Nada que virá do texto a seguir é original ou cativado de criatividade. Começando pelo título, a reflexão me veio à mente quando um amigo da redação da Tudo soltou a frase em meio ao corre-corre dos nossos dias:- Realmente, nós vivemos num sitcom! Disse ele enquanto avaliava uma das minhas expressões habituais diante de uma situação embaraçosa.
Considerando que na minha vida SÓ existem situações embaraçosas, resolvi refletir sobre a tal provocação, na condição de negar a minha semelhança com qualquer personagem atrapalhado ou nonsense das tais séries da vida cotidiana - as sitcoms.
Comecei por avaliar, por exemplo, no que poderia haver de tão engraçado quando você tenta salvar a vida do seu amigo, que descuidadamente atravessa uma das principais avenidas de São Borja, cuja mão dupla e o cruzamento sem sinal impossibilitam a travessia à pé durante o horário comercial, fazendo um alerta cuidadoso, indo até o meio da rua, ameaçando voltar, parando, decidindo se volta ou não, e aí atravessa, deixando seu amigo do lado onde estavam no início, é engraçado?
Acho que não.
Muitas determinantes contribuem para que o eu intervisse pelo meu amigo numa situação como esta. É a velocidade do carro, é a calmaria no andar do seu amigo, é o seu estado de espírito para poder salvá-lo naquele dia, é o susto que o motorista do carro toma, é o seu grito para o amigo que desistiu de atravessar e voltou, é a sua decisão de desistir também quando vê que ainda dá tempo de atravessar. É o motorista puto com você. É você com o seu amigo.
Enfim, vários fatores que acontecem por aí, com todo mundo, e que não são engraçados. São normais, cotidianos, alguns até tristes.
Me lembro que no último dia dos namorados (tá aí uma data em que todo solteiro tem uma história triste para contar, pois o dia dos namorados é um fetiche de azar para, nós, os ímpares) eu me vi procurando um lugar para jantar fora com a minha amiga e um conhecido, que recém tinha virado meu amigo. Eu, solteira, ela, solteira, ele, um adolescente, procurávamos incansavelmente um lugar onde não houvesse casais apaixonados ou decoração com flores vermelhas. Nem preciso dizer que por fim, acabamos sentados num lugar onde a decoração da mesa eram balões de coraçãozinho vermelho e uma vela vermelha fedida. Quem nunca?
Há algo de engraçado nisso?
Não, é triste!
Outra situação que sempre me ocorre, é quando peço com jeitinho (uns dizem que é gemendo e franzindo a testa) coisas cuja a abordagem tem sido muito subalternizada nas relações da sociedade atual. Há algum problema em pedir "Você poderia por gentileza, se não for te atrapalhar, à despeito dos favores que te devo e pela necessidade da minha passagem, me dar licença?"
Não vejo problema com a minha forma de pedir licença. É um zelo. Digamos que é a minha educação adequada aos moldes euroclássicos de cultura, sendo os gemidos franceses, obviamente.
Há ainda certa gozação quando faço jus ao imediatismo contemporâneo das nossas redes de comunicação ao relatar na hora em que sinto, a minha vontade de fazer xixi:
- ui, apertei, vai rolar um pipys.
Qual o problema? Não vejo a mínima graça. É a minha expressão, é a minha necessidade.
Tudo bem que, comparadas às histórias das sitcoms, a minha vida é bem mais caótica - mas nada que faça dela uma comédia. Aliás, tirando aquelas vezes em que eu estou falando mal da pessoa e ela aparece atrás de mim, ou quando escrevo uma sacanagem no inbox da pessoa errada, ou quando finjo prestar atenção no que a pessoa está falando só para ser simpática, ou quando tenho vontade de soltar um pum-poroso quando estou apresentando seminários, enfim a minha vida é normal, real e não é engraçada.
Então, fiquei pensando, por que nos siticoms torna-se engraçado?
Ultimamente as minhas expressões tem sido muito comparadas às situações vividas por personagens de Modern Family, série de muito sucesso aqui no Brasil e no meu grupo de amigos, cujas exceções de espectadores (tipo eu) ficam à deriva do sentimento de humor relacionado.
Além dessa "família moderna", outras peculiaridades como The Walking Dead, Glee, a finada Gossip Girl, How I met your Mother, Pretty Little Liars são compradas ao meu jeito de ser. Eu, na verdade, nada tenho a declarar sobre tais proezas da vida encenada. Não assito muitas séries e, quando sim, são séries sérias, tipo True Blood, tipo Two and a Half Man, tipo The Big Bang Theory, tipo Every Body Hates Chris, tipo My wife and kids, ou ainda, a minha predileta, House.
As comparações são mera projeção de quem as assiste, só que não. As comparações são, de fato, uma constatação da vida real.
Pesquisando uma explicação científica para provar que o meu amigo estava errado, deparei-me com um estudo muito oportuno, e que justifica o nosso senso de humor para com a "realidade" assistida. Dessa vez não é Freud que explica, mas sim Wilhelm Wundt.
Psicólogo e Filósofo alemão, Wundt teve a brilhante sacada de perceber que os aspectos sensoriais do mundo ideal, isto é, do não-palpável, do ilusório, influenciam na cadeia linguística e interpretativa da vida social.
