12 de jul. de 2014

#eueamonalisa: tirando uma selfie na exposição de arte

Renan Guerra

Todas as selfies que compõem esse post foram achadas
numa rápida pesquisa pelo Google.
Dia desses, eu estava visitando a exposição do Sebastião Salgado, “Gênesis”, na Usina do Gasômetro em Porto Alegre, quando, lá pelas tantas, um homem diz a sua mulher “nessa aqui, ó, as dunas são ótimas”, apontando para a obra exposta na parede. Logo, os dois se viram de costas para a fotografia que mostra belas dunas de areia da África e o moço posiciona seu celular para uma selfie romântica em frente à imagem. Eu, que queria seguir apreciando a exposição, tive que esperar o casal acertar a foto, depois de umas três tentativas, até conseguir ver as obras seguintes.

Nada disso me causou raiva, mas sim uma dúvida: qual o real sentido de uma foto em uma exposição fotográfica? Não me venham com uma desculpa relacionada à metalinguagem. Parece-me uma necessidade desmedida de fotografarmos tudo que vemos (e aqui me incluo no balaio), ao invés de aproveitarmos o momento. Nesse sentido, lembro que todas as pessoas que eu conheço que já foram ao Louvre, ao se aproximarem da “Monalisa”, de Da Vinci, surpreendem-se, para além de seu tamanho diminuto, com a quantidade de pessoas em seu entorno, tentando fotografá-la (e essas mesmas pessoas que conheço também têm fotos da Monalisa).

Tira-se foto em todo lugar a todo o momento. Tempos atrás, muitas pessoas compartilharam, em tom de crítica, a foto de uma menina que tirou uma selfie bem em frente à projeção do cinema. Dia desses até a cantora Mallu Magalhães postou sua fotinho na exposição da Yayoi Kusama (ok que as bolinhas da japonesa são suficientemente pops, mas seria esse o espaço para ficar fotografando?). O problema em torno do ato de fotografar tudo e a toda hora virou proposta de lei no Rio de Janeiro: o vereador Marcelo Arar (PT-RJ) propôs que teatros e cinemas deverão ter placas alertando de que o uso de celulares ou smartphones é proibido dentro das salas, sob pena de multa de até R$ 1 mil, lei parecida à que já existe em Salvador, na Bahia (o jornal O Globo até fez uma matéria ótima sobre essa polêmica).


Quando visitei a exposição “Impressionismo: Paris e a Modernidade”, no CCBB, as pessoas já eram avisadas que não poderiam fotografar. Ninguém reclamou ou teve sua visita prejudicada por isso. É uma forma de transformar algo tão interessante como uma exposição de arte num momento único, tentando resgatar a aura da obra artística. As salas têm suas cores planejadas para a apreciação das obras, com luz específica para aquele momento, para que a experiência vivenciada seja única. Essa é a intenção por trás da arte. Não que seja atrapalhado pelo flash de uma câmera num selfie em frente a’O Tocador de Pífaro.


Quando embarcamos na ideia de uma exposição de arte, de uma peça de teatro ou de um filme no cinema, queremos o pacote completo, a experiência total, a vivência única que aquele momento pode propiciar, pois a reprodução das obras nós encontramos depois no Google. Às vezes, precisamos aproveitar mais as coisas ao invés de querer Instagramizar tudo, compreender que há sensações que não podem ser reproduzidas numa fotografia, apenas vivenciadas. Além disso, de nada vale o registro de um momento não vivido em sua essência. É como confidencia Terêncio Horto, em uma tirinha de André Dahmer: “Ontem nos divertimos verdadeiramente. Tão verdadeiramente... que ninguém tirou fotos”.


Polêmicas a parte, a selfie do rapper Eminem, juntinho
da Monalisa, já é um clássico da internet ♥