31 de out. de 2012

Entre Los Angeles e Cabul, Ariana Delawari

Renan Guerra
Colaboração Nycolas Ribeiro

David Lynch é um diretor de cinema quase guru.  Além de dirigir maluquices como “Cidade dos Sonhos” e “Veludo Azul”, ele ainda viaja pelo mundo divulgando estilos de meditação e, de quebra, lhe sobra tempo para nos apresentar novidades incríveis, como a maravilhosa Ariana Delawari, com quem tive o prazer de trocar delicados e-mails. A artista norte-americana está no Brasil para lançar seu filme, o documentário “We came home”, que fala sobre suas raízes afegãs após o 11 de Setembro, pois depois da tragédia seus pais mudaram-se para o Afeganistão para ajudar na reconstrução da cidade Cabul. Ariana viveu 10 anos entre os dois países, filmando, fotografando e fazendo música, numa tentativa de compreender sua relação com o país e sua descendência afegã. Além de cineasta, já temos acesso ao delicioso álbum de estreia de Ariana, “Lion of Panjshir”, lançado em 2009, em que ela mescla a cultura ocidental e oriental.
Venho conversando com Ariana desde o mês de agosto, trocamos e-mails e aos poucos ela foi me respondendo às questões com longas respostas - o que revela seu carinho intenso por cada trabalho. Animadíssima em estrear seu filme na 36ª Mostra Internacional de São Paulo, a artista já havia conhecido o Brasil no início deste ano, quando veio ao Rio de Janeiro.

- “Foi mágico. Um antigo amigo que eu não via há dez anos me convidou e eu aceitei. Nós escrevíamos belas cartas por meses antes de chegar aí. Não fazia ideia do que esperar [do Brasil]. Eu fui em fevereiro. Nós nos apaixonamos muito e todo momento foi como pura mágica. Eu vi a borboleta azul, um dos meus animais favoritos no mundo. Apaixonei-me pelo Brasil. As pessoas são tão calorosas e bonitas. A comida, a selva, os prédios antigos do Rio, a música é incrível lá. Acredito que Copacabana e Ipanema são meus lugares favoritos do Rio. Infelizmente nosso namoro terminou alguns meses depois, mas me deixou com uma grande paixão pelo país de vocês. E eu também escrevi uma música dessa experiência.”
As experiências vividas pela artista parecem inspirar intimamente seus trabalhos. Em seu atual projeto “We came home”, Ariane revela uma produção artística mais íntima e pessoal. “We came home” é um documentário muito pessoal para Ariana.

- “É bem emocionante. Quando exibimos o documentário foi um grande misto de risadas e lágrimas. Várias pessoas disseram que sentiram que deviam ligar para suas famílias depois de assisti-lo, pois é um filme sobre família. Até agora todos têm amado muito o documentário em nossas exibições privadas. O filme foi um incrível processo orgânico. Foi, literalmente, [um processo] de documentação apenas das minhas fotos de viagens, vídeos e músicas. Todo mundo ficava dizendo ‘você precisa fazer um filme’ e eu sabia que tinham razão, mas ainda sabia sobre o que ele seria.”

(Foto: Divulgação)

