Tenho pensado muito na canção de Itamar Assumpção “sozinha nesta cozinha / em pé eu tomo
um café / na pia a louça suja / me lembra da roupa suja / no tanque que a vida é”, e por causa dela tenho me
lembrado que muitos domingos foram dias de almoço de família na
casa de minha avó. Neles os espaços eram ocupados de forma quase espontânea:
homens em torno da churrasqueira, que fica na área de serviço, e mulheres
reunidas na cozinha, preparando a comida e limpando a louça. Eu, com idade
intermediária entre os netos, geralmente não me adequava perto dos primos mais
velhos nem dos mais novos, acabando sempre na sala, vendo TV ou lendo algum
jornal já desatualizado.
Além disso, o que mais me chamava a atenção era o pós-almoço: os homens todos esparramados pela sala, comendo a sobremesa que era servida pelas mulheres, enquanto a maioria delas comia a sua na cozinha, já se preparando para a lavagem dos pratos.
Além disso, o que mais me chamava a atenção era o pós-almoço: os homens todos esparramados pela sala, comendo a sobremesa que era servida pelas mulheres, enquanto a maioria delas comia a sua na cozinha, já se preparando para a lavagem dos pratos.
Naquela cozinha, entre o cozinhar-comer-limpar, ocorria o
mais importante: as histórias, as novidades sobre a saúde, as fofocas. Aquelas
mulheres todas abarcadas num manto de patriarcalismo opressivo, porém, não sei
dizer se elas percebiam isso, se sentiam a linha quase palpável que as separava
dos homens e as inferiorizava, a qual elas próprias colaboravam para o
fortalecimento com o discurso: “homens não devem ajudar na cozinha”. Era uma
interação social um tanto quanto estranha, uma separação de gêneros clara, mas
ao mesmo tempo obscura.
Contraditoriamente, sempre falávamos “casa da vó”, nunca
minha mãe ou meu pai disseram “vamos almoçar no vô” ou “vamos visitar o vô”,
pois aquele lugar era dominado e reconhecido pela figura feminina, a harmonia
daquele lar (mesmo que às vezes apenas estética) era mantida por minha avó.
Mesmo assim, apenas a cozinha tinha a força de um espaço feminino e parecia que
as mulheres o defendiam como delas, não sei se por uma liberdade de expressão,
de ação: na cozinha as escolhas são da mulher, na cozinha se fala o que se
quer, como quando a festa está acontecendo na sala, mas eu encontro minha mãe
ou um amigo na cozinha pra dizer que o bolo é pequeno demais para as pessoas
que apareceram ou que a festa estava horrível; a cozinha tinha esse ar de
intimidade tão grande, pois é o espaço coletivo da casa onde vivemos , sentimos
e agimos de forma intensa.
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| Cena do filme "Volver", de Pedro Almodóvar |
Talvez aqui o foco desse texto se descortine, uma vez que ele não retrata a opressão do sistema patriarcal sobre as mulheres (nem tenho a pretensão de falar sobre, já que me era muito cômodo aceitar o status quo e me manter comendo a sobremesa na sala, esparramado como os outros homens). Esse texto é simplesmente sobre a importância que a cozinha tem em nosso cotidiano: é ali onde conversamos, limpamos, abafamos mágoas com assaltos corriqueiros à geladeira. É o lugar em que nos agitamos com litros de café feitos no afobamento das tensões, em que queimamos o arroz e onde o leite ferve demais sujando todo o fogão. É ali que lavamos e lavamos louça, como num círculo eterno e sentimos o passar do tempo quando o gás termina. É ali que sentimos a vida acontecendo com as colheradas de açúcar para adocicar a amargura.
E assim me lembro das mulheres de Almodóvar, que cochicham
na cozinha, bebem café, preparam gaspachos e escondem cadáveres em seus
frízeres. Almodóvar já falou que as mulheres de seus filmes vêm de sua mãe,
suas tias, suas primas, e me pergunto o por quê desse espaço tão importante ser território restrito das mulheres. Na cozinha de casa minha mãe me ensinou a
cozinhar, a lavar louça, fazer bolos, a não jogar o óleo no ralo, a limpar o
fogão e fazer pipocas. Eu a ensinei a usar o microondas, a fazer pão de queijo
e miojo. Juntos nós amassamos pão, fizemos café, fritamos pastel, cozinhamos
macarrão. E por isso penso: por que a cozinha não pode ser o espaço da
convivência? Do homem, da mulher e de quem quiser. Por que não a cozinha das
famílias e dos amigos? Das alegrias e não apenas das tristezas? Afinal, ficar
sozinha na cozinha, como Assumpção ao início do texto, só nos lembra das
dificuldades da vida e delas já estamos todos cheios, só queremos a
tranquilidade de boas lembranças.


