Vivemos nesse eterno paradigma de estarmos tão próximos
geograficamente de nossos vizinhos latinos e ao mesmo tempo tão distantes
socialmente. Às vezes, em especial pelo aspecto linguístico, o Brasil fica
aqui, imenso e distante desse mundo chamado América Latina. Porém, continuar exclamando as nossas
distâncias, físicas e simbólicas, não nos leva a lugar algum. Atentarmos nossos
olhos e ouvidos para essa imensidão é que pode ser o fruto de uma mudança significativa
e é com esse intuito que surge o “Si no puedo bailar, no es mi revolución”, uma
rede de trocas culturais que fomenta a produção independente e gera desde coletâneas musicais até livros. Reunindo artistas de toda a América
Latina, o projeto cresce cada vez mais e por isso mesmo agora eles se tornam
parceiros da Revista Tudo & Etc, para que aos poucos possamos presenciar a produção artística latino-americana mais próxima
de nós. Para conhecer mais sobre o Si no puedo bailar e suas produções, nós
conversamos com o Rodrigo Maceira, um
dos criadores do projeto e você pode conferir a entrevista na íntegra a seguir:
TUDO & ETC: Como surgiu o "Si no puedo bailar, no es mi revolución"? De onde
veio o belo nome?
RODRIGO: O projeto surgiu em 2007, com a ideia de facilitar a aproximação entre
artistas e selos independentes latino-americanos. Foi na mesa de um bar ou num
restaurante de buffet livre de
Barcelona, não lembro direito. Pensamos em editar uma coletânea que servisse de
panorama da música independente latino-americana para brasileiros. Foi assim
que surgiu Porque este océanoes el tuyo, es el mío [coletânea musical] e tudo o que veio
depois. Expandimos - ou tentamos expandir - para ilustração e literatura,
porque gostamos demais desses dois jeitos de contar histórias e é
impressionante a quantidade de coisas boas que a América Latina produz, já há
bastante tempo, nessas áreas.
O nome é uma citação - não sabemos se exatamente com essas palavras -,
da Emma Goldman, feminista e anarquista lituana que se exilou nos Estados
Unidos, escapando da barbárie stalinista. Gostamos muito da frase, mas nem
tanto de alguns dos seus textos que lemos mais tarde.
T&E: Você disse que os projetos começaram com a idealização de editar uma
coletânia, mas o que havia por trás desse ideal, desse desejo? E, no início do
projeto, como foram feitos os contatos com os artistas que participam do Si no puedo bailar?
Todas as coletâneas surgiram da vontade de articular artistas que
conhecíamos em torno de ideias que, imaginávamos, contribuiriam para a formação
de uma rede latino-americana. Esse foi o princípio por trás de Porque este océano..., nossa estreia, e esse segue sendo o
motor de todos os nossos projetos. Sobre os contatos, foi uma conversa natural.
Já tínhamos mensagens trocadas com muita gente, via PureVolume, Myspace e
listas de discussão. A partir dos primeiros convites, vieram outros. Conhecíamos
alguém na Venezuela e imediatamente pedíamos recomendações. Na prática, essa é
a dinâmica que alimenta a revolución até hoje.
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| Marcelo é um dos idealizadores do Si no puedo bailar, no es mi revolución |
T&E: Os projetos do Si no puedo bailar já renderam respostas muito
positivas da mídia, como você se sente ao vê-los crescer dessa forma?
É verdade; essa troca com jornalistas e blogueiros é uma fonte de ânimo,
espalha os projetos bem mais rápido, garante mais acessos e, finalmente, torna
possível a formação de uma rede. Hoje é muito divertido reconhecer as pessoas
que acompanham os shows/encontros do SNPB há algum tempo e é muito legal também
ver essas pessoas atuando como porta-vozes do projeto. Esse é o ponto desde o
começo: conhecer pessoas, reunir pessoas por interesses e paixões comuns. Cair
em veículos com alcance grande, por incrível que pareça, ajuda a filtrar
aliados ;)
T&E: Como vocês fazem para dar atenção a tudo que acontece na América
Latina e acompanhar esses novos artistas?
Basicamente, conversamos todos os dias com latino-americanos. Pode ser
uma troca de e-mails com amigos, um post no mural de alguém, uma recomendação
via tumblr... Agora que definitivamente existe um "campo virtual" de
pessoas que compartilham interesses semelhantes aos nossos (diferente do que
acontecia quando começamos o SNPB), esse acompanhamento é bem mais tranquilo.
T&E: Rodrigo, a Si no puedo bailar
é independente. Como vocês conseguem se manter e produzir as coisas? Com
patrocínios, amigos, ou na cara e na coragem?
Na cara, no medo e na coragem ;) Várias vezes gastamos o estômago
arriscando em projetos meio inviáveis. Mas, no final, acho que aprendemos: as
coisas se arranjam. Um projeto ajuda a pagar outro; surgem parceiros que topam
dividir custos. Às vezes, ficamos no vermelho, mas também já entendemos que o
ganho que tiramos disso tudo é outro. E é realmente grande.
T&E: A rede já possui algum novo projeto em produção ou alguma ideia?
Sim! Estamos terminando um livro. Esperamos publicá-lo em breve. Logo
mais, deve ter notícia no site.
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E é claro que você ficará sabendo através da Tudo também, afinal, estamos
juntos nesse ideal, nessa “paixão em comum”. Enquanto isso escute a versão em espanhol da música "Mentiras", feita pela cantora Mima, para a coletânea em homenagem a Adriana Calcanhotto, "Não moro mais em mim"


