27 de dez. de 2012

Vitor Araújo: pés no piano, cabeça no mundo

Renan Guerra


Vítor Araújo é uma figura ímpar no cenário musical brasileiro: um pianista de 24 anos que caminha numa linha tênue entre a música erudita e a pop. Tocando piano desde os nove anos, Vitor viu sua imagem ser catapultada na mídia em 2008, com apenas 18 anos, participando de atrações como o “Programa do Jô” e “Caldeirão do Huck”, principalmente pelo choque causado por sua mistura entre clássico e popular, especialmente nas intensas sequências em que o pernambucano pisa rebeldemente sobre o piano com seus All Stars surrados.

Em 2008, o artista lançou o DVD “Toc”, no qual ele se apresenta ao vivo com canções totalmente díspares entre si, como “Paranoid Android”, do Radiohead, e “Dança do índio branco” de Heitor Villa-Lobos. Com ecos de post-rock e de música clássica, Vitor lançou em 2012 seu disco de estreia, intitulado como “A/B” e liberado para download em seu site.

“A/B” tem dois lados distintos, como o próprio nome deixa claro: um lado A, mais melancólico e quase soturno, baseado, em grande parte, no piano e em instrumentos como o trompete de Guizado na canção “Solidão nº 3”, enquanto o lado B é recheado de participações, que vão dos tambores do mestre Naná Vasconcelos às guitarras do trio mato-grossense Macaco Bong. Intenso e marcante, o álbum de estreia de Vitor Araújo é uma bela viagem para quem se aventura por suas faixas, e para que você se deixe arriscar em conhecê-lo nós conversamos com ele para saber mais sobre sua carreira e seu disco:

T&E: Você toca piano, que é um instrumento tão veemente, sem se deixar aprisionar a uma relação clássica com ele, afinal, você chega a pisar nele! Como é a sua relação com ele?


Vitor: Eu tenho hoje 23 anos de vida, dos quais passei 14 tendo o piano como a coisa mais importante dela. É bem louco ter uma relação tão forte com uma coisa "morta", com um objeto. Ao mesmo tempo em que ele só ganha vida através de mim, o meu sentido de viver só é possível através dele. Claro que o meu processo de criação artística também envolve outros meios, porém, de todos os meios que disponho para fabricar arte, o piano é o que mais domino, é o que mais me dá prazer e o que mais sinto como extensão não só da minha mente, mais do meu corpo. Quando, num concerto silencioso, consigo me conectar metafisicamente ao ato de tocar, eu realmente não detecto mais separação entre mim e o piano. Isso tudo é muita viagem...

(Foto: Tiago Calazans)

T&E: Essa história de você pisar no piano e tocar músicas consideradas comerciais ao lado de clássicos fez um chamariz da mídia em relação ao seu nome, abrindo portas para que você participasse de programas globais, por exemplo. O que você acha de toda essa atenção?

É com­pli­cado ten­tar fazer um juízo de valor para men­su­rar se a ima­gem de rebelde me fez bem ou mal. Ela pode ter me aju­dado a che­gar em alguns lugares e ter fechado as por­tas de outros. Mas, como eu senti pouquís­si­mas por­tas fecha­das pra mim desde que eu lan­cei o TOC, acre­dito que essa ima­gem não me foi nociva. Consegui tran­si­tar por um meio artís­tico res­pei­ta­bi­lís­simo e estar em con­tato com gran­des mes­tres da música bra­si­leira, como Caetano, Naná, João Donato. A prin­cí­pio, essa seria a grande difi­cul­dade pra um artista com o rótulo, ou o carimbo de “ado­les­cente rebelde”: che­gar a um meio artís­tico de cará­ter mais adulto, mais maduro. Então, não vejo pro­blema nessa redu­ção do meu tra­ba­lho à expres­são “rebel­dia”. Talvez por­que seja real­mente um resumo não fora da rea­li­dade do pri­meiro disco: ele, de fato, é um disco de um recém-saído da ado­les­cên­cia, com sede de ico­no­clas­tia a qual­quer custo, com von­tade de pisar no piano, com mais desejo de ser um Kurt Cobain do que um Nelson Freire.

Essa ima­gem me fez pene­trar em cir­cui­tos onde um pia­nista eru­dito geral­mente não pas­seia: o mundo pop e, ao mesmo tempo, não me atra­pa­lhou no intuito de des­bra­var ver­ten­tes mais com­ple­xas do mundo artís­tico, e evo­luir muito com esse pro­cesso de desvendá-las. Portanto, não posso dizer que “me fez bem”, pois toda redu­ção de um tra­ba­lho a uma emba­la­gem super­fi­cial é sem­pre inde­se­jada. Mas, tam­bém não posso dizer que é uma ima­gem errada (pois ela cer­ta­mente con­diz com meu momento em 2008 com 18 anos de idade), e não vejo como ela poderia ter me atrapalhado.

T&E: Seu primeiro disco, A/B, chega de forma independente, estando disponível para download em seu site, o que é um passo importante na divulgação do trabalho. Isto foi uma escolha sua? Qual a sua opinião, enquanto artista, dos downloads, tanto legais quanto os ilegais?

