3 de mar. de 2013

O Oscar é a nossa Copa Libertadores da América

Nycolas Ribeiro 

Foto: Renan Guerra
Nunca tive muita intimidade com esportes, nem para praticá-los e muito menos para acompanhá-los. Alguns eu simplesmente não entendo o apelo, em especial o futebol: para mim, é incompreensível como 22 homens em campo correndo atrás de uma bola possa gerar tamanha paixão em uma torcida que berra e chora por suas conquistas e derrotas.

Certa vez, incomodado com os gritos e buzinaços de uma torcida em frente ao meu prédio, reclamei, “like a tia velha”, para meus amigos, dizendo não entender o fanatismo que essas pessoas tinham pelo futebol. “É a mesma coisa com a gente indo ao cinema ou ao show de algum artista que a gente gosta”, respondeu um deles com calma, como se já tivesse refletido sobre o assunto e foi a resposta mais plausível que ele tinha encontrado para si mesmo. Fazia sentido. Apesar de não ter conseguido materializar a ideia e tornar a situação mais comparável, tentei encaixá-la na minha vida.

O último dia 24 de fevereiro foi a data perfeita para fazer um estudo empírico sobre tal afirmação. Eu e mais três amigos não tínhamos tanta expectativa com o Oscar 2013. Mesmo sabendo que iríamos nos irritar com as premiações, acompanhamos a cerimônia pela nossa pequena televisão quadrada e antiga. A cada momento era um comentário diferente, uns pela beleza das atrizes e outros por indicações que considerávamos injustas. Ora um dizia que torcia para Emmanuele Riva ganhar o prêmio de Melhor Atriz por “Amor”, ora outro reforçava que não tinha gostado tanto de “Django Livre” e que o filme não merecia algumas indicações. A partir disso, já comecei a ver traços de torcedores.

Kristen Stewart e Daniel Radcliffe entraram no palco do Oscar para apresentar alguma categoria que, por algum motivo, não prestamos atenção qual era. Assim que os dois começaram a apresentar os filmes indicados, um amigo questionou pelo que eles estavam concorrendo. Respondi dizendo “algo relacionado à divulgação ou arte”. Ele disse que achava ser “cenário”. Rebati com a certeza de que era algo relacionado à arte. Discutimos. Exatamente como torcedores discutem se o gol estava impedido ou não. Depois do leve stress, vimos que o prêmio era para Melhor Direção de Arte. Ponto pra mim.

Quando a atriz Salma Hayek surgiu para apresentar um novo prêmio, os meninos disseram que a achavam linda. Murmurei que discordava, que ela nunca me chamou a atenção, tanto como mulher ou até mesmo quanto atriz. Como quem discute se o Neymar é ou não é um bom jogador, começamos um novo bate boca. Fechei a cara e fiquei em silêncio, só ouvindo os contra-argumentos em um tom de voz elevado. Com o clima meio pesado, seguimos acompanhando a cerimônia.

Edição de Imagem: Paulo Nunes

Enquanto Adele cantava Skyfall, música com que concorria à Melhor Canção Original, um dos guris questionava se a música foi feita especialmente para o último filme 007. Eu e outro amigo afirmamos que sim e ainda brincamos com a falta de lógica da pergunta dele, já que o nome da categoria (Melhor Canção Original) respondia por si só. Como um torcedor argumentando porque tal jogador deveria ter levado o cartão vermelho, ele começou a se explicar, até que soltamos grosserias pra cima dele. Quando o elenco de Os Miseráveis entrou no palco, nos silenciamos e, pela primeira vez na noite, concordamos que a apresentação foi chata.

Eu, que já estava com sono e tinha a artéria temporal saltada na testa por todas as discussões por conta da cerimônia, decidi ir dormir antes que os barracos acabassem em agressões físicas. No quarto, refleti sobre toda a situação e vi como aquela primeira afirmação do meu amigo (o qual, naquele momento, eu queria afundar o nariz com uma estatueta dourada) fazia todo o sentido. Futebol e cinema são paixões diferentes, cada qual com o seu torcedor. Nós apenas não vamos para as ruas ficar gritando que a Anne Hathaway ganhou um Oscar. Ri da ironia das coisas e deitei na cama bagunçada.

De repente, gritos de desespero explodiram da sala. Podia ser um pênalti perdido, uma bola na trave, mas não. A Jennifer Lawrence tinha acabado de cair ao subir um lance de escadas para pegar sua estatueta de Melhor Atriz.