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| (Foto: Iuri Lopes) |
Essa visão do quão desestabilizador é o amor mexeu comigo, tirou-me da minha zona de conforto, cada nova frase de cada nova canção me trazia um novo significado de amor, pois como já cantara Bethânia: “há sempre uma canção / para contar / aquela velha história / de um desejo / que todas as canções / têm para contar”. A partir daí foi um sem-número de tentativas de compreender o que todos os poetas já tentaram rimar: o amor. E esse amar me sufocou num mar de tentativas para compreender aquilo que não se compreende, mas se sente. Nessas andanças, Bauman e suas relações líquidas me ajudam em certos encontros, aí num virar de páginas eis que o sociólogo polonês me estapeia com a seguinte frase: “todo amor é matizado pelo instinto antropofágico”. Sim, o amor é tão forte assim. Possessivo. Intenso. Antropofágico.
Bethânia canta novamente “sim, quem nunca chorou / certo nunca amou” e depois referenda dramaticamente “o amor é o ridículo da vida”. Pesam-me as mágoas de Bethânia e vão de encontro às minhas: seria tão doloroso amar? É tão doloroso? Paro um pouco e tento reencontrar as rédeas da compreensão, pois amar é sim doloroso, árduo, quase árido, mas ao mesmo tempo é acalento, placidez e oásis. Aí nessas Bauman diz “amar significa abrir-se ao destino, à mais sublime de todas as condições humanas, em que o medo se funde ao regozijo num amálgama irreversível”. Entende-se assim a lógica de viver: amar.
O mundo gira em torno do amor, desde as comédias românticas hollywoodianas aos contemplativos filmes iranianos, da poesia de Quintana à de Sylvia Plath, das canções de Chico Buarque às de Zezé Di Camargo, dos almoços de família aos jantares de casal, das caixas de bombons às lasanhas congeladas, dos lençóis engomados às noites dormidas de conchinha, é o amor nos atravancando e empurrando pra vida. E finalmente chego ao singelo verso do novato Silva que diz “amar é ventania” e, dessa forma, simplifica todas as confusões: é o vento que nos acalma e refresca, mas é o vento que bagunça nossas casas e espalha nossos papéis. E é o vento a melhor metáfora para o amor.

