3 de ago. de 2012

O falso moralismo do “lelelê”

Phillipp Gripp


Depois de uma semana conhecendo Minas Gerais - tanto o seu interior como grandes centros -, posso dizer que o estado me passou a impressão de ser um dos mais sertanejos do Brasil – desde o de raiz ao novo universitário e com uma pegada de arrocha que embala festas com seus tchus, tchas e lelelês. Assim como em Belém do Pará podemos ouvir um tecnobrega com letras extremamente escrachadas, ou uma música tradicional, daquelas bem baguais, no Rio Grande do Sul, em cada cidade de Minas ouvimos o soar de uma viola tradicional (se tivermos sorte) ou daquelas letras sem sentido algum que “em Goiânia já pegou, em Minas explodiu, em Santos já bombou”.



Não sou o maior fã de música sertaneja, admito, principalmente esse sertanejo em ascensão, por sua – a meu ver – paupérrima estrutura de composição. No entanto, ouvi com certa atenção e respeitei o gosto musical daqueles que conheci e percebi uma gama de preconceito disfarçado de puritanismo nestes alguns que acham muito fácil conquistar uma mulher de “Land Rover”, mas que duvida que alguém a conquiste se “jogar a gata no fundo da Fiorino”.

Entenda-me bem: qual é a diferença entre um “ai se eu te pego” e uma letra simples do Bonde do Rolê como “põe a jeba na minha frente que eu te mostro o que é foder”? Ou entre “ai que vontade de te colocar no colo e fazer o tcha tcha tcha” e um divertido “mama, pega no meu grelo e mama” de Valesca Popozuda? Ou, ainda, “se você acha que eu não vou pra balada, que o meu dilema é ficar dentro de casa, pirou, você não sabe de nada, sem moral” para a Rosa da Banda Uó “rosa, meu céu, eu vou te tirar desse lugar, te levar desse bordel”?

Valesca em ensaio fotográfico em
defesa da luta pela saúde da mulher
(Foto: Reprodução)
Há, sim, diferenças estridentes. Iniciado, claramente, por terem o mesmo sentido manifestado de formas diferentes. Com certeza você não gostaria que um dia seu filho de quatro anos saia cantarolando “mama, pega na minha vara e mama”, mas você não deveria ficar menos desesperado(a) se ele sair por aí falando sobre um ou outro “tcha”, atitude esta que vi vários fazendo e serem aplaudidos de pé – mas vai entender!

Valesca, aliás, desabafou nos últimos dias que as pessoas não haviam “entendido a poesia de Mama”. Poesia, de fato, feminista e das boas! Com uma linguagem popular, sem pudores e lançada numa época em que a luta das mulheres tem ganhado grande visibilidade com marchas e discussões sobre o tema, Mama é mesmo uma poesia. E muito mais: é uma lição, uma obra que mostra que a mulher tem direito de querer sentir prazer e fazê-lo tanto quanto o homem sente e sentiu durante décadas e se apropriou, apossou-se, desse direito no decorrer dos anos.

Além, é perceptível um machismo frequente nas letras sertanejo-universitárias que, por incrível que pareça, contaminam e cegam mulheres Brasil afora, as quais cantam emocionadas e dançam embaladas por uma melodia que a “pega”, faz o “lelelê” e depois a chama de “sem moral”, mas “Deus me livre” – disseram-me algumas – de que um apaixonado tire sua “rosa” de um bordel ou de “coar o café na calcinha só pra lhe enfeitiçar”.

De forma alguma gostaria que deixassem de cantar ou dançar o sertanejo de cada dia de alguns e algumas. Ao contrário, acredito que toda manifestação cultural – sonora, neste sentido – deve ser valorizada ao extremo. Contudo, considero de péssimo hábito que aquele que prefere uma à outra discrimine músicas ou falas que dizem as mesmas coisas. Ou pior: que enalteçam canções enfeitadas de “palavras” sutis que rebaixam mulheres que lutaram e ainda lutam para serem respeitadas. Apenas coloque seus fones de ouvido, ouça o que gosta e não ofenda, não mostre ser maioral. É tão bom assim, cada um na sua, cada um no seu ritmo...