Renan Guerra
A
música tem se tornado cada vez mais cheia de nichos e misturas. Todo dia
surge uma nova tag: minimal techno, math rock, freak folk e por aí vai. No
Brasil se discute o que é MPB, o que seria o rock nacional, enquanto incluímos
guitarras no samba e atabaques no rock. O carioca Brunno Monteiro é desses que
não cabem nos rótulos, já que, quando eu escutava “Ecos da Rua”, disco de
estreia do músico, um amigo passou perguntando se eu estava ouvindo reggae, aí
eu disse “não, isso está mais para rock”.
A
música tem se tornado cada vez mais cheia de nichos e misturas. Todo dia
surge uma nova tag: minimal techno, math rock, freak folk e por aí vai. No
Brasil se discute o que é MPB, o que seria o rock nacional, enquanto incluímos
guitarras no samba e atabaques no rock. O carioca Brunno Monteiro é desses que
não cabem nos rótulos, já que, quando eu escutava “Ecos da Rua”, disco de
estreia do músico, um amigo passou perguntando se eu estava ouvindo reggae, aí
eu disse “não, isso está mais para rock”.
Grunge,
cotidianidades e MPB são algumas das coisas que me remetem o som de Brunno, o
qual passeia em suas canções pelas ruas cariocas. Mas não se engane antes de
ouvi-lo, ele não caminha pelas mesmas ruas que Vinícius de Moraes ou Tom Jobim,
as ruas de Brunno são universais, remetem tanto ao Rio de Janeiro, quanto a Belém,
Seattle ou França. Entre o centro carioca e a imensidão da internet, o cantor mistura sonoridades, cria canções simples para um mundo complexo e ainda
conversa com a Tudo & Etc:
TUDO & ETC: O
grunge é uma das suas grandes influências. Em que momento ele entrou na sua
vida? E como foi o aprendizado da guitarra e do violão, foi de forma
autodidata?
BRUNNO: Posso dizer que o grunge foi a minha primeira influência musical mais consciente – porque antes eu já ouvia Chico, Caetano e outros por tabela, por conta da minha mãe. Falando do rock, especificamente, eu até já escutava alguma coisa de punk (Dead Kennedys, Sex Pistols), mas foi ouvindo grunge por volta dos 14, 15 anos que me veio a vontade de tocar, de cantar e de compor. Na época eu só queria fazer barulho mesmo, talvez incomodasse um pouco os vizinhos, mas meus pais sempre me deram muito apoio, incentivavam essa fixação que na época era meio adolescente mesmo. Eu ficava o dia inteiro tocando e quando passava das dez da noite, tocava no fone. Acabei aprendendo sozinho, mas as bandas que tive e os amigos que também tocavam me ensinaram muito também. Depois fui me voltando mais pra música brasileira e me deu vontade de estudar o violão. Comprei alguns songbooks do Tom, do Cartola, do Chico e tirei eles de cabo a rabo. Foi bom pra criar meu estilo e poder ficar mais à vontade pra misturar essas coisas.
T&E: Os ritmos no seu disco "Ecos da Rua" se mesclam de forma intensa, há rock, MPB, samba e muito mais. Como você percebe essa mistura de sons? Ela acontece naturalmente?
Acho que a minha música é resultado de tudo que já vivi e ouvi, então é muito natural essa combinação. Eu diria que hoje também é mais difícil ficar engavetando esses estilos, os sons estão mais difusos mesmo, a gente já passou por tantos momentos importantes na música, já ouviu e processou tantas coisas, hoje vive e processa outras... A composição acaba sendo um resultado de todas essas referências mesmo.
T&E: A cidade é quase uma personagem viva de suas canções, essa simplicidade em olhar sobre o cotidiano surge de que forma?
Olha, além da própria música, três coisas são muito importantes no meu jeito de entender meu cotidiano e, consequentemente, as minhas composições. A faculdade de Biologia, os livros que eu li e as viagens que fiz sozinho. A Biologia sempre me fez ter uma atenção especial e simples com as coisas ao meu redor, incluindo as pessoas. A literatura, principalmente os Beatniks, também me influencia muito, gosto de criar histórias sobre minhas andanças. Fora que isso me aproximou muito da ideia de liberdade e de desapego, me fez querer viver isso.
BRUNNO: Posso dizer que o grunge foi a minha primeira influência musical mais consciente – porque antes eu já ouvia Chico, Caetano e outros por tabela, por conta da minha mãe. Falando do rock, especificamente, eu até já escutava alguma coisa de punk (Dead Kennedys, Sex Pistols), mas foi ouvindo grunge por volta dos 14, 15 anos que me veio a vontade de tocar, de cantar e de compor. Na época eu só queria fazer barulho mesmo, talvez incomodasse um pouco os vizinhos, mas meus pais sempre me deram muito apoio, incentivavam essa fixação que na época era meio adolescente mesmo. Eu ficava o dia inteiro tocando e quando passava das dez da noite, tocava no fone. Acabei aprendendo sozinho, mas as bandas que tive e os amigos que também tocavam me ensinaram muito também. Depois fui me voltando mais pra música brasileira e me deu vontade de estudar o violão. Comprei alguns songbooks do Tom, do Cartola, do Chico e tirei eles de cabo a rabo. Foi bom pra criar meu estilo e poder ficar mais à vontade pra misturar essas coisas.
