8 de mar. de 2013

Sobre a minha Mulher

Nycolas Ribeiro

A. Jolie
Sou uma criança dos anos 90, então se eu disser que não tive a Xuxa como uma das primeiras mulheres de minha vida, estarei mentindo. Não com um teor sexual, como o guri do filme “Amor, estranho Amor” (1982), interpretado por Marcelo Ribeiro, mas como Rainha dos Baixinhos mesmo. Tive sua discografia em fitas K7, colecionei saquinhos de sucos da Royal com imagens da loira e acreditei, por muitos anos, que tinha uma foto autografada dela, bem como toda criança que foi ao postinho de saúde tomar a Gotinha. Tive meus casos com a Angélica e a Eliana também, cada uma no seu tempo, mas o relacionamento com a Xuxa foi o mais duradouro. Quem mediava esse “amor” era uma mulher específica, a mesma que acompanhou (e ainda acompanha) minhas paixões por diversas mulheres durante os anos. Por enquanto, vou chamá-la de minha Mulher, com M maiúsculo e pronome possessivo.

No meu aniversário de dez anos, conheci Harry Potter nos cinemas. A Pedra Filosofal despertou meu interesse pela saga, e minha Mulher embarcou na plataforma 9 ¾ junto comigo: comprou-me o primeiro livro e desejou (na dedicatória escrita em tinta prateada) que a magia daquele mundo sempre estivesse em mim. A leitura das histórias de Harry me deu uma nova paixão. J.K. Rowling passou a ser uma nova mulher da minha vida. Sua escrita me prendeu, sua trama me fez acreditar em toda fantasia e, mesmo com um protagonista homem, foi por Hermione Granger que eu mais tive feição. E aqui, no mundo dos trouxas, a minha Mulher me acompanhou em todas as minhas histórias relacionadas ao mundo de Potter, seja para comprar revistas que falavam da série ou para ajudar a me fantasiar de aluno da Grifinória para a festa de halloween do cursinho de inglês. Durante anos (e confesso que até hoje), a Mulher fez o que pôde para eu acreditar no mundo mágico de Rowling, tanto nos valores de amizade e lealdade do trio protagonista como pela eterna espera de uma carta no dia do meu aniversário. Quando assistimos ao último filme da saga nos cinemas, ela chorou e me disse: “to chorando porque assim como o Harry, você se tornou adulto, e eu acompanhei tudo isso”.

Tenho o hábito de acordar de mau humor e existiram épocas da minha pré-adolescência que eu quis matar Elis Regina, sem saber que ela já tinha morrido há tempos. Era domingão e ela cantando alto enquanto a Mulher lavava a roupa e cantarolava no quintal. Depois, me acordava com a mão gelada, cheirando desinfetante e sabão em pó. Sua mão passava pelos meus cabelos e depois me beijava na testa, às vezes nos olhos. Era um começo de dia feliz, e com essa rotina de final de semana, até a Elis Regina eu passei a aceitar. As faxinas ora dividiam espaço com Jon Bon Jovi e Zé Ramalho, mas Ivete à frente da Banda Eva e Elis foram suas fiéis companheiras. Mulheres apaixonadas, tais como aquela minha, coisa que só aprendi (e entendi) anos mais tarde.

E. Regina
No começo da minha pré-adolescência, fui vítima do maior clichê masculino que algum cara pode ter: me apaixonei pela Angelina Jolie! A conheci de shortinho curto, encarnando a heroína dos videogames Lara Croft, no filme Tomb Raider. Dali para alugar o VHS toda semana não demorou muito. Mais alguns dias - depois de muito choro ao dono da locadora - e eu já tinha um pôster meio rasgado. Um mês depois eu tinha Angelina Jolie em tamanho real na parede do meu quarto. A minha Mulher não demorou para me acompanhar nesse meu novo hobby de “stalker de locadora” da Angelina. Aos poucos fomos assistindo a seus filmes, até que o SBT decidiu passar Pecado Original e eu, com inocentes 13 anos, pedi para minha Mulher me acompanhar na sessão do Cine Belas Artes. A experiência não foi das melhores. A cada trepada do Antonio Banderas com Angelina, eu me encolhia mais e mais no sofá. Por sua vez, ela agia com naturalidade, postura que até hoje não sei se era real ou uma encenação para educar meus hormônios. Anos depois, uma cachorra (metade labrador e metade vira-lata) entrou em nossas vidas. Em homenagem a minha fixação por Jolie, a batizamos de Lara.

Foram muitas outras mulheres, outras paixões. Algumas destas da vida real. Algumas não tão femininas quanto o que se esperava. Mas todas acompanhadas pela minha Mulher, seja num palpite modesto, em discursos imensos, ou no total silêncio.

Para as mulheres que gostam de receber parabéns e flores no dia de hoje, esses são meus votos. Para as que desejam mais igualdade num mundo machista, também desejo isso. Mas, sendo bem egoísta mesmo, esse texto não é para vocês, e sim para uma mulher em especial. Aquela que, quando perdi a virgindade (em uma circunstância inusitada), foi mais parceira que um filho poderia esperar de um pai; aquela que ama cantar e rebolar no karaokê; a que tem tendências nudistas em território domiciliar; aquela que me levou para fazer minha primeira tatuagem aos 16 anos; a mesma que costuma enfiar o dedo nos meus olhos sempre que vai fazer um carinho em meu cabelo; aquela mulher que, quando decidi sair de casa, me olhou com lágrimas nos olhos e disse “vai! Eu não criei filho pra mim... eu criei pro mundo! E quando você quiser voltar, estarei aqui te esperando”, esboçando um sorriso que mostrava aqueles dentes dianteiros avantajados que eu tanto amo.

Foto: Nycolas Ribeiro
Essa homenagem é para você. Minha mulher favorita, dentre todas as outras, que sempre dividiu essa data com todo o mundo com um altruísmo e carinho invejados. Obrigado por ser minha amiga, minha companheira, minha mãe, minha Mulher!