Vitor Ramil é um músico com mais de 30 anos de carreira, que enveredou pelo caminho da literatura em 1995, com o lançamento de “Pequod”. Este ano ele lança seu quarto livro, intitulado “A Primavera da Pontuação” (Cosac Naify, R$ 32,90), que se passa num fantasioso mundo linguístico, onde pontos e vírgulas ganham vida.
Para alguns, Vitor é sempre o irmão do Kleiton e do Kledir, para outros agora virou o pai do Ian, mas em geral Vitor é um artista múltiplo e nossa conversa não poderia deixar de corresponder a sua pluralidade.
T&E: “A Primavera da Pontuação” é a sua terceira obra de ficção e nele há um universo novo, fictício, um mundo da linguagem. Sendo que os seus dois livros anteriores versavam sobre acontecimentos na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, como você chegou a essa nova estética criada para o livro? E em que momento esse universo linguístico ganhou vida?
Vitor: Acho que a forma de cada texto meu corresponde diretamente ao seu tema. Em “Pequod” temos uma simulação do que se supõe ser a forma da memória; em “Satolep”, instantâneos literários para instantâneos fotográficos; e em “A primavera da pontuação” o tema é o material de que o próprio texto é feito, construção que é reforçada pela programação visual: forma e fundo estão explícitas no objeto-livro. Esse "mundo paralelo" linguístico ganhou vida no cotidiano da minha casa. Sempre fiz muitos jogos de linguagem com meus filhos, jogos criativos, engraçados, surrealistas. E minha mulher, Ana Ruth, que é linguista e a quem o livro é dedicado, sempre participou com seus conhecimentos científicos. O livro é essa mistura de invenção, brincadeira e conhecimento.
Você disse que o livro é dedicado a sua esposa, Ana Ruth Moresco Miranda, que é linguista e professora na área. Fale-nos mais sobre como ela foi uma inspiração e uma incentivadora para a criação desse universo?
Ele foi inspiradora, incentivadora e, mais ainda, foi uma espécie de orientadora, discutiu comigo questões a fundo. O livro é muito bem fundamentado e devo isso a ela, que aturou com muita paciência meus interrogatórios, tirou minhas dúvidas, colocou a minha disposição uma vasta bibliografia.
Na edição do livro pela Cosac Naify, a pontuação recebe um tratamento de diagramação especial, que lhe faz saltar ao texto. Isso foi uma proposição sua? Era algo que você havia imaginado?
Minha editora, Heloisa Jahn, desde o começo falava em dar algum tratamento especial à pontuação. Imagino que a partir disso o departamento gráfico da Cosac desenvolveu esse visual incrível para o texto. Achei brilhante, perfeito. A única coisa que sugeri foi que o ponto final ficasse no lugar certo, porque é o momento em que, na trama, as coisas se acomodam, entram nos eixos.
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| foto: Satolep Press |
Ano passado foi lançado o seu disco “Foi no mês que vem” e atualmente você já está produzindo um novo álbum. Como você concilia a porção Vitor escritor com a de Vitor músico? Há uma separação ou é tudo um grande amálgama?
Há uma separação na vida real: preciso dar espaços específicos para cada um deles. Por exemplo, um quer viajar, o outro que ficar em casa. Mas no fundo é uma coisa só: necessidade e modo de expressão que não se explicam.
Você ainda segue fazendo shows do disco anterior. Como o ao vivo influencia no seu trabalho, tanto de músico quanto de escritor? O Barão de Satolep (sua persona sobre os palcos) ainda é uma figura que se faz presente?
O Barão mora num castelo situado em uma zona remota dentro de mim. De lá ele manda recados, se manifesta eventualmente. O trabalho ao vivo é estimulante, sim. É um momento de intensidade, de contato direto com o público, de performance plena. É como respirar fundo um ar puro que te renova, que te dá energia para seguir produzindo na solidão de casa ou do estúdio. E no palco eu sou cantor, que é o mais primitivo em mim. Cantar foi o primeiro que fiz. É como se todo o resto das minhas atividades fosse extensão da minha voz.
Sobre o seu próximo disco, você está em que fase de produção? Tem alguma informação sobre ele ou uma previsão de lançamento?
Eu ia entrar agora em estúdio para tirar tempos, gravar violões-guia, mas decidi esperar um pouco mais. Estou partindo para uma temporada de seis meses na Europa, para viver lá. Isso vai ser forte para mim em termos de experiência. Não é prudente começar um trabalho antes de partir. Já tenho muitas composições novas, dariam vários discos, mas acho que vou compor muito lá, sei disso, porque os lugares me afetam demais. Então vou deixar a vida me levar, como canta o Zeca Pagodinho.