T&E: Os ritmos no seu disco "Ecos da Rua" se mesclam de forma intensa, há rock, MPB, samba e muito mais. Como você percebe essa mistura de sons? Ela acontece naturalmente?
Acho que a minha música é resultado de tudo que já vivi e ouvi, então é muito natural essa combinação. Eu diria que hoje também é mais difícil ficar engavetando esses estilos, os sons estão mais difusos mesmo, a gente já passou por tantos momentos importantes na música, já ouviu e processou tantas coisas, hoje vive e processa outras... A composição acaba sendo um resultado de todas essas referências mesmo.
T&E: A cidade é quase uma personagem viva de suas canções, essa simplicidade em olhar sobre o cotidiano surge de que forma?
Olha, além da própria música, três coisas são muito importantes no meu jeito de entender meu cotidiano e, consequentemente, as minhas composições. A faculdade de Biologia, os livros que eu li e as viagens que fiz sozinho. A Biologia sempre me fez ter uma atenção especial e simples com as coisas ao meu redor, incluindo as pessoas. A literatura, principalmente os Beatniks, também me influencia muito, gosto de criar histórias sobre minhas andanças. Fora que isso me aproximou muito da ideia de liberdade e de desapego, me fez querer viver isso.
![]() |
| (Foto: Divulgação) |
T&E: O "Ecos da Rua" está disponível para download no seu site. Como
você percebe a importância da internet na divulgação do seu trabalho? Já nota
uma resposta do público que lhe conheceu através da rede?
Fui criado ouvindo vinil, comprei e compro CD, mas também só tive acesso a muitos artistas porque eles estavam na internet. É até redundante dizer que é um espaço essencial hoje, mas seria quase ingrato se não dissesse também! É muito legal ver que passei meses e meses gravando um disco, pensando as músicas no meu quarto, no estúdio, em um bar com amigos, e que cheguei a outras pessoas. Já recebi mensagens de pessoas de Brasília, de Recife, São Paulo, Ilhéus... É claro que queria ser ouvido quando fiz as músicas, mas não imaginei que receberia o carinho de pessoas que não conheço e assim, espontaneamente. Não tem sensação melhor do que saber que alguém te ouviu e se identificou, encontrou um ponto em comum com você.
T&E: Você já comentou em algumas entrevistas que sua música é em grande parte de feita de encontros. Isso é notável nas suas composições conjuntas ou nos inúmeros instrumentos que são tocados em algumas músicas, como se deram alguns desses encontros, como com o JR Tostoi e o Omar Salomão, por exemplo?
O JR eu conheci graças ao Eber Pinheiro, que mixou algumas gravações que eu tinha feito violão e voz. Quando eu mostrei pra ele algumas das músicas que eu gravei com as bandas que eu tive, ele achou que eu deveria trabalhar com o Tostoi, para conseguir combinar esses dois lados. E foi ótimo, rolou de primeira e ele me sugeriu que eu gravasse o disco.
Fui criado ouvindo vinil, comprei e compro CD, mas também só tive acesso a muitos artistas porque eles estavam na internet. É até redundante dizer que é um espaço essencial hoje, mas seria quase ingrato se não dissesse também! É muito legal ver que passei meses e meses gravando um disco, pensando as músicas no meu quarto, no estúdio, em um bar com amigos, e que cheguei a outras pessoas. Já recebi mensagens de pessoas de Brasília, de Recife, São Paulo, Ilhéus... É claro que queria ser ouvido quando fiz as músicas, mas não imaginei que receberia o carinho de pessoas que não conheço e assim, espontaneamente. Não tem sensação melhor do que saber que alguém te ouviu e se identificou, encontrou um ponto em comum com você.
T&E: Você já comentou em algumas entrevistas que sua música é em grande parte de feita de encontros. Isso é notável nas suas composições conjuntas ou nos inúmeros instrumentos que são tocados em algumas músicas, como se deram alguns desses encontros, como com o JR Tostoi e o Omar Salomão, por exemplo?
O JR eu conheci graças ao Eber Pinheiro, que mixou algumas gravações que eu tinha feito violão e voz. Quando eu mostrei pra ele algumas das músicas que eu gravei com as bandas que eu tive, ele achou que eu deveria trabalhar com o Tostoi, para conseguir combinar esses dois lados. E foi ótimo, rolou de primeira e ele me sugeriu que eu gravasse o disco.
Já o
Omar, outro amigo incrível que surgiu nesse processo, eu conheci um pouco por
acaso – eu diria sorte. Eu estava na casa de um amigo em comum que tinha
acabado de receber uma poesia do Omar. Na hora que eu bati o olho, falei: vou
musicar! Fui pra casa, abri uma garrafa de vinho e fiz a música. O resultado
foi Ecos da Rua, que acabou dando título ao meu disco e abrindo caminho pra que
a gente fizesse Novo Modo juntos.
