Imagine-se em uma (boa) viagem
lisérgica. Um cenário que te deixe confortável, variando entre uma festa
intimista com luzes baixas no seu apartamento, ou um sexo suado ao som do seu
artista favorito. Tudo em slow motion. Sorrisos e garrafas vazias. Você se
chama Edie? Pode ser um sonho, o mais niilista deles. Nada precisa fazer
sentido, desde que seja real para você. Deixe que as batidas eletrônicas e a
guitarra afinada sejam as únicas coisas sóbrias dessa cena. Esse é o êxtase
todo por trás da experiência de ouvir Suuns.
A banda surgiu em Montreal, em
2006, quando o guitarrista e vocalista Ben Shemie se uniu ao baixista e também
guitarrista Joe Yarmush para experimentar alguns sons que resultaram em poucas
músicas. O baterista Liam O'Neill e o baixista e tecladista Max Henry se uniram
mais tarde à dupla para completar a banda. Resenhas nacionais acusam os
canadenses de fazerem um bom trabalho excêntrico, mas que não traz nada de
novo. Verdade. Gente que faz post-punk/indie rock em uma perfeita sincronia com
música eletrônica, em especial o estilo minimal (que lembra um pouco do
trabalho feito pelo Nicolas Jaar), existe aos montes. Entretanto, a aura do
Images Du Futur (segundo álbum do Suuns, lançado em março), junto com a narrativa sonora apresentada
durante as dez músicas, chamou minha atenção para esse pequeno trabalho de
efeito cannábico.
Em entrevista exclusiva para a
Revista Tudo e Etc (por intermédio dos agentes do quarteto), o vocalista Ben
Shemie afirma que o estilo musical da banda, esse mix de rock com e-music, é
criado de ora de forma intencional, ora sem grandes intenções. “Nós
definitivamente temos uma influência de música eletrônica e uma pegada minimal.
O minimal é bem dark e melancólico,
então é natural que a nossa música soe desse jeito”, conta o vocalista ao dizer
que, apesar de serem bem conscientes do que fazem, a banda não possui uma
fórmula ou uma meta específica ao produzirem suas músicas. “Nós só tentamos e
deixamos acontecer”, conclui Ben. Sobre suas influências (que são amplas,
conforme nos conta), ele preferiu resumi-las em uma só palavra: Detroit. O
estilo musical, surgido na cidade mais populosa do estado de Michigan, Estados
Unidos, é uma ramificação do Techno que se mistura ao House, bastante presente
na música eletrônica do Suuns.
As letras das músicas possuem
características nonsense, que vão de encontro à vibe das suas canções e de seus
videoclipes. Shemie conta que, em geral, as ideias centrais por trás das
composições da banda são bem simples e que podem surgir, às vezes, dentro de
uma hora ou demorarem cerca de um ano de ensaio, de argumentações, abandono e,
finalmente, de resgate, até que os quatro canadenses sintam que era o isso o
que queriam. “As letras são bem abertas para interpretações. Acredito que cada
um irá fazer sua própria versão sobre o que a música representa para ele. O que
é demais, porque os significados mudam o tempo todo”, explica.
A faixa Music Won’t Save You é embriagante: com uma narrativa um pouco
confusa, ao ouvi-la de olhos fechados é possível construir “cenas de um filme” no
qual um cara bêbado em uma festa, perdido entre diálogos confusos com
personagens (que você escolhe), tenta compreender o que acontece ao seu redor. Em
determinado momento, risadas ecoam pela “cena”, o que soa de forma irônica com
a letra e o ritmo da música. Segundo Ben, as risadas adicionam uma inquietação
na música, provocando um desconforto proposital em quem ouve. “É um contraste
legal: uma música sombria com um clima oposto, o que faz com que a música fique
ainda mais sombria. E sim, isso contribui para que ela fique ainda mais
visual”.
O site do Roskilde Festivalpropõe ao leitor que “imagine o Radiohead nascido e criado em Montreal ao invés
de Oxford”. Em uma resenha da Pitchfork sobre o Images Du Futur, o Suuns também
é comparado à banda inglesa. As resenhas nacionais até dissertam sobre a
semelhança entre os vocais de Ben e de Thom Yorke. Sobre as comparações, Ben comenta
que “Radiohead é do caralho. É impossível evitar a influência deles na música
pop atual. Eu não diria que estamos tentando parecer com eles, mas eu entendo
de onde a comparação vem. Nós aceitamos isso como um elogio”.
Sobre shows no Brasil e uma
possível turnê do Images Du Futur pela América Latina, Ben diz que não há
nenhum plano concreto, mas que a banda adoraria vir. O vocalista explica que
foi oferecida ao Suuns uma apresentação no país em junho, mas que não deu
certo. “Nós ficamos bem animados. Todo mundo diz ótimas coisas sobre o Brasil.
Esperançosamente, estaremos aí em breve”. Até lá, ouvir a música da Suuns para
entorpecer o tédio da rotina é a melhor solução.

.jpg)
