e-mail com Ana, sobre suas referências, histórias e parcerias:
Revista Tudo e Etc: Você começou cantando rock, gritando por Curitiba. Como foi essa transição para um canto mais suave? Há a possibilidade de em algum momento cantar novamente canções mais pesadas?
Ana: Quando eu entrei na Faculdade, entrei em contato com várias pessoas que tinham muito contato com música brasileira e acabei conhecendo muita coisa por eles. Levei essa bagagem pra França e, lá, por eu ter ficado sozinha com meu violão, sem guitarras ou baterias em volta de mim, canções suaves começaram a surgir. Foi um processo bem natural. E não posso deixar de mencionar a influência do Leo Fressato nisso, que compunha canções bastante delicadas. Nossos universos se misturaram. Ele passou a gritar e, hoje, é uma das maiores características dele, aquele pescoço com veias saltando de tanto gritar. : ) E sim! Tenho muita vontade de brincar de canções mais pesadas. Aos poucos isso está voltando pra mim. Talvez não na voz, mas nos arranjos. Mas ainda levo como uma brincadeira. Usaria isso hoje de forma mais madura e menos garagem. ;) Como aparece na faixa Vai, Menina. Dá pra sentir ali uma influência mais pesada.
Nesses dois polos, de canções mais delicadas e de rock, suas influências devem ser bem amplas. Quem mais lhe inspirou a chegar até este disco?
Ouvi rock e folk a vida toda. Simon and Garfunkel, Pink Floyd, Beatles, Jimi Hendrix, Belle and Sebastian, Janis Joplin, Beach Boys. Pra chegar nesse disco, digo que os mais presentes foram Pink Floyd, Beatles, Mutantes, Belle and Sebastian e, claro, a sonoridade dos trabalhos do Lemoskine e d'A Banda Mais Bonita da Cidade, duas bandas dais quais o Rodrigo Lemos, produtor do meu disco, faz parte.
Você já trabalha com música há um bom tempo, qual foi o momento em que decidiu: esta é a hora de "Tudo começou aqui" nascer?
Quando eu voltei da França com uma bagagem grande de composições. Conheci o Rodrigo e convidei ele pra produzir meu disco e dai fomos fazendo tudo com calma. Eu sempre me vi como compositora e não como interprete e transformar isso foi um processo lento. Já estou com uma coleção imensa de novas composições e pensando já no segundo disco! : )
O disco foi financiado pelo Catarse. Como você percebe a importância destes novos sistemas de colaboratividade para o lançamento de artistas novos?
É uma forma linda de você incluir os teus fãs no processo do disco. Eu criei um vínculo maior com eles e sinto que eles acabaram tendo uma relação diferente com o disco por terem feito parte, torcido, ajudado. O disco acaba sendo deles também. É gostoso isso. Sem deixar de mencionar, claro, na possibilidade de se fazer um trabalho independente de qualidade, com um apoio financeiro de quem acredita muito no teu trabalho e de quem tem interesse em que esse trabalho exista. De forma muito simples, rápida, segura e sem burocracias intermináveis que envolvem um projeto de lei e podendo ser dono do próprio nariz, sem vínculo algum com gravadoras. Acho que é uma ferramenta essencial para essa nova fase em que a música independente está encontrando um lugar muito bom no mercado fonográfico brasileiro. Ajuda a transformar a relação entre os consumidores de música e os músicos. E tem muita gente boa saindo disso! Fico feliz demais de fazer parte disso tudo!
A parceria com Leo Fressato é algo bem marcante no disco. Como vocês se conheceram e como funciona essa parceria?
Nos encontramos na faculdade, em 2004! Sintonia imediata e bastante inesperada, pois vinhamos de universos muito diferentes. Nossa parceria se concentra muito mais em inspirações do que em criações conjuntas. Tanto ele quanto eu somos compositores solitários, não conseguimos muito desenvolver parceiras musicais com outros compositores. Mas a gente é muito próximo e dividimos ideias, canções, damos muito pitaco nas músicas um do outro e nos influenciamos muito nesse processo. Sem contar que dividimos muitos palcos e ainda vamos dividir mais um tantão. Nossas poesias e nossa estética são bastante complementares. Acho que é um encontro bem bonito!
