3 de fev. de 2013

Minha babel cinematográfica

Renan Guerra

Há quatro anos adotei uma postura de vida: nada de filmes dublados. Às vezes abro concessões apenas para algumas animações, pois as do diretor Sylvain Chomet, por exemplo, só com o áudio original. Com isso, privei-me de filmes na TV aberta, exceto pelas clássicas reprises de “A Família Buscapé”, já que a dublagem é parte da memória afetiva que tenho com o filme. Parece, porém, que nado contra a maré, pois a TV Cultura, por exemplo, que até um ano atrás exibia apenas filmes legendados, passou a ter duas sessões por semana em que exibe longas dublados e apenas uma com legendados.

Ainda existe um pouco de espaço para os legendados na TV educativa, como no Canal Futura e TV Brasil, mas os filmes dublados começaram a dominar a tela grande. Segundo pesquisa do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro, responsável pelo mais completo banco de dados do setor no país, 56% do público prefere filmes dublados, contra 37% que prefere os legendados e 7% não ligam para a diferença. Um exemplo desse novo perfil, foi o lançamento de “Batman – O cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), de Christopher Nolan, em que foram distribuídas 897 cópias aos cinemas do país, das quais 392 dubladas e 297 legendadas; as restantes foram lançadas em cópias digitais, que permitem que o cinema escolha o áudio, assim, alguns estabelecimentos optam por horários dublados e outros legendados, algo mais democrático.


Cena de "Batman - O Cavaleiro das Treva Ressurge"

Este texto não pretende trazer à tona antigos argumentos na defesa do filme legendado como a qualidade do áudio original; atuações anos-luz na frente das vozes feitas na dublagem; respeito às escolhas de volume do áudio pelo diretor, pois os filmes dublados distorcem a sonoridade; o apreço das legendas às falas originais, mantendo palavrões e a lógica textual. Todos eles são comprovados e os corroboro, mas minha escolha pelas legendas advém de outro contexto: a força das línguas!

Eu amo ouvir as tantas diferenças da voz humana! Não quero assistir ao meu filme com o ruído pasteurizado dos dubladores, quero ouvir a força do espanhol, sentir o ranger do alemão, quero me sentir abalado pela sonoridade do farsi, quero a sensualidade do francês, quero o inglês classudo da Inglaterra como o coloquialismo das ruas de Los Angeles. Deveríamos nos apropriar das possibilidades áudio (e não apenas) visuais que as películas nos proporcionam, deixando essas sonoridades nos invadir.

Vamos a um exercício rápido: imaginem “Trainspotting” sem o sotaque intenso dos personagens, ou um filme de Almodóvar sem o espanhol rápido e dramático. Ou pior ainda: Louis Garrel falando português, bem distante da sedução do francês parisiense. Pensem na Nouvelle Vague com sotaque carioca, em “Pulp Fiction” com sotaque paulista. Agora o contrário: “Cidade de Deus” em francês, sem a agressividade das gírias cariocas. “Tropa de Elite” com sotaque argentino, sem a intensidade da voz de Wagner Moura. “Central do Brasil” falado em russo, sem a suavidade da voz de Fernanda Montenegro.

Cena do filme "Cidade de Deus" legendada em francês.

Estamos cada vez mais globalizados e mundiais, por que então não valorizar as peculiaridades de cada voz, de cada som? Por que não aderimos à beleza de um filme como “Babel”, falado em várias línguas? Babel, segundo o dicionário Michaelis, significa uma confusão de idiomas e é isso que eu quero do cinema: perceber que mesmo falando algo completamente incompreensível para mim, alguém do outro lado do planeta tem as mesmas angústias e os mesmos sonhos.

E pensar que há pessoas com preguiça de ler algumas linhas na parte inferior da tela, enquanto transborda emoção, força e intensidade de cada sílaba que é dita. Dubladores e preguiçosos à parte, ainda estarei na defesa de um cinema linguisticamente intenso, sonoramente envolvente e foneticamente apaixonante. É tão gostoso sentirmo-nos parte dessa coisa chamada Planeta Terra, onde tantas sonoridades e ritmos remetem as mesmas dúvidas, dores, angústias e alegrias.