28 de abr. de 2013

Crônica dos sorrisos

Nycolas Ribeiro

Foto: Luciano Costa
Demorei uma semana para escrever esse texto. Queria beber daquela inesgotável garrafa de textos poéticos que faz qualquer um marejar os olhos e, depois de embriagado, quase atingindo um tom patético, me debruçar no computador para escrever uma obra homérica sob o tema “sorriso”. Foi com essa prepotência, do tamanho do amor que sinto pela minha mãe, que eu quis “reinventar a roda”. A verdade é que detesto o clichê, apesar de eu ser um de 72 quilos. Foi nessa falha busca pela perfeita simetria das palavras que tornam um texto belo que me flagrei indo contra a singela proposta por trás do projeto Sorria São Borja.

Não há como fugir das classificações já existentes ou de qualquer aproximação com algum dos zilhões de textos sobre esse tópico. Arrisco-me a dizer que o sorriso é mais velho que qualquer ideia sobre amor. Primeiro porque é algo fisiológico. Segundo porque é algo espontâneo. Na sua maior ignorância, os homens das cavernas deviam sorrir com a caça bem sucedida ou a “invenção” do fogo. Você sorri porque acha algo engraçado, porque está apaixonado, porque está bem consigo mesmo, porque é algo natural. É algo simples que carrega um simbolismo imensurável.

O Sorria São Borja nasceu da ideia de dois amigos (Ele e Ela) que se uniram para fazer o temido trabalho de conclusão de curso. Ele, que é acusado injustamente de não sorrir sempre, queria ajudar (mesmo que indiretamente) as mães que perderam filhos em uma recente tragédia gaúcha. Trazer de volta aqueles sorrisos que pensamos nunca mais poder resgatar era um primeiro passo. Ela, que está sempre com aquele sorriso tímido e lindo no rosto, já costuma arrancar gargalhadas em hospitais como a palhaça Risoleta, do Esquadrão da Alegria. Descontente com a visibilidade que os cursos de comunicação de São Borja têm perante outras universidades, Ele e Ela se motivaram a aplicar uma mensagem positiva no outdoor mais belo que um publicitário pode utilizar: o sorriso de uma cidade inteira.

O canteiro de sorrisos [Foto: Taylize Naressi]

Em pouco tempo, a intervenção urbana estava circulando pela cidade, nos bustos de Getúlio Vargas e João Goulart, nos postes e lixeiras, em cartazes com sorrisos destacáveis e em canteiros com risadas plantadas. Os moradores de São Borja aderiram à ideia de tornar a cidade mais alegre: sorrisos foram compartilhados e curtidos nas redes sociais, muito mais divulgados que qualquer chorume que costuma aparecer na timeline. A proporção offline era ainda mais bonita. “Obrigado! Ainda mais por ser segunda de manhã, precisamos de um sorrisinho”, disse um taxista depois de eu entregar um sorriso de papel de dez centímetros.

“Nós temos tudo o que você sempre quis aqui nesta noite”, canta Emanuel Lundgren na letra de Battleships do grupo sueco I’m From Barcelona. E nós realmente temos. A música que serviu de trilha sonora para o vídeo que divulgou a intervenção urbana, tornou-se um hino para o município. Andando pela rua com mais dois amigos, passamos por um grupo de meninas pré-adolescentes que, quando viram que estávamos vestindo camisetas do Sorria São Borja, automaticamente começaram a cantarolar o viciante “pararapá parapápapá, pararapá parapapá”. Temos a alegria e a gratificação de dizer que estamos unidos por uma cidade com um clima mais afetuoso e cordial. Eu, que desde o começo (por algum instinto ou por simplesmente adorar Battleships) senti que essa música casava com a proposta do projeto, dei uma risada abafada de satisfação ao saber que eu era o culpado por aquelas garotas estarem cantando junto com a gente motivadas pela singeleza de nossa mobilização.


Ao fim dessa ação, que durou uma semana, as histórias que o Sorria São Borja trouxe para todos aqueles que acreditaram e fizeram parte do projeto são mais que significativas. Aprendemos a nos apaixonar por sorrisos desconhecidos, aqueles que passam por nós no ponto de ônibus e os que estão escondidos por trás de pilhas de papel do serviço público. Rimos com as crianças que, com sorrisos banguelas ou sujos de sorvete no rosto, pediam risos de papel e saíam correndo pela praça para mostrar para os pais. Nos emocionamos com o carinho das pessoas e com a oportunidade de poder fazer parte de algo tão simples e tão bom. Com lágrimas nos olhos, e o principal protagonista desta história na boca, despedimos-nos hoje dessa ação com a esperança de mais sorrisos.