11 de out. de 2012

O analfabetismo cultural do brasileiro

Julianne Lopes 

O brasileiro é um povo pobre! Mas não me refiro necessariamente a recursos financeiros. Certa vez o professor e ex-senador Cristovam Buarque escreveu: “até o brasileiro mais rico ostenta certa pobreza de espírito”. Estamos habituados ao consumo e à exibição de bens materiais voláteis, como se estes pudessem substituir nossa falta de afinco pelo crescimento e aperfeiçoamento da mente, afinal, como sugeriria Zygmunt Bauman, vivemos em uma sociedade que supervaloriza kits identitários numa relação de “compro, logo sou, logo existo”. Aqui no Brasil, terra de grandes escritores e dramaturgos, o apreço pela arte é difundido e estimulado, no entanto, a partir do momento que eventos culturais dependem de um investimento financeiro pessoal, tornam-se, na mente de alguns tristes brasileiros, obsoletos e desnecessários. “Pagar 50 reais por um livro, ou para assistir a uma peça de teatro é demais”. Esta argumentação é a base do discurso popular de que trato neste texto, o qual, em sua maioria, caracteriza o investimento em produtos culturais como supérfluo, e sugere que os mesmos possuem preço abusivo.
Se a falta de dinheiro fosse o problema, o argumento poderia até fazer sentido, contudo as pessoas de que falo ostentam e exibem seus tênis de 300 reais, que em dois anos, no máximo, será substituído. Seria um livro de 35 reais um gasto que comprometerá as finanças desse indivíduo de forma irreversível? Certamente não. É perceptível, portanto, a discrepância do discurso: não querer pagar é diferente de não poder pagar.

Está mais do que na hora de assimilarmos a ideia de que os gastos com cultura não são mero desperdício de recursos. Filmes, apresentações teatrais e livros são instrumentos enriquecedores e indeléveis. O imaterialismo desses bens de consumo é de um custo-benefício inestimável, já que eles formam a nossa bagagem cultural, e se avaliarmos seus valores financeiros dessa forma, tornar-se-ão simbólicos e irrisórios.

Se o consumismo desenfreado é uma síntese de uma modernidade líquida, ou uma pós-modernidade, que se invista em algo de mais-valia. Diariamente, aplicam-se pequenas fortunas em roupas e equipamentos eletrônicos descartáveis, mas por que não se investir em literatura, por exemplo, um expoente cultural responsável diretamente pelo estímulo à capacidade cognitiva, e consequentemente, o crescimento pessoal em todos os aspectos. Aliás, da própria literatura vem um valioso ensinamento que sintetiza este parágrafo. Do lendário personagem de “A Game of Thrones”, Tyrion Lannister: “a mente precisa de livros, assim como a espada precisa ser afiada”.

Não obstante, a ideia de que é melhor investir em bens culturais do que materiais não é mera formalidade elitista, está embasada em princípios filosóficos. O filósofo e economista inglês John Stewart Mill, aprofundador de uma doutrina chamada utilitarismo, mostra que podemos sim, entre duas opções de investimento, avaliar com clareza e lógica o bem que nos será mais proveitoso. O utilitarismo enfoca o sentido de “maximizar a utilidade das coisas e das decisões”.

Não acredito, porém, que pares de tênis, bebidas, baladas e iphones sejam mais eficazes nesse sentido do que um bom livro, mas que a opção ideal é sempre aquela que nos provoca e nos instiga, em maior grau, as faculdades mentais, que proporciona o aprendizado e nos faz crescer intelectualmente.