Não foi uma escolha. Prefiro só pensar na música. A vida de um artista independente me obriga a pensar em várias outras coisas além da música, e eu não gosto nem um pouco disso. Em relação a disponibilizar o disco pra download gratuito, eu não vejo o menor problema. Não posso dizer que nasci na era da internet. Nasci em 89 e só fui ter computador, com internet discada, no começo dos anos 2000. Porém, às vezes, a sensação que eu tenho é que a internet sempre esteve presente na minha história. É bem louco isso. Conheci diversas bandas pela internet, baixando músicas e discos sem nem raciocinar se isso era certo ou errado. Era simplesmente natural. Me lembro de quando o Mombojó lançou o "Nada de Novo" na internet, e foi a primeira vez que eu ouvi discussões sobre download de música gratuita. Antes disso, eu nem pensava sobre o assunto. Só baixava o que eu queria ouvir e assim cresci bastante na minha quantidade e qualidade de referências musicais. Muitas das pessoas de hoje já se satisfazem totalmente com essa mídia, o MP3. Eu gosto da praticidade dessa plataforma, mas ela não me satisfaz completamente. Quando gosto muito de um disco, costumo comprar, por valorizar bastante a identidade visual da obra. Tenho toca-discos, e adoro colecionar vinis. Farei uma tiragem do A/B em vinil em 2013 com certeza. E aí, vai do gosto e da necessidade do público. Quem quiser mesmo ter o disco, não vai deixar de comprar porque tem em MP3 na internet, tenho certeza disso.

T&E: Sua influências se mostram amplas, passeando do clássico ao moderno, quem você citaria como influências principais?

David Lynch, Kubrick, Tarantino... Bergman, Tarkovsky, Scorcese... Chan-Wook Park, Cláudio Assis, Lars Von Trier...

T&E: Alguns jornalistas gostam de comparar seu trabalho a carreira solo do Joony Greenwood, do Radiohead, o que acha da comparação?

Ficaria lisonjeadíssimo com essa comparação. Sou um fã irremediável do Radiohead e grande admirador tanto do Thom Yorke quanto do Greenwood. O trabalho solo dele é fantástico. Tem densidade musical, ousadia, refinamento estético, tem cabeça e coração... Sou muito fã e me espelho muitíssimo nele.

(Foto: Reprodução)

T&E: Seu disco vem recheado de participações, desde artistas de renome na cena independente nacional até artistas importantes dentro do cenário da música clássica, como surgem esses encontros? Qual a importância deles para você?
As quatro participações tiveram contato comigo antes do disco. Naná, eu conheci quando ele me convidou para fazer a abertura do carnaval de Recife em 2009, com o Caetano Veloso e ele. Foi uma experiência fortíssima, e tenho Naná até hoje como um grande amigo e oráculo. Ouço cada frase que ele diz, pois parece que tudo tem uma importância muito grande, e eu não posso perder nada. Yuri e Rivotrill são grandes amigos aqui de Recife, nos encontramos sempre nos palcos daqui desde que comecei minha carreira, inclusive fizemos um show Vitor Araújo + Rivotrill com direção musical de Yuri. E o Macaco Bong, conheci fazendo um show especial deles, com participações do Siba e do Móveis Coloniais de Acaju, além de mim. O lado B eu construí de uma forma muito racional. Eu tinha em mente que eu que­ria o Lado B o mais esqui­zo­frê­nico pos­sí­vel. Daí veio a idéia de cada música do B ter a par­ti­ci­pa­ção de um artista diferente, o que faria com que sur­gisse sem­pre uma nova infor­ma­ção a cada faixa e que ele fosse gra­da­ti­va­mente se sujando, enlou­que­cendo. Começo com o “Baião”, uma peça para piano de minha auto­ria, que no final tem uma inter­fe­rên­cia de sam­plers pro­gra­ma­dos por Yuri Queiroga. Na faixa seguinte, entra o Naná Vasconcelos, inter­pre­tando comigo a peça “Jongo”, de Lorenzo Fernandez. Ter Naná no meu disco é, tal­vez, a maior honra que já tive em minha car­reira. Trabalhar ao seu lado, rein­ter­pre­tar uma música eru­dita com o cará­ter ances­tral que ele traz nas per­cus­sões, foi real­mente um grande pre­sente e um grande apren­di­zado. O B segue sua pro­gres­são com a pode­rosa assi­na­tura do Rivotrill inter­pre­tando comigo “Veloce”, de Claude Bolling. E, pra fechar, vem o peso do Macaco Bong tocando ao meu lado uma música minha: “Pulp”, em que home­na­geio o livro homô­nimo de Bukowski e me ins­piro bas­tante no cinema de Robert Rodriguez.

T&E: Já que há estas participações, com que você sonha em conseguir trabalhar ainda?

Black Alien.

T&E: O disco tem no título a sua divisão clara, o A e o B, e realmente esses lados são bem diversos, há uma calmaria inicial em contraponto ao peso final, como essas sonoridades se definiram? Por que uma divisão tão marcante?

Dualidade é uma coisa que me encanta fortemente e não sei explicar o porquê. Eu tenho uma dificuldade absurda em escolher entre duas coisas, por exemplo. Acho esse disco muito próximo de mim, acho que me exponho bastante. E aí esse gosto pela dualidade vem à tona, queira eu ou não. O nome do disco foi a última coisa escolhida e, pra mim, não poderia ser mais perfeito. Na minha visão, o disco fala de um sentimento, visto por ângulos vetorialmente opostos. Claro que é uma visão pessoal, cada um que ouvir vai sentir uma coisa diferente. Mas, dentro da realidade a qual o disco me transporta, acho que essa separação de dois lados me é muito verdadeira.

T&E: O disco está aí, na rua, agora. Você tem algum projeto novo em mente ou ainda irá seguir um bom tempo com a turnê do A/B?

Turnê!!!


Para quem quiser entender a viagem de Vitor Araújo, é só ir ao site dele e baixar o disco “A/B”.