Há quatro anos adotei uma postura de vida: nada de filmes
dublados. Às vezes abro concessões apenas para algumas animações, pois as do
diretor Sylvain Chomet, por exemplo, só com o áudio original. Com isso,
privei-me de filmes na TV aberta, exceto pelas clássicas reprises de “A Família
Buscapé”, já que a dublagem é parte da memória afetiva que tenho com o filme.
Parece, porém, que nado contra a maré, pois a TV Cultura, por exemplo, que até
um ano atrás exibia apenas filmes legendados, passou a ter duas sessões por
semana em que exibe longas dublados e apenas uma com legendados.
Ainda existe um pouco de espaço para os legendados na TV educativa,
como no Canal Futura e TV Brasil, mas os filmes dublados começaram a dominar a
tela grande. Segundo pesquisa do Sindicato das
Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro, responsável pelo
mais completo banco de dados do setor no país, 56% do público prefere filmes
dublados, contra 37% que prefere os legendados e 7% não ligam para a diferença.
Um exemplo desse novo perfil, foi o lançamento de “Batman – O cavaleiro das Trevas Ressurge” (2012), de Christopher Nolan, em que foram distribuídas 897
cópias aos cinemas do país, das quais 392 dubladas e 297 legendadas; as
restantes foram lançadas em cópias digitais, que permitem que o cinema escolha
o áudio, assim, alguns estabelecimentos optam por horários dublados e outros
legendados, algo mais democrático.
![]() |
| Cena de "Batman - O Cavaleiro das Treva Ressurge" |
Este texto não pretende trazer à tona antigos argumentos na
defesa do filme legendado como a qualidade do áudio original; atuações anos-luz
na frente das vozes feitas na dublagem; respeito às escolhas de volume do áudio
pelo diretor, pois os filmes dublados distorcem a sonoridade; o apreço das
legendas às falas originais, mantendo palavrões e a lógica textual. Todos eles
são comprovados e os corroboro, mas minha escolha pelas legendas advém de outro
contexto: a força das línguas!
Eu amo ouvir as tantas diferenças da voz humana! Não quero
assistir ao meu filme com o ruído pasteurizado dos dubladores, quero ouvir a
força do espanhol, sentir o ranger do alemão, quero me sentir abalado pela
sonoridade do farsi, quero a sensualidade do francês, quero o inglês classudo
da Inglaterra como o coloquialismo das ruas de Los Angeles. Deveríamos nos
apropriar das possibilidades áudio (e não apenas) visuais que as películas nos
proporcionam, deixando essas sonoridades nos invadir.
Vamos a um exercício rápido: imaginem “Trainspotting” sem o
sotaque intenso dos personagens, ou um filme de Almodóvar sem o espanhol rápido
e dramático. Ou pior ainda: Louis Garrel falando português, bem distante da
sedução do francês parisiense. Pensem na Nouvelle Vague com sotaque carioca, em
“Pulp Fiction” com sotaque paulista. Agora o contrário: “Cidade de Deus” em
francês, sem a agressividade das gírias cariocas. “Tropa de Elite” com sotaque
argentino, sem a intensidade da voz de Wagner Moura. “Central do Brasil” falado
em russo, sem a suavidade da voz de Fernanda Montenegro.
![]() |
| Cena do filme "Cidade de Deus" legendada em francês. |
Estamos cada vez mais globalizados e mundiais, por que então
não valorizar as peculiaridades de cada voz, de cada som? Por que não aderimos
à beleza de um filme como “Babel”, falado em várias línguas? Babel, segundo o
dicionário Michaelis, significa uma confusão de idiomas e é isso que eu quero
do cinema: perceber que mesmo falando algo completamente incompreensível para
mim, alguém do outro lado do planeta tem as mesmas angústias e os mesmos
sonhos.
E pensar que há pessoas com preguiça de ler algumas linhas
na parte inferior da tela, enquanto transborda emoção, força e intensidade de
cada sílaba que é dita. Dubladores e preguiçosos à parte, ainda estarei na
defesa de um cinema linguisticamente intenso, sonoramente envolvente e
foneticamente apaixonante. É tão gostoso sentirmo-nos parte dessa coisa chamada
Planeta Terra, onde tantas sonoridades e ritmos remetem as mesmas dúvidas,
dores, angústias e alegrias.



