11 de mar. de 2013

Realidades contrapostas a sangue frio

Tati Bernardo


Os assassinos Perry e Dick

Sabe aquelas listas que a gente teima em fazer? Então, eu tenho uma dessas de livros que preciso ler antes de sair da faculdade. Estou no último ano e enfrento um problema: a lista só aumenta, enquanto o meu tempo diminui proporcionalmente. Mas tinha aquele bendito livro, o A sangue frio, do Truman Capote, que eu acreditava ser um insulto a mim mesma ainda não ter lido.

O livro por si só já causa grande curiosidade pelos seguintes fatos: Capote demorou seis anos para entregar a primeira versão, nesse período ele trabalhou apenas na apuração dos fatos, antes de concretizar uma única linha da obra. Porém, segundo o autor, toda a narrativa estava construída em sua mente, com exceção da última parte, a qual ele apelidou de "a dispensação" do caso.

O escritor lançou mão do gravador e do bloco de notas na realização das entrevistas feitas para elaboração do livro. Nada foi gravado ou anotado, o autor usou apenas a memória, ele se dizia capaz de memorizar horas de conversa, isso era fruto de um treinamento feito com o auxilio de um amigo que lia trechos de livro a ele, a fim de memorizá-los.

Capote leu a notícia do assassinato da família Clutter, uma pequena nota, no jornal The New York Times e ficou remoendo a história durante um dia e meio, a partir daí imaginou que aquilo poderia render um bom livro sobre o crime e sobre um estado que desconhecia, o Kansas. O editor da revista The New Yorker lhe deu um aval, digamos assim, e ele foi desvendar a historia por trás do crime. Acredito que o autor foi atrás da história maravilhado pela aventura, sem saber o que realmente lhe aguardava. Os assassinos eram desconhecidos e, óbvio, ainda não haviam sido capturados. Um prato cheio para um jornalista curioso, o que é quase um pleonasmo.

Truman Capote passou um ano e meio no Kansas, nesse período teve acesso a documentos oficiais, conversou com quem podia e examinou todos os aspectos da história, inclusive falou com os assassinos, Perry e Dick, aos quais se referia como os "dois meninos". A partir disso já é possível sentir como era a relação entre eles (dizem que Capote se envolveu sexualmente com um dos acusados, Perry, tornando a visão deste muito romantizada). Enfim, existem muitas especulações de bastidores e não vou me alongar nessa parte.

O fato é: eu retirei o livro na biblioteca, me debrucei sobre o romance não-ficcional (Capote diz ter inaugurado esse novo gênero literário a partir de A sangue frio) e resolvi escrever uma resenha para vocês.

A sangue frio narra a história do brutal assassinato de quatro membros da família Clutter ocorrido em 15 de novembro de 1959 e traz um retrato psicológico dos dois criminosos, Perry Smith e Richard Hickock (mais conhecido como Dick). O livro, de maneira bem geral, relata o homicídio múltiplo e suas consequências, desde a captura de Perry e Dick, à condenação no tribunal (a pena de morte) e a execução de ambos, cinco anos após o crime. 

A família Clutter: Herb, Bonnie, Nancy e Kenyon.

A primeira parte do livro traz uma ampla descrição da cidade de Holcomb, localizada no interior do estado de Kansas, nos Estados Unidos. A pequena e conservadora população, o clima das planícies do oeste do Kansas e as plantações de trigo. Tudo é brilhantemente narrado e faz com que o leitor sinta a tranquilidade do ambiente rural.

Em seguida, Capote apresenta os quatro membros assassinados da família Clutter: Sr. Herb (pai), Sra. Bonnie (mãe), Nancy (filha) e Kenyon (filho), um por um, todos são delineados pelos seus traços físicos e psicológicos. Os Clutter eram bem vistos e invejados por alguns moradores de Holcomb diante da boa vida que levavam. Eles tinham uma boa propriedade de terras e uma bela casa, eram frequentadores da igreja metodista, membros de um grupo de ajuda aos desfavorecidos, eram tidos como uma referência de comportamento. Os filhos eram bem vistos e admirados, um modelo a ser seguido. Principalmente Nancy, a garota perfeita: estudiosa, bonita, popular, generosa e prestativa.

Os assassinos, Perry Smith e Richard Hickock (o Dick) também são apresentados, ambos ex-presidiários em regime semi-aberto, e as características físicas e traços de personalidade “dos meninos” são descritas. No decorrer das páginas as narrativas se intercalam entre o último dia de vida da família Clutter e a viagem dos criminosos para a execução do plano de Hickock, que a princípio previa assaltar o suposto cofre na casa dos Clutter (um crime perfeito, sem testemunhas). Esse intercalar de histórias causa uma enorme aflição no leitor, que já aguarda o pior (as mortes), isso cria uma atmosfera misteriosa e prende a atenção do leitor.

Os corpos são encontrados pela casa numa manhã de domingo e a cena do crime, digna de filme de terror, é narrada de forma tão minuciosa que chega a dar náuseas. A chacina causa uma enorme comoção e abala a então pacata cidade de Holcomb. Capote consegue explorar bem as reações dos moradores, as desconfianças e especulações geradas depois do brutal assassinato. Uma equipe de investigação é criada especialmente para cuidar do caso e, é possível sentir a angústia dos policiais que contam com uma única e insustentável prova do crime. Poucos meses depois o caso é solucionado, Perry e Dick são presos pela chacina, vão a júri e são condenados à morte, em 14 de abril de 1965 eles são enforcados (não se exalte, não estou dando nenhum spoiler do livro, afinal o ponto principal não é saber o destino dos assassinos e sim os motivos do crime).

Mr. Capote

Truman Capote vai além e traz um retrato humano dos criminosos, de uma profundidade psicológica desconcertante. O leitor se envolve com aquelas duas figuras de mentes doentias e afinal, assassinas. Os problemas de relacionamento de Perry com a família (principalmente com o pai) são destrinchados através de cartas e diálogos, assim como a personalidade esquizofrênica de Dick se torna evidente no decorrer das páginas. Entra em choque uma crítica ao direito penal norte-americano, o modo como a pena de morte é aplicada no país, entre outras questões sociais.

Acredito que o objetivo do autor é gerar uma série de reflexões nesses âmbitos e isso é feito com sucesso. Confesso que cheguei a ter um sentimento de piedade pelos dois, em especial por Perry Smith. É a velha história do paralelo de dois mundos: o país moral, seguro e próspero (vivenciado pelos Clutter) e o país amoral, injusto e marginalizado (vivenciado pelos assassinos). Quem são as vítimas?

Título: A Sangue Frio
Autor: Truman Capote
Isbn:
8535904115
Páginas: 440
Editora: Companhia das Letras