As canções do disco são muito pessoais e feitas em vários momentos (como você conta nos postais que vem com o encarte digital). Desse modo, como você chegou as 10 canções que compõem o "Tudo começou aqui"? Teve que selecioná-las ou você já sentia que elas eram para o álbum?
Eu selecionei as canções que mais marcaram períodos específicos em Paris e também as que tratavam de solidão. Toda música fala, de algum jeito, de solidão e foi meu ponto de partida para seleciona-las. Depois fui pegando as que, dentro disso, contavam um pouco o processo pelo qual passei morando lá, mas isso, claro, só eu consigo perceber, provavelmente. rsrs Mas é quase uma autobiografia dos três anos em que morei na França (ainda que algumas tenham sido feitas em férias no Brasil).
Seu olhar sobre o mundo tem um tanto de melancolia, mas ao mesmo tempo uma ternura encantadora. Você sabe dizer em que ponto esses sentimentos se mesclam em sua música? Essa alegria-triste ou vice-versa?
Eu sou uma pessoa bastante melancólica, embora muito alegre. Essa alegria triste sou eu. E como as músicas são muito sinceras e autobiográficas, elas acabam saindo assim também, como se levassem meu DNA colado nelas. Tenho um jeito bastante contemplativo de viver. Adoro observar, pensar, refletir, questionar, contemplar tudo, repensar tudo. Por isso a melancolia. Sou apegada demais a esses momentos de solidão, janela, estrada, um chá, chuva, lugares bonitos e muitos pensamentos bagunçando tudo. Mas, por outro lado, sou apaixonada pela vida e pela beleza, então consigo encontrar muita coisa linda na tristeza e isso de toda dor é muito lúdico, eu acho. Não que eu não sofra. Eu sofro! rs Mas eu acho que sou boa em sublimar isso. Quase como se meu corpo pedisse sofrimento só pra depois poder respirar e se apaixonar novamente enchendo o mundo de canções. Fui confusa nessa resposta, né? rsrs Mas isso sou eu também! ;)
Ana: Quando eu entrei na Faculdade, entrei em contato com várias pessoas que tinham muito contato com música brasileira e acabei conhecendo muita coisa por eles. Levei essa bagagem pra França e, lá, por eu ter ficado sozinha com meu violão, sem guitarras ou baterias em volta de mim, canções suaves começaram a surgir. Foi um processo bem natural. E não posso deixar de mencionar a influência do Leo Fressato nisso, que compunha canções bastante delicadas. Nossos universos se misturaram. Ele passou a gritar e, hoje, é uma das maiores características dele, aquele pescoço com veias saltando de tanto gritar. : ) E sim! Tenho muita vontade de brincar de canções mais pesadas. Aos poucos isso está voltando pra mim. Talvez não na voz, mas nos arranjos. Mas ainda levo como uma brincadeira. Usaria isso hoje de forma mais madura e menos garagem. ;) Como aparece na faixa Vai, Menina. Dá pra sentir ali uma influência mais pesada.
Nesses dois polos, de canções mais delicadas e de rock, suas influências devem ser bem amplas. Quem mais lhe inspirou a chegar até este disco?
Ouvi rock e folk a vida toda. Simon and Garfunkel, Pink Floyd, Beatles, Jimi Hendrix, Belle and Sebastian, Janis Joplin, Beach Boys. Pra chegar nesse disco, digo que os mais presentes foram Pink Floyd, Beatles, Mutantes, Belle and Sebastian e, claro, a sonoridade dos trabalhos do Lemoskine e d'A Banda Mais Bonita da Cidade, duas bandas dais quais o Rodrigo Lemos, produtor do meu disco, faz parte.
Você já trabalha com música há um bom tempo, qual foi o momento em que decidiu: esta é a hora de "Tudo começou aqui" nascer?
