Não assisti nem a metade dos
filmes de Michael Haneke, mas decidi me aventurar nessa reflexão sobre o cinema
do diretor. Explico-me: criei uma regra, só posso ver um filme do Haneke a cada
dois meses (agora até está perto de ver mais um, pois estes tempos quebrei a
regra e assisti a dois filmes com um intervalo de duas semanas).
Por que criei uma regra tão
estúpida? Por que cada obra do Michael Haneke é um tour de force pelos nossos
próprios erros, é um esmigalhar das nossas próprias incongruências e essas não
são para todos os dias, é preciso estômago para assistir as nossas agruras na
tela.
Vocês podem pensar que é um cinema de choque, pronto para brigar com seu espectador, porém é completamente o contrário, Haneke é completamente avesso ao choque pelo choque ou às tentativas de chamar a atenção do público pelo grotesco e pelo violento, como acontece nas obras de Gaspar Noé ou Cláudio Assis. Haneke é dono de cortes secos e áridos, num cinema de contemplação, quase filosófica, dos problemas da nossa sociedade.
Vocês podem pensar que é um cinema de choque, pronto para brigar com seu espectador, porém é completamente o contrário, Haneke é completamente avesso ao choque pelo choque ou às tentativas de chamar a atenção do público pelo grotesco e pelo violento, como acontece nas obras de Gaspar Noé ou Cláudio Assis. Haneke é dono de cortes secos e áridos, num cinema de contemplação, quase filosófica, dos problemas da nossa sociedade.
Xenofobia, violência,
preconceito, imigração, nazismo, sociedade de consumo, mídia, sexualidade e
amor são o mínimo das feridas para as quais Haneke gosta de conduzir nossos
dedos para coçá-las. Dono de um olhar firme sobre os nossos problemas, o
diretor austríaco nunca nos coloca como espectadores de seu cinema, mas como
vítimas e algozes de tudo que vemos, por isso sua arte é tão desconfortável,
pois o que vemos na tela faz parte de nós, nós somos a inspiração do diretor,
nós somos suas personagens. Humanos versus humanos, numa batalha patética.
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'Violência Gratuita', na versão original de 1997.
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Formado em psicologia, filosofia
e teatro pela Universidade de Viena, Haneke carrega prêmios como o Oscar e a
Palma de Ouro, mas nem por isso seus filmes se tornam mais condescendentes com
possíveis rotinas cinematográficas, pelo contrário, o gosto amargo de suas
películas só tem aumentado. Desde sua visão acerba sobre a sociedade alemã do
início do século XX em 'A Fita Branca' até seu olhar desolador sobre as
construções familiares e midiáticas em 'Caché', seus últimos filmes só mostram
que Haneke não para de mover-se no caminho da construção cinematográfica de
reflexão.
Essas atitudes intensas do diretor chegaram ao seu ápice no momento em que ele refilmou 'Violência Gratuita', todo em inglês, pois, consciente da mensagem do filme e da preguiça dos espectadores norte-americanos em ler legendas, o diretor optou por filmar frame por frame novamente e expor seu olhar mordaz sobre a banalização da violência (a versão original é de 1997, com áudio em alemão).
Essas atitudes intensas do diretor chegaram ao seu ápice no momento em que ele refilmou 'Violência Gratuita', todo em inglês, pois, consciente da mensagem do filme e da preguiça dos espectadores norte-americanos em ler legendas, o diretor optou por filmar frame por frame novamente e expor seu olhar mordaz sobre a banalização da violência (a versão original é de 1997, com áudio em alemão).
Assista o trailer de 'Amour' (com legenda em inglês):

