5 de nov. de 2012

Quando a câmera captura a realidade de uma cena


Cena do documentário Working man´s death (2004)
"Querida escuridão, você não me cobrirá novamente?" - diz uma das letras mais envolventes da trilha sonora de “Whory´s Glory” (2011), documentário experimental de Michael Glawogger, que mostra com excentricidade o submundo da prostituição no México, na Tailândia e em Bangladesh. Ao assistir a atmosfera pesada e rubro-negra das cenas que fizeram o diretor terminar seu projeto-mór, o expectador pode se perguntar: quem filmou isso?

Michael é um hipnótico amante da vida real e das coisas submersas na realidade. O documentário, por exemplo, é uma produção que completa sua trilogia, composta por "Working man´s death" (2004) e "Megacities" (2009), sobre o mundo do trabalho informal. O diretor consegue retratar o mundo do tráfico, das drogas, da prostituição e da pobreza de maneira bem particular em cada uma das películas. As situações filmadas parecem compor um flagrante da realidade privada, mas que, ao mesmo tempo, nos enganam pela belíssima fotografia e cenário capturados e nós acabamos nos questinando se tudo aquilo é real ou é encenado. Michael garante que é real.

Cena de Whory´s Glory (2011)em um prostíbulo de luxo na Tailândia.

Ele, que fez deste tipo de produção um estilo cinematográfico, faz questão de, em todos os seus trabalhos, mostrar a “atmosfera do lugar” para que tudo seja percebido como mais real (ou perfeito) do que é. Mesmo em seu último longa-metragem, Contact High (2009), o contexto ficcional e de comédia não atrapalhou os aspectos críticos da trama. Apesar do tom mais sintético na composição das personagens, o filme não foge aos temas antes trabalhados: drogas, prostituição, roubos.

Imagens de divulgação do curta independente Megacities (2009).

Mas Contact High é mesmo um trabalho à parte. Michael parece ter se encaixado neste formato de produção há pouco tempo. Com uma longa experiência enquanto diretor, produtor e roteirista, o alemão passeou por vários formatos cinematrográficos desde 1981, quando estreou em festivais de cinemas europeus com o curta-experimental “Pacific Motion”. Como a maior parte de suas obras ainda está em alemão e são quase impossíveis de serem encontradas aqui no Brasil, a Tudo & Etc resolveu conversar com o diretor para entender, afinal, a expressão da sua arte.

Antes que o novo projeto de Michael “60 segundos de solidão no Ano Zero” chegue ao Brasil (se chegar), vale a pena dar uma conferida na entrevista.

T&E: Primeiramente, nós gostaríamos de saber quais as suas referências cinematográficas para a produção de roteiros tão intensos e tão compromissados com a realidade?

Michael: Eu sou mais afeiçoado com outras boas artes, como literatura e fotografia, do que propriamente com outros filmes. Cada vez mais eu faço meus filmes a partir da escrita. O que eu escrevo não é necessariamente o que eu irei filmar – é uma coisa mais atmosférica. Eu começo por descrever lugares que filmo numa hora específica do dia e como as pessoas se comportam ali. Às vezes eu vejo uma pintura e penso – Oh, é assim que deve ser capturada [a imagem]. As referências que vêm com o meu trabalho são vagas: um momento esquecido de um filme antigo fica guardado comigo, e, em dado momento, eu lembro disso. Minha abordagem para estruturar meus filmes nunca tem um rumo ou roteiro orientado. Eu não procuro por temas e procuro não levantar questões. Eu tento criar uma essência cinematográfica das condições humanas.

T&E: Ainda falando sobre a produção, como você gerencia o seu trabalho? Isto é, a publicidade e distribuição da obra. Você possui algum tipo de agência promotora e patrocinadora, ou o seu trabalho é independente?

Não, eu não trabalho autonomamente. Meus filmes são financiados com fundos públicos, como praticamente todos os filmes europeus o são.

T&E: Como é o procedimento para a produção dos seus filmes?

Minhas pesquisas são normalmente mais longas do que as dos últimos filmes que fiz. Mas no meu próximo projeto irei filmar uma viagem que pretendo fazer durante um ano, explorando o lugar e filmando-o ao mesmo tempo. Então, o processo de pesquisa e filmagem começarão simultaneamente.

