Família é algo complicado, mas às vezes a sua pode parecer figurante perto de muitas do cinema (ou não). As famílias disfuncionais se caracterizam pelas relações complicadas, cheias de dependências e coisas não ditas, com caminhos pelas drogas, mágoas guardadas e incompreensão. O cinema se apropria dessas famílias com uma intimidade ora assustadora ora melancólica e até mesmo de forma engraçada. Seja chorando os dramas ou rindo ironicamente deles, nós fizemos esse top 10 para que os seus almoços de domingo nunca mais pareçam tão esquisitos:
10: Preciosa (Precious, 2009) dirigido por Lee Daniels
Molestada pelo padrasto, ignorada pela mãe, acima do peso e solitária; se alguém ousar dizer que Precious não sofre com as disfuncionalidades familiares, a mãe dela tacará frigideiras na gente. Um sem-número de problemas ainda aparecem na vida da protagonista do longa americano, que foi indicado a 5 Oscars, incluindo o de Melhor Filme. Vale atentar as participações de Mariah Carey e Lenny Kravitz, sem contar na atuação estupenda de Mo'Nique, como a mãe problemática, que recebeu o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante.
9: Pink Flamingos (1972) dirigido por John Waters
Divine por si só já valeria o filme, porém ela vem acompanhada de uma família grotesca, que luta pelo título de "pessoas mais sórdidas do mundo". Uma mãe louca por ovos, sexo com galinhas e um ânus cantor, tudo é o mais bizarro possível, neste que é um dos filmes mais divertidos e malucos de John Waters, considerado o papa do Trash. Se você acompanhar esse filme sem ficar enojado, parabéns, você é tão sórdido quanto Divine e sua família.
8: Chuva de Verão (Rain, 2001) dirigido por Christine Jeffs
Uma casa de praia e uma família em ruínas, festas noturnas que envolvem bebidas e traições e a jovem Janey descobrindo que o amor, o sexo e a família são mais complexos do que parecem. O álcool e a maresia envolvem as descobertas da adolescente, enquanto a relação de seus pais se esvai em brigas. No meio desta confusão, o pequeno irmão de Janey é que sofre com as complicações familiares. Delicado e doloroso, esse pequeno filme neo-zelandês cativa pelo envolvimento que criamos com os personagens. Vale lembrar que o filme nacional "À Deriva", de Heitor Dhalia, foi acusado de plágio pela diretora Christine, já que as histórias são muito semelhantes.
7: Perdas e Danos (Damage, 1992) dirigido por Louis Malle
Jeremy Irons é o pai que se apaixona pela nova namorada do filho, criando um desequilíbrio familiar jamais imaginado. Juliette Binoche, mais linda do que nunca, é que desestabiliza essa família, fazendo com que o longa crie um clima de tensão em torno dos rumos familiares. Erótico e intenso, o filme causou polêmica nos Estados Unidos, mas mesmo assim, a atriz Miranda Richardson ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, pelo papel da mulher traída de Jeremy.
6: O casamento de Muriel (Muriel's Wedding, 1994) dirigido por P.J. Horgan
Muriel - interpretada por uma Toni Collette acima do peso - escuta Abba como forma de fugir de sua vida difícil, em meio a um pai opressor e uma mãe com problemas psiquiátricos. Correndo atrás do sonho de casar, Muriel faz loucuras e nos engendra numa história comédia romântica ao mesmo tempo amarga e encantadora. Muriel é a prova de que uma família disfuncional não é desculpa para o drama e faz de tudo pra correr atrás de liberdade e felicidade. Recomenda-se o longa para aqueles dias em que a depressão quer se apossar do nosso corpo: um paliativo sem restrições médicas.
5: Beleza americana (American Beauty, 1999) dirigido por Sam Mendes
O "American Way of Life" nunca foi tão desconstruído quanto neste filme, onde a família americana se esvai numa intensa dúvida de "somos felizes?". O desconforto de Lester, interpretado por Kevin Spacey, acaba gerando uma mudança na organização familiar, tão bem arquitetada pela esposa dele, interpretada pela ótima Annette Bening . Uma antifábula do sonho americano, o longa recebeu 5 Oscars, incluindo o de Melhor Filme.
4: A Casa de Alice (2007) dirigido por Chico Teixeira
A família de Alice esconde pequenos segredos que se espreitam pelas paredes do pequeno apartamento no subúrbio paulistano. Uma avó que se torna uma fardo, um filho michê, um marido adúltero, uma relação complexa entre os irmãos, que caminham entre a violência e o incesto. Estes são alguns dos problemas que Alice enfrenta, causando dúvidas, dores e atitudes ousadas dessa mãe tão real. Jogando com frugalidades cotidianas, o longa cria uma família tão universal quanto brasileira, num longa que envolve pela crueza.
3: Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006) dirigido por Jonathan Dayton e Valerie Faris
Os problemas mais escabrosos de uma família nunca soaram tão agridocemente melancólicos como neste filme. Movidos pelo sonho da pequena Olive (Abigail Breslin), a família sai em uma viagem na sua acabada combe amarela. Os problemas internos - que vão desde o filho que fez voto de silêncio ao tio homossexual que tentou suicídio - acabam surgindo nesse road movie da frustração, onde as metáforas do percurso é que movem as mudanças nas relações familiares.
2: Felicidade (Happiness, 1998) dirigido por Todd Solondz
Todd Solondz é o diretor dos desajustados e psicossocialmente complexos, mas neste filme ele chega ao cume: assassinatos, pedofilia, traição, perversões sexuais e outras agruras da família americana são vistas por um olhar ironicamente malvado. Rimos de cenas tão chocantes, que acabamos por compreender a lógica do diretor: se a felicidade é impossível de ser encontrada, divertimo-nos com o perverso da humanidade. Nem todos conseguem compactuar com essa visão tão amarga, mas o filme vale pela verdade e dignidade que o diretor impõe a seus personagens.
1: Os Excêntricos Tenenbaums (The Royal Tenenbaums, 2001) dirigido por Wes Anderson
A família mais esquisita do nosso cinema nas mãos de um dos diretores mais esquisitos do atual cinema americano. Wes Anderson é um diretor de personagens esquisitos, mas aqui ele os reúne em uma família tão complexa e estilizada, que nos faz criar laços fortes com todos esses problemas. Acompanhamos a infância doida dos Tenenbaums até a tentativa de reunião familiar idealizada pelo patriarca. Amargurados, rancorosos e cheios de manias, os Tenenbaums conseguem ser a família mais disfuncional e divertida do cinema. Melancólico e sutil, o longa é uma visão interessante sobre essa instituição tão maluca que é a família. Ah, sem contar que este filme contém uma das melhores atuações de Gwyneth Paltrow, como a blasé Margot Tenenbaum.
Depois desse panorama saudável sobre a família, você ainda acha a sua família tão estranha assim?



















