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Foto: Luciano Costa
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Demorei uma semana para escrever
esse texto. Queria beber daquela inesgotável garrafa de textos poéticos que faz
qualquer um marejar os olhos e, depois de embriagado, quase atingindo um tom
patético, me debruçar no computador para escrever uma obra homérica sob o tema “sorriso”.
Foi com essa prepotência, do tamanho do amor que sinto pela minha mãe, que eu
quis “reinventar a roda”. A verdade é que detesto o clichê, apesar de eu ser um
de 72 quilos. Foi nessa falha busca pela perfeita simetria das palavras que
tornam um texto belo que me flagrei indo contra a singela proposta por trás do
projeto Sorria São Borja.
Não há como fugir das
classificações já existentes ou de qualquer aproximação com algum dos zilhões
de textos sobre esse tópico. Arrisco-me a dizer que o sorriso é mais velho que
qualquer ideia sobre amor. Primeiro porque é algo fisiológico. Segundo porque
é algo espontâneo. Na sua maior ignorância, os homens das cavernas deviam
sorrir com a caça bem sucedida ou a “invenção” do fogo. Você sorri porque acha
algo engraçado, porque está apaixonado, porque está bem consigo mesmo, porque é
algo natural. É algo simples que carrega um simbolismo imensurável.
O Sorria São Borja nasceu da
ideia de dois amigos (Ele e Ela) que se uniram para fazer o temido trabalho de
conclusão de curso. Ele, que é acusado injustamente de não sorrir sempre, queria
ajudar (mesmo que indiretamente) as mães que perderam filhos em uma recente
tragédia gaúcha. Trazer de volta aqueles sorrisos que pensamos nunca mais poder
resgatar era um primeiro passo. Ela, que está sempre com aquele sorriso tímido
e lindo no rosto, já costuma arrancar gargalhadas em hospitais como a palhaça
Risoleta, do Esquadrão da Alegria. Descontente com a visibilidade que os cursos
de comunicação de São Borja têm perante outras universidades, Ele e Ela se
motivaram a aplicar uma mensagem positiva no outdoor mais belo que um
publicitário pode utilizar: o sorriso de uma cidade inteira.
| O canteiro de sorrisos [Foto: Taylize Naressi] |
Em pouco tempo, a intervenção
urbana estava circulando pela cidade, nos bustos de Getúlio Vargas e João
Goulart, nos postes e lixeiras, em cartazes com sorrisos destacáveis e em
canteiros com risadas plantadas. Os moradores de São Borja aderiram à ideia de
tornar a cidade mais alegre: sorrisos foram compartilhados e curtidos nas redes
sociais, muito mais divulgados que qualquer chorume que costuma aparecer na
timeline. A proporção offline era ainda mais bonita. “Obrigado! Ainda mais por
ser segunda de manhã, precisamos de um sorrisinho”, disse um taxista depois de
eu entregar um sorriso de papel de dez centímetros.
“Nós temos tudo o que você sempre
quis aqui nesta noite”, canta Emanuel Lundgren na letra de Battleships do grupo
sueco I’m From Barcelona. E nós realmente temos. A música que serviu de trilha
sonora para o vídeo que divulgou a intervenção urbana, tornou-se um hino para o município. Andando pela rua com mais dois amigos, passamos por um
grupo de meninas pré-adolescentes que, quando viram que estávamos vestindo
camisetas do Sorria São Borja, automaticamente começaram a cantarolar o
viciante “pararapá parapápapá, pararapá parapapá”. Temos a alegria e a
gratificação de dizer que estamos unidos por uma cidade com um clima mais
afetuoso e cordial. Eu, que desde o começo (por algum instinto ou por
simplesmente adorar Battleships) senti que essa música casava com a proposta do
projeto, dei uma risada abafada de satisfação ao saber que eu era o culpado por aquelas garotas estarem cantando junto com a gente motivadas pela singeleza de
nossa mobilização.
Ao fim dessa ação, que durou uma
semana, as histórias que o Sorria São Borja trouxe para todos aqueles que
acreditaram e fizeram parte do projeto são mais que significativas. Aprendemos
a nos apaixonar por sorrisos desconhecidos, aqueles que passam por nós no ponto
de ônibus e os que estão escondidos por trás de pilhas de papel do serviço
público. Rimos com as crianças que, com sorrisos banguelas ou sujos de sorvete
no rosto, pediam risos de papel e saíam correndo pela praça para mostrar para
os pais. Nos emocionamos com o carinho das pessoas e com a oportunidade de poder
fazer parte de algo tão simples e tão bom. Com lágrimas nos olhos, e o principal
protagonista desta história na boca, despedimos-nos hoje dessa ação com a
esperança de mais sorrisos.

