3 de out. de 2012

Não se pode bailar sozinho

Renan Guerra

Vivemos nesse eterno paradigma de estarmos tão próximos geograficamente de nossos vizinhos latinos e ao mesmo tempo tão distantes socialmente. Às vezes, em especial pelo aspecto linguístico, o Brasil fica aqui, imenso e distante desse mundo chamado América Latina. Porém, continuar exclamando as nossas distâncias, físicas e simbólicas, não nos leva a lugar algum. Atentarmos nossos olhos e ouvidos para essa imensidão é que pode ser o fruto de uma mudança significativa e é com esse intuito que surge o “Si no puedo bailar, no es mi revolución”, uma rede de trocas culturais que fomenta a produção independente e gera desde coletâneas musicais até livros. Reunindo artistas de toda a América Latina, o projeto cresce cada vez mais e por isso mesmo agora eles se tornam parceiros da Revista Tudo & Etc, para que aos poucos possamos presenciar  a produção artística latino-americana mais próxima de nós. Para conhecer mais sobre o Si no puedo bailar e suas produções, nós conversamos com o Rodrigo Maceira, um dos criadores do projeto e você pode conferir a entrevista na íntegra a seguir:

TUDO & ETC: Como surgiu o "Si no puedo bailar, no es mi revolución"? De onde veio o belo nome? 

RODRIGO: O projeto surgiu em 2007, com a ideia de facilitar a aproximação entre artistas e selos independentes latino-americanos. Foi na mesa de um bar ou num restaurante de buffet livre de Barcelona, não lembro direito. Pensamos em editar uma coletânea que servisse de panorama da música independente latino-americana para brasileiros. Foi assim que surgiu Porque este océanoes el tuyo, es el mío [coletânea musical] e tudo o que veio depois. Expandimos - ou tentamos expandir - para ilustração e literatura, porque gostamos demais desses dois jeitos de contar histórias e é impressionante a quantidade de coisas boas que a América Latina produz, já há bastante tempo, nessas áreas. 
O nome é uma citação - não sabemos se exatamente com essas palavras -, da Emma Goldman, feminista e anarquista lituana que se exilou nos Estados Unidos, escapando da barbárie stalinista. Gostamos muito da frase, mas nem tanto de alguns dos seus textos que lemos mais tarde.

T&E: Você disse que os projetos começaram com a idealização de editar uma coletânia, mas o que havia por trás desse ideal, desse desejo? E, no início do projeto, como foram feitos os contatos com os artistas que participam do Si no puedo bailar?

Todas as coletâneas surgiram da vontade de articular artistas que conhecíamos em torno de ideias que, imaginávamos, contribuiriam para a formação de uma rede latino-americana. Esse foi o princípio por trás de Porque este océano..., nossa estreia, e esse segue sendo o motor de todos os nossos projetos. Sobre os contatos, foi uma conversa natural. Já tínhamos mensagens trocadas com muita gente, via PureVolume, Myspace e listas de discussão. A partir dos primeiros convites, vieram outros. Conhecíamos alguém na Venezuela e imediatamente pedíamos recomendações. Na prática, essa é a dinâmica que alimenta a revolución até hoje.
Marcelo é um dos idealizadores do Si no puedo bailar, no es mi revolución

T&E: Os projetos do Si no puedo bailar já renderam respostas muito positivas da mídia, como você se sente ao vê-los crescer dessa forma?

É verdade; essa troca com jornalistas e blogueiros é uma fonte de ânimo, espalha os projetos bem mais rápido, garante mais acessos e, finalmente, torna possível a formação de uma rede. Hoje é muito divertido reconhecer as pessoas que acompanham os shows/encontros do SNPB há algum tempo e é muito legal também ver essas pessoas atuando como porta-vozes do projeto. Esse é o ponto desde o começo: conhecer pessoas, reunir pessoas por interesses e paixões comuns. Cair em veículos com alcance grande, por incrível que pareça, ajuda a filtrar aliados ;)

T&E: Como vocês fazem para dar atenção a tudo que acontece na América Latina e acompanhar esses novos artistas?

Basicamente, conversamos todos os dias com latino-americanos. Pode ser uma troca de e-mails com amigos, um post no mural de alguém, uma recomendação via tumblr... Agora que definitivamente existe um "campo virtual" de pessoas que compartilham interesses semelhantes aos nossos (diferente do que acontecia quando começamos o SNPB), esse acompanhamento é bem mais tranquilo.

T&E: Rodrigo, a Si no puedo bailar é independente. Como vocês conseguem se manter e produzir as coisas? Com patrocínios, amigos, ou na cara e na coragem?

Na cara, no medo e na coragem ;) Várias vezes gastamos o estômago arriscando em projetos meio inviáveis. Mas, no final, acho que aprendemos: as coisas se arranjam. Um projeto ajuda a pagar outro; surgem parceiros que topam dividir custos. Às vezes, ficamos no vermelho, mas também já entendemos que o ganho que tiramos disso tudo é outro. E é realmente grande. 

T&E: A rede já possui algum novo projeto em produção ou alguma ideia?

Sim! Estamos terminando um livro. Esperamos publicá-lo em breve. Logo mais, deve ter notícia no site.
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E é claro que você ficará sabendo através da Tudo também, afinal, estamos juntos nesse ideal, nessa “paixão em comum”. Enquanto isso escute a versão em espanhol da música "Mentiras", feita pela cantora Mima, para a coletânea em homenagem a Adriana Calcanhotto, "Não moro mais em mim"