Atenção: esta resenha é obra de um alguém com o coração já desiludido e com uma opinião, sobre o álbum aqui comentado, formada a partir dessas experiências. Nada abordado aqui foi comprovado cientificamente pelo autor. Caso você, caro leitor, ainda não tenha passado por desilusões amorosas e quer continuar com as expectativas de que seu coração nunca será quebrado, é preferível que pare de ler agora mesmo e vá assistir uma comédia romântica. Se algo neste texto parecer familiar, talvez não seja mera coincidência.
Uma teoria ronda meus pensamentos sobre reflexões a respeito do amor: todos começamos a apresentar sintomas de Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC) quando amamos. Sim, o amor é o culpado por sermos dominados por um distúrbio psiquiátrico. Afinal, qual apaixonado nunca deixou de compreender a si próprio quando teve medo de declarar o seu sentimento cedo demais? De dizer que aquela pessoa é tudo que sempre se quis pra ser feliz? Ou medo, ainda, de admitir que você pesquisou o mapa astral do amado para ver se combinava, que decorou o RG, que invadiu o computador, que descobriu a senha do cartão, que já quis grampear o celular, ou que, sei lá, quis comprar um cianureto para os dois morrerem juntos, como em Romeu e Julieta?
Além disso, acredito cegamente que as relações são divididas em fases. Primeiramente a fase da escolha pelas idiossincrasias simétricas: você acha que a loucura do outro é a que mais parece com a sua e acredita que juntos farão um perfeito dueto, por mais que seja fora do tom. A segunda fase é aquela em que você topa qualquer negócio para tê-lo, desde servir o jantar e se redimir à empregada até ser a motorista que leva o amado com outro acompanhante para um jantar romântico; você só quer fazer parte da vida da pessoa.
Até que vocês finalmente ficam juntos, o que dá início à terceira fase: você se torna um verdadeiro monomaníaco. Você chega a jurar que não fará mais nada por ele, mas quando percebe já está compondo uma nova canção para o tal; acredita que os dois são um só, sem ele você acha que pode perder o rumo, sumir ou morrer de fome. Tudo isso é algo que pode realmente assustar qualquer um. E por isso vocês brigam, terminam, e ele sai batendo a porta do seu apartamento. Na hora você até pensa em subir até o oitavo andar e se atirar pela janela para cair exatamente em cima da pessoa “como uma bigorna cai em cima de um cartoon qualquer”, mas em vez disso você dá meia volta e come “uma torta inteira de amora no jantar”.
Finalmente você chega à quarta fase, lembrando-se como “que a vida colocou ele pra mim ali naquela terça-feira de setembro” e pensando em diversas justificativas sobre o porquê deu errado. São milhares de hipóteses e você se culpa dizendo “Talvez, se eu fosse menos louca”. Até que você começa a beber sem escrúpulos por causa dele, tanto que “dá pra encher um navio (...) e fazia tão mal, que já era normal, acordar no bidê”.
De uma generalização eu posso dizer que tenho certeza: fins de relacionamentos não são fáceis para ninguém. Clarice Falcão também percebeu isso e está lançando, esta semana, o seu primeiro CD, intitulado “Monomania”, que retrata, em 14 canções (dentre elas sete inéditas), tudo o que eu já expus até aqui e um pouco mais, de uma forma bem peculiar.
Há quem acredite que a artista, que vinha fazendo sucesso na internet atualmente com vídeos no Porta dos Fundos (incluindo um em que o tema central é a sua música Oitavo Andar), só está no auge com suas canções por causa do conteúdo audiovisual produzido pelo coletivo criativo. Entretanto, os que assim pensam, estão deixando de lado a tamanha originalidade viciante que a cantora traz embalada pela MPB. Falcão já era um grande sucesso ainda em 2011, quando lançou vídeos em que ela aparece sentada cantando suas músicas e tocando violão, como Macaé e Monomania mais tarde. Dessa forma, é possível afirmar que, no máximo, a imagem dela foi catapultada pelo canal, o qual, de acordo com a própria em entrevista ao G1, convidou-a para participar do Porta dos Fundos por causa de suas músicas.
O primeiro álbum de Clarice acerta em cheio nos corações daqueles que já sofreram pelo pós-relacionamento e sabem como é lidar com as fases que expus. A artista trata o amor e as suas relações de uma forma raramente alcançada na música brasileira, trazendo uma pitada de comédia inusitadamente aliada a um assunto que dificilmente causaria sorrisos: o fim de um relacionamento.
Na música que dá nome ao álbum, a pernambucana brinca com o sem número de canções já feitas para o amado “são quatro, cinco, seis ou mais. Eu sei demais, que tá demais (...) Se juntar cada verso meu e comparar, vai dá pra ver, tem mais você que nota dó. Eu vou ter que me controlar se um dia eu quero enriquecer, quem vai comprar esse CD sobre uma pessoa só?”. Se ela já enriqueceu, ainda não sabemos, mas tem muita gente querendo comprar o seu disco.



