Nas filmagens, o imaginário e inconsciente trazem ao reflexo do
diretor ideias mais envolventes para a composição de sua arte
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Se o título é estranho para você, então abra o Youtube e procure um dos vídeos mais assistidos em 2009, “Tapa na Pantera”. Num primeiro instante, esta é a maior referência que posso citar do jovem diretor paulistano, para que as pessoas imediatamente comecem a lembrar de outras boas produções que ele escreveu, dirigiu ou produziu.
Autor de Saliva (curta-metragem), Alguma coisa assim (curta-metragem) e Os famosos duendes da morte (longa-metragem), que estão entre suas produções mais conhecidas, Esmir Filho ainda não possui uma página no Wikipédia, mas já garante boa parte de sua popularidade através das redes sociais. Com um tom intimista e, principalmente, sensitivo de compor um enredo cinematográfico, a trajetória do diretor pelo mundo dos festivais se deve a sua maestria em mostrar a complexidade com simplicidade.
Isso mostra como é difícil, para os leigos no assunto cinema, encontrar referências das peculiaridades semânticas e semióticas no trabalho do diretor. Suas câmeras, ora embaçadas, ora desalinhadas, instigam uma complexa malha de sensações a quem assiste o filme. Certa vez, Esmir deu uma entrevista ao site Story Touch e disse que “suas referências são inconscientes e surgem a partir de experiências próprias”. O diretor justificou, ainda, que “quando está criando uma história, uma coleção de coisas, momentos que mexem com ele, vêm à tona”. E, ao que parece, acabam mexendo conosco também.
Quando assistimos um filme qualquer, um conjunto de sensações são afloradas por, pelo menos, dois dos nossos sentidos (a audição e a visão ). No entanto, assim como em toda tentativa de conhecimento humano, a ciência garante que, no mínimo, outros 21 sentidos podem ser estimulados através da arte – isto é, sentidos que de tão ínfimos passam despercebidos na composição da complexidade do ser.
| Som do pingo, cor da água, desejo no olhar: elementos que dão uma combinação exata para a recriação de sensações que só fazem sentido, se o espectador também as sentir. (Foto: Reprodução do curta-metragem Saliva) |
Cores, iluminação, termicidade e desejo libídico estão entre os fatores que provocam as sensações mais diversas no corpo humano. Além disso, os estímulos psicosensoriais, provocados pelas obras de arte, dependem de quesitos interpretativos, linguísticos, culturais e uma série de outras variantes.
Em Saliva, a sensação de umidade, calor e desejo toma conta do espectador logo nas primeiras cenas. A história simples e comumente vivida por adolescentes em fase de puberdade é contada a partir de sentidos figurados por sons: de água caindo, de beijos, da lambida, das batidas do coração, da sucção no canudinho, da bala na boca - sons que reverberam a sensação daquilo que é visto na belíssima fotografia do curta.
| A semiótica de Os famosos duendes da morte utiliza elementos de símbolo e índice: não há fogo sem fumaça, assim como não dá para imaginar o cigarro sem a vontade de fumar. (Foto: Reprodução) |
Em outra produção, as luzes da noite, o movimento da câmera com desfoque em perspectiva e a trilha sonora de balada dos anos 90 dão um tom de comercial de tv com uma pegada de cinema experimental ao curta Alguma coisa assim. A sensação é de estranheza com os lugares por onde a câmera passa – muito em função do balança-balança da mesma. A sinopse, ao contrário do que descrevi, diz apenas que os dois jovens protagonistas do curta querem se divertir à noite.
No longa-metragem Os famosos duendes da morte, o roteiro confuso e psicodélico não deixou com que a fotografia, limpa e cuidadosamente enquadrada nos atores, chamasse a atenção daqueles que buscavam entender a história. Baseado no livro de Ismael Caneppele, Música para Quando as Luzes se apagam, ‘os duendes da morte’ pretende contar uma história atual, porém marcada por situações fantasiosas de uma quase-ilusão.
Com certa carga de bucolismo nas cenas e nos cenários do filme, Os famosos duendes da morte dispensa descrição. Algumas críticas feitas quando o filme foi lançado apontaram, inclusive, que o enredo da história é tão sensorial, que sua frase mais marcante não é falada, e sim escrita – o interlocutor, portanto, toma o lugar da personagem ao ler a frase.
Esmir, cuja trajetória no cinema também engloba os curtas Ímpar par e Ato II cena 5, trabalha intensamente com a representatividade audiovisual. Explorador da capacidade de grandes imagens e de pequenos sons, o cineasta vai misturando sensações na tela do cinema, como se não houvesse fronteira na divisão dos sentidos: o som vai puxando o desejo, que puxa a imaginação a partir da imagem, a qual, por sua vez, materializa uma ação. É uma mistura simples, mas que compõe o complexo sensorial de sua arte.
- Conheça outros trabalhos de Esmir, acessando aqui.