Quando eu voltei da França com uma bagagem grande de composições. Conheci o Rodrigo e convidei ele pra produzir meu disco e dai fomos fazendo tudo com calma. Eu sempre me vi como compositora e não como interprete e transformar isso foi um processo lento. Já estou com uma coleção imensa de novas composições e pensando já no segundo disco! : )
O disco foi financiado pelo Catarse. Como você percebe a importância destes novos sistemas de colaboratividade para o lançamento de artistas novos?
É uma forma linda de você incluir os teus fãs no processo do disco. Eu criei um vínculo maior com eles e sinto que eles acabaram tendo uma relação diferente com o disco por terem feito parte, torcido, ajudado. O disco acaba sendo deles também. É gostoso isso. Sem deixar de mencionar, claro, na possibilidade de se fazer um trabalho independente de qualidade, com um apoio financeiro de quem acredita muito no teu trabalho e de quem tem interesse em que esse trabalho exista. De forma muito simples, rápida, segura e sem burocracias intermináveis que envolvem um projeto de lei e podendo ser dono do próprio nariz, sem vínculo algum com gravadoras. Acho que é uma ferramenta essencial para essa nova fase em que a música independente está encontrando um lugar muito bom no mercado fonográfico brasileiro. Ajuda a transformar a relação entre os consumidores de música e os músicos. E tem muita gente boa saindo disso! Fico feliz demais de fazer parte disso tudo!
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| Encarte do disco "Tudo começou aqui" |
A parceria com Leo Fressato é algo bem marcante no disco. Como vocês se conheceram e como funciona essa parceria?
Nos encontramos na faculdade, em 2004! Sintonia imediata e bastante inesperada, pois vinhamos de universos muito diferentes. Nossa parceria se concentra muito mais em inspirações do que em criações conjuntas. Tanto ele quanto eu somos compositores solitários, não conseguimos muito desenvolver parceiras musicais com outros compositores. Mas a gente é muito próximo e dividimos ideias, canções, damos muito pitaco nas músicas um do outro e nos influenciamos muito nesse processo. Sem contar que dividimos muitos palcos e ainda vamos dividir mais um tantão. Nossas poesias e nossa estética são bastante complementares. Acho que é um encontro bem bonito!
As canções do disco são muito pessoais e feitas em vários momentos (como você conta nos postais que vem com o encarte digital). Desse modo, como você chegou as 10 canções que compõem o "Tudo começou aqui"? Teve que selecioná-las ou você já sentia que elas eram para o álbum?
Eu selecionei as canções que mais marcaram períodos específicos em Paris e também as que tratavam de solidão. Toda música fala, de algum jeito, de solidão e foi meu ponto de partida para seleciona-las. Depois fui pegando as que, dentro disso, contavam um pouco o processo pelo qual passei morando lá, mas isso, claro, só eu consigo perceber, provavelmente. rsrs Mas é quase uma autobiografia dos três anos em que morei na França (ainda que algumas tenham sido feitas em férias no Brasil).
Seu olhar sobre o mundo tem um tanto de melancolia, mas ao mesmo tempo uma ternura encantadora. Você sabe dizer em que ponto esses sentimentos se mesclam em sua música? Essa alegria-triste ou vice-versa?
Eu sou uma pessoa bastante melancólica, embora muito alegre. Essa alegria triste sou eu. E como as músicas são muito sinceras e autobiográficas, elas acabam saindo assim também, como se levassem meu DNA colado nelas. Tenho um jeito bastante contemplativo de viver. Adoro observar, pensar, refletir, questionar, contemplar tudo, repensar tudo. Por isso a melancolia. Sou apegada demais a esses momentos de solidão, janela, estrada, um chá, chuva, lugares bonitos e muitos pensamentos bagunçando tudo. Mas, por outro lado, sou apaixonada pela vida e pela beleza, então consigo encontrar muita coisa linda na tristeza e isso de toda dor é muito lúdico, eu acho. Não que eu não sofra. Eu sofro! rs Mas eu acho que sou boa em sublimar isso. Quase como se meu corpo pedisse sofrimento só pra depois poder respirar e se apaixonar novamente enchendo o mundo de canções. Fui confusa nessa resposta, né? rsrs Mas isso sou eu também! ;)
Baixe o disco "Tudo começou aqui" no site da Ana Larrouse!