O cinema, curiosamente, não foi a arte que ligou Ariana e o supracitado David Lynch, mas sim a música múltipla produzida pela artista. O disco “Lion of Panjshir” foi produzido e incentivado por Lynch, que se encantou por aquelas misturas, as quais a própria cantora deixa claro em suas inúmeras influências:
- “Björk, John Lennon, Ahmad Zahir, Hendrix, Led Zeppelin, Jean Pierre Jeunet, David Lynch, Ravi Shankar, Tchaikovsky, Elvis, Johnny Cash, Radiohead, Rumi, ballet, o filme “Dançando no Escuro”, Audrey Hepburn, Roman Holiday e Bonequinha de Luxo, Degas, filmes antigos de Hollywood sobre o Oriente/Oriente Médio, Bob Dylan, Neil Young, Ahmad Shah Massoud, The Beatles, Sgt Peppers, estrelas de cinema mudo, Dali, as pinturas de Jean Negulesco, navios, o oceano, as montanhas de Hindu Kush, pessoas nômades, The Kuchis (nômades afegãos do Afeganistão), Orson Welles, Che Guevarra, John Keats, ciganos, O Mágico de Oz, cavalos e camelos, tendas, fadas, estrelas, o céu, o oceano, meus sonhos (muito da minha música vem dos meus sonhos), meus avós, meus pais, artesanato, jóias afegãs antigas, fotos antigas, Wong Kar Wai, Shirin Neshat, Rabia Balkhi, Band-e-Amir (lagos do Afeganistão), todos os meus amigos e suas músicas, templos antigos, Odetta, ativistas dos direitos civis americanos e artistas como: Harriet Beecher Stowe, Sojourner Truth, Billie Holiday, e Martin Luther King Jr., todos que sempre amei, mas a maior referência de tudo são todas as crianças que eu conheci no Afeganistão durante as viagens que fiz por lá. Em campos de refúgio, escolas, vilarejos, orfanatos, hospitais, lojas, aquelas crianças estão em meu coração para o resto da minha vida. Elas são a inspiração mais profunda para o trabalho que faço”.

A música e as múltiplas influências sempre fizeram parte da carreira da cantora, tanto que seu álbum é cantado ora em inglês ora em línguas tradicionais afegãs, o que representa uma relação com sua cultura ampla. Mesmo com sua afinidade intensa com a cultura afegã, as influências americanas estão presentes, já que Ariana cresceu, durante os anos 80, em Los Angeles, quando, segundo ela, a MTV era tudo:
- Eu era obcecada por Madonna e rabos de cavalo laterais. Quando eu era bem criança [minhas grandes referências] eram Madonna, Depeche Mode, Madeness e música afegã. Minha mãe ouvia folk antigo e música country, como Willie Nelson, Simon & Garfunkel e The Beatles. John Lennon é o meu músico favorito de todos os tempos desde que eu era bem pequena. Minha avó siciliana costumava tocar as músicas gospel do Elvis. Meu pai tinha um monte de álbuns antigos do Ravi Shankar. Então eu comecei a tocar violão quando eu tinha 13 anos e foi quando comecei a ficar realmente obcecada por Jimi Hendrix, Led Zeppelin e Nirvana. Eu fui a um show da turnê do disco ‘No Quarter’, do Robert Plant e Jimmy Page, e eles estavam tocando com músicos norte-africanos”.

Ariana também tem suas preferências na nossa Música Popular Brasileira:
- “Um dos meus álbuns favoritos é de Nelson Angelo & Joyce. É um álbum lindo e eu escuto com frequência. Eu também gosto de Caetano Veloso, Seu Jorge e da cantora Cibelle, ela é muito especial”. O Brasil é um amor intenso da artista, como ela conta: “Na verdade, eu iria amar muito fazer um álbum no Brasil algum dia. Eu adoraria trabalhar com músicos brasileiros e fazer algo especial aí. A música daí fala com o meu coração. Talvez algo sobre a Amazônia, talvez na Amazônia ;) Isso seria muito incrível. Ou um filme sobre a Amazônia... alguma coisa com a Amazônia.”

Lançando seu filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Ariana já prepara seu segundo álbum, que para ela não tem tanto de suas influências afegãs, mas que, segundo Lynch, é mais afegão que o primeiro. A artista exemplifica essa relação com as culturas: “às vezes eu toco meu violão como um rebab ou sitar [instrumentos típicos afegãos] e nem percebo. Eu acho que estou tocando de uma forma americana ou algo do tipo e as pessoas ouvem algo oriental. Eu não quero dizer o título [do meu novo disco] ainda, mas é totalmente um universo próprio”. Agora é aguardar a lançamento do disco e para quem não puder ir à Mostra, vamos ter que aguardar outras oportunidades de assistirmos “We came home”.

- Vídeo da canção "We Came Home" do álbum de estreia de Ariana Delawari