Isto significa, em se tratando de psicologia social, que as nossas percepções do mundo imaginável são projetadas por nós na reprodução do EU real, isto é, aquele que se faz em sociedade. Além disso, as cadeias linguísticas e cognitivas também são projetadas no processo da expressão (natural, de sinais e escrita), que pode ou não, causar reações ao interlocutor durante o processo de interpretação da mesma. Estas reações, com este fim, são provocadas por sensores de humor - coisa que o doutor Wundt define bem na Teoria de Eysenck.
Então, entendeu o que isto tem a ver com o texto?
Vou simplificar.
O que o tal doutor Wundt descobriu é que dependendo da realidade que nós idealizamos, o nosso senso para o humor será aguçado ou não. Considerando que o humor é o resultado de sentimentos e personalidades que, quando provocadas, geram reações, a nossa percepção da realidade pode (ou não) contrariar as expectativas do idealizado.
Por isso que quando assistimos uma situação encenada nas séries, reconhecemos, de cara, que aquilo é compatível com a nossa vida. Mas a forma com a qual os personagens lidam com a situação provoca em nós um sentido que pode ser o esperado ou não. Isso é o humor.
Nossa reação às barbaridades, às tristezas, às bobeiras, às alegrias, enfim. O humor é provocado a partir das expressões e dos significados que elas representam para nós. A interpretação da realidade, neste caso, fica à critério da cultura, da ética e da constatação de arte de cada um.
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| (Foto: Reprodução) |
Toda essa morfina teórica ainda serve para pensarmos sobre a derivação de humor e realidade quando adequados às gerações. Quem lembra da Blosson e suas polainas fantásticas? Ou da Punky, a levada da breca com suas chiquinhas tão fofas? No mundo teen, Um maluco no pedaço e Confissões de adolescente (versão americana) nos fazem lembrar das relações do jovem com a escola, os amigos e a família, na da década de 90.
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| (Foto: Reprodução) |
Punky e Blossom: séries que alcançaram o auge de sua audiência no início da década de 90. No Brasil, foram exibidas pelo SBT.
Já os modelos de família ficavam por conta de Sétimo Céu, Os Simpsons e, por que não dizer, Friends. Lembra? Aliás, não lembrar de Friends, em qualquer contexto, seria uma infâmia à história das séries televisivas.
Além de todos estes enlatados americanos que nos fizeram ficar, no mínimo, umas três horas diárias na frente da TV, as séries brasileiras também fisgavam o espectador pela semelhança cotidiana - apesar de, muitas vezes, serem mera reprodução do que era feito no exterior.
Produções como Sai de Baixo e TV Pirata, mesmo sendo consideradas Sitcoms à moda estrangeira (já que a sigla, originada do inglês situation comedy designa o formato de comédia americana gravada em estúdio com plateia), conseguiram emplacar um humor tipicamente apreciado pelos brasileiros.
Nos anos 2000, porém, uma salada de contemporaneidade tomou os roteiros televisivos abordando as mais variadas temáticas polêmicas: sexo, drogas, religião e sexualidade foram as tags mais faladas dali para frente. Era o peso da tão falada identidade da nossa geração.
Só pra citar, Sexo Frágil, Cidade dos Homens, Os aspones, a Diarista, Antônia, Avassaladoras, e as mais recentes Aline e Tô frito, são alguns exemplos que lembro ter passado na frente da TV e observado qualquer coisa.
Você deve ter reparado que eu não falei daquela série, a principal série brasileira das nossas vidas, eu sei.
Os normais.
Deixei para falar por último por que, certamente, esta é a série que trará toda a conclusão para este interminável texto.
Chegar até aqui e lembrar d´Os normais é perceber que toda a articulação teórica e psicológica que explica o humor e a representação de realidade, são na verdade, verdade. Poxa, minha vida é um sitcom, mau-escrito e sem-graça, que de tão escroto, tão escroto, é engraçado.
Analise comigo: seria engraçado ver uma pessoa mongolóide-metida-a-esperta, como o Rui, fingindo estar passando mal só para não pagar a conta na rodinha de chopp com os amigos? Aposto que na realidade, a situação seria revoltante.
Se não fosse pelas hilariantes expressões (ou a falta delas) de Fernanda Torres e Luís Fernando Guimarães ao enfrentar situações em que eles mesmos criam, seria engraçado? Não, não seria.
Quando somos cagados por um passarinho, bem naquele dia importante no trabalho, não é engraçado. É engraçado na telinha por que identificamos o quão trágico é a nossa vida, em detrimento da nossa incapacidade para mudá-la. Diz aí, você pode evitar ficar mega-put* quando é cagado por aves inoportunas à caminho do dia decisivo na sua vida?
Não, é um sentimento inato.
Esta é a sua personalidade, que sentida pelos outros em situações exógenas às suas escolhas, resulta no humor (reparem que eu acabei de resumir toda a tese do Dr. Wundt em uma frase).
Devo dizer por fim, que minha vida é sim um sitcom, mas que no entento, eu não sou um personagem. Os personagens é que me representam. Pois, antes mesmo de Vani, Feebe, Penny, Mágda, e tantas outras pseudo-burras-atrapalhadas vingarem sucesso com o público, eu já estava por aí, irritando meus amigos com a minha cara de bunda.
Esta é a minha vida caro espectador. Se achou engraçado, clique aqui para baixar a nova temporada.



