8 de mai. de 2013

A música introspectiva do Suuns

Nycolas Ribeiro

Imagine-se em uma (boa) viagem lisérgica. Um cenário que te deixe confortável, variando entre uma festa intimista com luzes baixas no seu apartamento, ou um sexo suado ao som do seu artista favorito. Tudo em slow motion. Sorrisos e garrafas vazias. Você se chama Edie? Pode ser um sonho, o mais niilista deles. Nada precisa fazer sentido, desde que seja real para você. Deixe que as batidas eletrônicas e a guitarra afinada sejam as únicas coisas sóbrias dessa cena. Esse é o êxtase todo por trás da experiência de ouvir Suuns.

A banda surgiu em Montreal, em 2006, quando o guitarrista e vocalista Ben Shemie se uniu ao baixista e também guitarrista Joe Yarmush para experimentar alguns sons que resultaram em poucas músicas. O baterista Liam O'Neill e o baixista e tecladista Max Henry se uniram mais tarde à dupla para completar a banda. Resenhas nacionais acusam os canadenses de fazerem um bom trabalho excêntrico, mas que não traz nada de novo. Verdade. Gente que faz post-punk/indie rock em uma perfeita sincronia com música eletrônica, em especial o estilo minimal (que lembra um pouco do trabalho feito pelo Nicolas Jaar), existe aos montes. Entretanto, a aura do Images Du Futur (segundo álbum do Suuns, lançado em março), junto com a narrativa sonora apresentada durante as dez músicas, chamou minha atenção para esse pequeno trabalho de efeito cannábico.

Em entrevista exclusiva para a Revista Tudo e Etc (por intermédio dos agentes do quarteto), o vocalista Ben Shemie afirma que o estilo musical da banda, esse mix de rock com e-music, é criado de ora de forma intencional, ora sem grandes intenções. “Nós definitivamente temos uma influência de música eletrônica e uma pegada minimal. O minimal é bem dark e melancólico, então é natural que a nossa música soe desse jeito”, conta o vocalista ao dizer que, apesar de serem bem conscientes do que fazem, a banda não possui uma fórmula ou uma meta específica ao produzirem suas músicas. “Nós só tentamos e deixamos acontecer”, conclui Ben. Sobre suas influências (que são amplas, conforme nos conta), ele preferiu resumi-las em uma só palavra: Detroit. O estilo musical, surgido na cidade mais populosa do estado de Michigan, Estados Unidos, é uma ramificação do Techno que se mistura ao House, bastante presente na música eletrônica do Suuns.


As letras das músicas possuem características nonsense, que vão de encontro à vibe das suas canções e de seus videoclipes. Shemie conta que, em geral, as ideias centrais por trás das composições da banda são bem simples e que podem surgir, às vezes, dentro de uma hora ou demorarem cerca de um ano de ensaio, de argumentações, abandono e, finalmente, de resgate, até que os quatro canadenses sintam que era o isso o que queriam. “As letras são bem abertas para interpretações. Acredito que cada um irá fazer sua própria versão sobre o que a música representa para ele. O que é demais, porque os significados mudam o tempo todo”, explica.

A faixa Music Won’t Save You é embriagante: com uma narrativa um pouco confusa, ao ouvi-la de olhos fechados é possível construir “cenas de um filme” no qual um cara bêbado em uma festa, perdido entre diálogos confusos com personagens (que você escolhe), tenta compreender o que acontece ao seu redor. Em determinado momento, risadas ecoam pela “cena”, o que soa de forma irônica com a letra e o ritmo da música. Segundo Ben, as risadas adicionam uma inquietação na música, provocando um desconforto proposital em quem ouve. “É um contraste legal: uma música sombria com um clima oposto, o que faz com que a música fique ainda mais sombria. E sim, isso contribui para que ela fique ainda mais visual”.


O site do Roskilde Festivalpropõe ao leitor que “imagine o Radiohead nascido e criado em Montreal ao invés de Oxford”. Em uma resenha da Pitchfork sobre o Images Du Futur, o Suuns também é comparado à banda inglesa. As resenhas nacionais até dissertam sobre a semelhança entre os vocais de Ben e de Thom Yorke. Sobre as comparações, Ben comenta que “Radiohead é do caralho. É impossível evitar a influência deles na música pop atual. Eu não diria que estamos tentando parecer com eles, mas eu entendo de onde a comparação vem. Nós aceitamos isso como um elogio”.

Sobre shows no Brasil e uma possível turnê do Images Du Futur pela América Latina, Ben diz que não há nenhum plano concreto, mas que a banda adoraria vir. O vocalista explica que foi oferecida ao Suuns uma apresentação no país em junho, mas que não deu certo. “Nós ficamos bem animados. Todo mundo diz ótimas coisas sobre o Brasil. Esperançosamente, estaremos aí em breve”. Até lá, ouvir a música da Suuns para entorpecer o tédio da rotina é a melhor solução.