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| Os assassinos Perry e Dick |
Sabe aquelas listas que
a gente teima em fazer? Então, eu tenho uma dessas de livros que preciso ler
antes de sair da faculdade. Estou no último ano e enfrento um problema: a lista
só aumenta, enquanto o meu tempo diminui proporcionalmente. Mas tinha aquele
bendito livro, o A sangue frio, do
Truman Capote, que eu acreditava ser um insulto a mim mesma ainda não ter lido.
O livro por si só já
causa grande curiosidade pelos seguintes fatos: Capote demorou seis anos para
entregar a primeira versão, nesse período ele trabalhou apenas na apuração dos
fatos, antes de concretizar uma única linha da obra. Porém, segundo o autor,
toda a narrativa estava construída em sua mente, com exceção da última parte, a
qual ele apelidou de "a dispensação" do caso.
O escritor lançou mão
do gravador e do bloco de notas na realização das entrevistas feitas para
elaboração do livro. Nada foi gravado ou anotado, o autor usou apenas a
memória, ele se dizia capaz de memorizar horas de conversa, isso era fruto de
um treinamento feito com o auxilio de um amigo que lia trechos de livro a ele,
a fim de memorizá-los.
Capote leu a notícia do
assassinato da família Clutter, uma pequena nota, no jornal The New York Times e ficou remoendo a
história durante um dia e meio, a partir daí imaginou que aquilo poderia render
um bom livro sobre o crime e sobre um estado que desconhecia, o Kansas. O
editor da revista The New Yorker lhe
deu um aval, digamos assim, e ele foi desvendar a historia por trás do crime.
Acredito que o autor foi atrás da história maravilhado pela aventura, sem saber
o que realmente lhe aguardava. Os assassinos eram desconhecidos e, óbvio, ainda
não haviam sido capturados. Um prato cheio para um jornalista curioso, o que é
quase um pleonasmo.
Truman Capote passou um
ano e meio no Kansas, nesse período teve acesso a documentos oficiais,
conversou com quem podia e examinou todos os aspectos da história, inclusive
falou com os assassinos, Perry e Dick, aos quais se referia como os "dois
meninos". A partir disso já é possível sentir como era a relação entre
eles (dizem que Capote se envolveu sexualmente com um dos acusados, Perry,
tornando a visão deste muito romantizada). Enfim, existem muitas especulações
de bastidores e não vou me alongar nessa parte.
O fato é: eu retirei o
livro na biblioteca, me debrucei sobre o romance não-ficcional (Capote diz ter
inaugurado esse novo gênero literário a partir de A sangue frio) e resolvi escrever uma resenha para vocês.
A
sangue frio narra a história do brutal assassinato
de quatro membros da família Clutter ocorrido em 15 de novembro de 1959 e traz
um retrato psicológico dos dois criminosos, Perry Smith e Richard Hickock (mais
conhecido como Dick). O livro, de maneira bem geral, relata o homicídio
múltiplo e suas consequências, desde a captura de Perry e Dick, à condenação no
tribunal (a pena de morte) e a execução de ambos, cinco anos após o crime.
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| A família Clutter: Herb, Bonnie, Nancy e Kenyon. |
A primeira parte do
livro traz uma ampla descrição da cidade de Holcomb, localizada no interior do
estado de Kansas, nos Estados Unidos. A pequena e conservadora população, o
clima das planícies do oeste do Kansas e as plantações de trigo. Tudo é
brilhantemente narrado e faz com que o leitor sinta a tranquilidade do ambiente
rural.
Em seguida, Capote
apresenta os quatro membros assassinados da família Clutter: Sr. Herb (pai), Sra.
Bonnie (mãe), Nancy (filha) e Kenyon (filho), um por um, todos são delineados
pelos seus traços físicos e psicológicos. Os Clutter eram bem vistos e
invejados por alguns moradores de Holcomb diante da boa vida que levavam. Eles
tinham uma boa propriedade de terras e uma bela casa, eram frequentadores da
igreja metodista, membros de um grupo de ajuda aos desfavorecidos, eram tidos
como uma referência de comportamento. Os filhos eram bem vistos e admirados, um
modelo a ser seguido. Principalmente Nancy, a garota perfeita: estudiosa,
bonita, popular, generosa e prestativa.
Os assassinos, Perry
Smith e Richard Hickock (o Dick) também são apresentados, ambos ex-presidiários
em regime semi-aberto, e as características físicas e traços de personalidade
“dos meninos” são descritas. No decorrer das páginas as narrativas se
intercalam entre o último dia de vida da família Clutter e a viagem dos criminosos
para a execução do plano de Hickock, que a princípio previa assaltar o suposto
cofre na casa dos Clutter (um crime perfeito, sem testemunhas). Esse intercalar
de histórias causa uma enorme aflição no leitor, que já aguarda o pior (as
mortes), isso cria uma atmosfera misteriosa e prende a atenção do leitor.
Os corpos são
encontrados pela casa numa manhã de domingo e a cena do crime, digna de filme
de terror, é narrada de forma tão minuciosa que chega a dar náuseas. A chacina
causa uma enorme comoção e abala a então pacata cidade de Holcomb. Capote
consegue explorar bem as reações dos moradores, as desconfianças e especulações
geradas depois do brutal assassinato. Uma equipe de investigação é criada
especialmente para cuidar do caso e, é possível sentir a angústia dos policiais
que contam com uma única e insustentável prova do crime. Poucos meses depois o
caso é solucionado, Perry e Dick são presos pela chacina, vão a júri e são
condenados à morte, em 14 de abril de 1965 eles são enforcados (não se exalte,
não estou dando nenhum spoiler do livro, afinal o ponto principal não é saber o
destino dos assassinos e sim os motivos do crime).
| Mr. Capote |
Truman Capote vai além
e traz um retrato humano dos criminosos, de uma profundidade psicológica
desconcertante. O leitor se envolve com aquelas duas figuras de mentes doentias
e afinal, assassinas. Os problemas de relacionamento de Perry com a família
(principalmente com o pai) são destrinchados através de cartas e diálogos,
assim como a personalidade esquizofrênica de Dick se torna evidente no decorrer
das páginas. Entra em choque uma crítica ao direito penal norte-americano, o
modo como a pena de morte é aplicada no país, entre outras questões sociais.
Acredito que o objetivo
do autor é gerar uma série de reflexões nesses âmbitos e isso é feito com
sucesso. Confesso que cheguei a ter um sentimento de piedade pelos dois, em
especial por Perry Smith. É a velha história do paralelo de dois mundos: o país
moral, seguro e próspero (vivenciado pelos Clutter) e o país amoral, injusto e
marginalizado (vivenciado pelos assassinos). Quem são as vítimas?
Título: A
Sangue Frio
Autor: Truman Capote
Isbn: 8535904115
Páginas: 440
Editora: Companhia das Letras
Autor: Truman Capote
Isbn: 8535904115
Páginas: 440
Editora: Companhia das Letras