Neste ano, o Ian Ramil lançou seu álbum de estreia, antes disso ele já havia participado do seu disco “Foi no mês que vem”. Há claramente uma troca entre vocês dois, no âmbito profissional, para além das figuras de pai e filho. Você chegou a opinar ou acompanhar a produção do disco dele? E você acredita que há algum tipo de pressão sobre o trabalho do Ian, visto a família a qual ele pertence?
Sim, há muita troca entre nós. Mas ele não quis que eu acompanhasse a produção do disco dele, decisão que tomou com muita sabedoria. Ele tem muita personalidade e carisma. Isso está patente no trabalho dele, que é tão pessoal. Por isso, se houve alguma pressão sobre ele pelo fato de ser meu filho, ela logo se desfez e ele nem chegou a tomar conhecimento. Vejo que há muita simpatia e receptividade em relação ao Ian, talvez justamente por ele ser tão autoral no que faz. Acho que nossa família tem essa particularidade: podemos fazer coisas muito distintas uns dos outros. Talvez isso signifique que somos mesmo uma família de artistas. O tempo dirá.
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| foto: Satolep Press |
A família de vocês é mesmo muito ligada ao mundo das artes, cada um com sua autenticidade, como você disse. Por isso, gostaria de saber se há uma troca constante de ideias entre todos? As reuniões de família acabam em música, escritos e criações?
Sim, sempre houve trocas de ideias, reuniões musicais etc, em todos os tempos: quando eu morava com meus pais, Kleber e Dalva, e meus irmãos e irmãs, Kleber, Kleiton, Kledir, Branca e Kátia, e também depois, quando nos separamos e montamos outras famílias. Hoje, quando estamos todos reunidos, os filhos mais os doze netos e três bisnetos da minha mãe, quem chega de fora logo percebe que todos tocam ou cantam ou se envolvem com o mundo da arte de alguma outra maneira. A arte é um tema familiar. O primeiro bisneto da minha mãe já toca violino, tira melodias de ouvido... Meus pais não podiam imaginar que a coisa daria tão certo quando se propuseram a colocar todos os filhos para estudar música. No caso das minhas irmãs, também o ballet clássico.
Esta última pergunta é sobre algo que você muito já falou: a ambivalência entre ser brasileiro e ser gaúcho. Há alguns dias a foto da cantora Shana Müller segurando uma bandeira do Brasil rendeu comentários separatistas e bairristas, causando surpresa à cantora. Não sei se você chegou a acompanhar o caso, porém, como você lida atualmente com essas duas porções, gaúcho e brasileiro, em seu trabalho? E isso já lhe rendeu situações como a da cantora?
Sim, acompanhei. No meu caso, a busca de uma estética do frio (de uma linguagem sul-brasileira, que falasse de nós com mais propriedade, reagindo tanto aos estereótipos de brasilidade como aos de gauchidade) surgiu justamente num período, no fim dos anos 80, em que o separatismo estava muito em voga. Na época, eu estava reagindo àquele estado de coisas. Vivi situações como a da Shana e talvez ainda piores. O que é bizarro no caso dela é que ela é uma cantora muito identificada com a música regionalista, com o mundo do gauchismo. No meu caso, sempre fui mais desvinculado de tudo, um livre-criador, livre-pensador, que, parafraseando Jorge Luis Borges, acredita ter direito tanto à tradição gaúcha como à "brasileira" ou a qualquer outra que toque a minha sensibilidade. Sempre fui múltiplo, me expus e falei muito, sempre fui fácil de ser atacado (o que às vezes devo ter merecido). Achei o episódio da Shana surpreendente pelo que a figura bem definida dela representa, mas também porque achava que os ânimos haviam se amainado muito nesse terreno em que as vozes mais sensatas, as abordagens mais inteligentes pareciam ter se imposto. Eu pensava que uma mentalidade mais tosca só aparecesse agora em forma de piada, nas vezes em que ríssemos de nós mesmos. Mas talvez a coisa seja séria e estejamos lidando com recalques que sempre vão ressurgir de tempos em tempos.
- Leia um trecho de “A primavera da pontuação” clicando aqui.
- Baixe o livro “A estética do frio” na íntegra no site de Vitor Ramil.
- Veja Vitor e Ian juntos durante as gravações de "Foi no mês que vem":