T&E: Quando você decidiu produzir a trilogia sobre o mundo do trabalho, que críticas políticas, econômicas e sociais pretendia fazer? Por um momento, eu tive a sensação que você queria mostrar a exploração da força de trabalho e como essa exploração cria submundos latentes na sociedade. Esta é uma interpretação possível?

Meus filmes, no geral, não têm a intenção de fazer críticas ao Sistema Social. Eles são, como eu disse antes, uma exploração de como as pessoas vivem e sobrevivem no planeta durante o meu tempo. Eu sou muito mais interessado pela maneira e não no porquê. Eu acredito sinceramente que a arte não é uma coisa política e que também não está aqui para mudar o mundo. Filmes podem abrir seus olhos, como também podem tentar fazer outras pessoas entenderem ou terem o mínimo entendimento sobre quem nós somos. Mas se o cinema se envolve em críticas políticas, econômicas e sociais, isso será irrelevante, pois toda forma de arte tem sua própria alma e a alma da produção cinematográfica é algo totalmente diferente do que ser uma ferramenta política. Um filme possui muito pouco tempo para mostrar coisas que deem audiência e este fator é crucial para como o diretor irá usar este tempo. É muito difícil criar um momento nas cenas que seja tão especial a ponto de ninguém esquecer. Então, em termos cinematográficos, eu poderia dizer que é muito difícil encontrar o momento exato no qual as suas imagens estão ali, começando a lhe falar. Se você for pensar mais adiante, digamos numa agenda política ou ideológica, você começará a usar o cinema para alguma coisa além do que ele mesmo é. Isto é, começará por desperdiçar o tempo que você tem para o filme, procurando alguma outra coisa essencial. Eu passei a minha vida tentando captar os momentos exatos e isso foi uma escolha. Eu iria sempre ser livre comigo mesmo, por ter os temas para os meus filmes.

T&E: Podemos considerar as suas produções como alternativas?

Atualmente os documentários são muito confundidos por serem reportagens de produções cinematográficas, que possuem um caráter mais distributivo, isto é, mais comercial. Para mim, produções cinematográficas são uma arte. Uma arte que é reconhecida a partir da realidade na qual estamos inseridos. Mas nós não capturamos esta realidade como se nada não fosse questionado. O filme, na verdade, redesenha a realidade pondo-a numa outra forma – uma nova forma de observação. Neste sentido, a realidade que está lá fora é apenas as cores que são usadas pelo cineasta. E a obra finalizada é o produto do que ele fez com estas cores.

T&E: Aqui no Brasil, seu último filme da trilogia, o Whore´s Glory, chamou a atenção pela linda fotografia e, (pessoalmente) pela trilha sonora que trazia PJ Harvey como tema. Neste sentido, qual a relação que você encontra entre a música e atmosfera do filme? É você quem escolhe a trilha?

Música é algo muito importante nos meus filmes mesmo se no fundo não houver música. Música é uma forma crucial sobre como nós percebemos a realidade em um filme, quando, então, você consegue atenuar ou amenizar as cores do seu trabalho com a percepção da música. Música é o que define se o seu filme é uma pintura à óleo, à pinceladas ou traços definidos.

T&E: Agora nós aguardamos a sua participação em “60 segundos de Solidão no ano zero”, filme no qual você e mais 59 diretores tiveram a missão de registrar em um minuto temas relacionados à morte do cinema. Isso foi um desafio para você? O que nós podemos esperar deste trabalho?

Pois é. Eu ainda nem vi o filme. Mas adianto que a minha parte é sobre pessoas que olham para a câmera. Eu sempre gostei da curiosidade dos transeuntes quando encaram uma câmera, embora muitos diretores cinematográficos passem boa parte de suas vidas lutando contra isso.

T&E: Por fim, eu não posso deixar de perguntar se você gostaria de conhecer o Brasil. Você conhece os nossos diretores de cinema? Tem algum favorito?

Eu adoraria conhecer sim. Eu amo os filmes de Glauber Rocha, especialmente “A idade da Terra”.