T&E: No vídeo da música "Vem de vez" (que pode ser visto abaixo) você conta que, para cantar, um amigo lhe indicou imitar as pessoas que você gostava, essa ideia rendeu? Quem você imitou, além do Eddie Vedder e o Kurt Cobain?
Hahahaha, realmente tinha essa coisa de gostar do grito, da explosão, e eles eram minhas referências iniciais pra isso. Mas muitos artistas me influenciaram também. A Elis, por exemplo, também me ensinou muito a cantar.
T&E: No vídeo da música "Vem de vez" (que pode ser visto abaixo) você conta que, para cantar, um amigo lhe indicou imitar as pessoas que você gostava, essa ideia rendeu? Quem você imitou, além do Eddie Vedder e o Kurt Cobain?
Hahahaha, realmente tinha essa coisa de gostar do grito, da explosão, e eles eram minhas referências iniciais pra isso. Mas muitos artistas me influenciaram também. A Elis, por exemplo, também me ensinou muito a cantar.
![]() |
| (Foto: Divulgação) |
T&E: Uma
das bandas mais importantes do cenário carioca nos últimos anos é o Los
Hermanos, sei que pode até soar maçante as pessoas sempre lhe perguntarem isso,
mas a figura dos barbudos paira sobre todas as novidades que vem do Rio. Como
você nota isso? Eles lhe influenciaram ou não?
Olha, eu acho que eles realmente deram uma nova energia para o rock brasileiro. E eu os vi começar e acompanhei a carreira deles, seria hipocrisia minha falar que eles não me influenciaram de alguma maneira. Mas não é uma influência direta. Acredito mais que tivemos referências parecidas, por conta da geração mesmo. E na hora de compor, isso surge de um jeito diferente.
O que acho meio chato é que qualquer carioca ou até outra banda brasileira que use arranjos de metais em alguma música ou que combine rock com música brasileira já é logo comparada a eles. Muito antes, os Paralamas já usavam bastante metais, por exemplo. Os Novos Baianos também já entendiam essa mistura que falei de um jeito muito natural. Enfim, uma série de outros artistas já tinha essa proposta, acho que minha geração é influenciada por eles, claro, como por todos os outros nomes que se destacaram pensando a música de um jeito mais amplo, menos engavetado como comentei antes.
T&E: O cenário atual da música brasileira é muito rico, com a internet conseguimos conhecer gente boa em todos os cantos do país, quem que você está escutando atualmente e indica para os nossos leitores?
Gosto muito do Cidadão Instigado e do BNegão & os Seletores de Frequência. Recentemente conheci o Graveola e o Lixo Polifônico e também curti muito. Outro da galera mineira foi o César Lacerda. Fui num show dele aqui no Rio, na Comuna, e depois de nos conhecermos melhor, decidimos até fazer um show juntos que rolou agora no meio de setembro. Recentemente também ouvi o Léo Cavalcanti, por conta de um projeto que ele fez com o Omar, e me senti muito provocado pelo som dele. Pensando mais rapidamente, são os artistas que mais tenho ouvido mesmo.
Olha, eu acho que eles realmente deram uma nova energia para o rock brasileiro. E eu os vi começar e acompanhei a carreira deles, seria hipocrisia minha falar que eles não me influenciaram de alguma maneira. Mas não é uma influência direta. Acredito mais que tivemos referências parecidas, por conta da geração mesmo. E na hora de compor, isso surge de um jeito diferente.
O que acho meio chato é que qualquer carioca ou até outra banda brasileira que use arranjos de metais em alguma música ou que combine rock com música brasileira já é logo comparada a eles. Muito antes, os Paralamas já usavam bastante metais, por exemplo. Os Novos Baianos também já entendiam essa mistura que falei de um jeito muito natural. Enfim, uma série de outros artistas já tinha essa proposta, acho que minha geração é influenciada por eles, claro, como por todos os outros nomes que se destacaram pensando a música de um jeito mais amplo, menos engavetado como comentei antes.
T&E: O cenário atual da música brasileira é muito rico, com a internet conseguimos conhecer gente boa em todos os cantos do país, quem que você está escutando atualmente e indica para os nossos leitores?
Gosto muito do Cidadão Instigado e do BNegão & os Seletores de Frequência. Recentemente conheci o Graveola e o Lixo Polifônico e também curti muito. Outro da galera mineira foi o César Lacerda. Fui num show dele aqui no Rio, na Comuna, e depois de nos conhecermos melhor, decidimos até fazer um show juntos que rolou agora no meio de setembro. Recentemente também ouvi o Léo Cavalcanti, por conta de um projeto que ele fez com o Omar, e me senti muito provocado pelo som dele. Pensando mais rapidamente, são os artistas que mais tenho ouvido mesmo.
- Veja o vídeo para a canção "Vem de vez" e depois baixe o disco "Ecos da Rua" no site do Brunno.


