9 de jul. de 2014

Um despretensioso olhar sobre o nu masculino

Não é preciso uma contextualização aprofundada para afirmar que vivemos em uma sociedade sexista. Além disso, a cultura machista tenta a cada dia (se ainda for possível) despir mais o corpo feminino enquanto se horroriza com homens sem roupas. Parece ser assunto do passado, mas é mais atual do que se pensa. Quando, por exemplo, surge um projeto de nu masculino, logo ele é reconhecido como algo voltado exclusivamente para o público gay ou apenas mais um trabalho que ofende aos bons costumes da família patriarcal. E é nessa realidade já conhecida que o projeto de Gianfranco Briceño surge.

O Snaps Fanzine, uma publicação em preto e branco, reúne fotos de diferentes homens nus, dentre eles, o cantor Thiago Pethit. Viabilizado por financiamento coletivo, o fanzine só possui gastos com o valor referente à postagem no correio para quem deseja adquiri-lo. Em conversa por e-mail com a Tudo, o fotógrafo fala sobre seu trabalho e suas percepções sobre o tabu chamado “pênis”.

Há mais de 15 anos no Brasil, o peruano se formou em publicidade em Belo Horizonte, onde começou a trabalhar com fotografia e segue na área até hoje. Na lista dos profissionais que mais inspiram seu trabalho encontram-se artistas novos e outros mais veteranos, que, não curiosamente, seguem linhas bem similares ao trabalho pessoal de Gianfranco: o comum uso de modelos homens de Peter De Potter; a espontaneidade e homoerotismo do suíço Walter Pfeiffer; o clique de belos meninos e amigos de Brett Lloyd; a liberdade e juventude nas lentes de Ryan McGinley e Larry Clark (conhecido por dirigir o filme “Kids”, de 1994). Dentre outras referências pessoais mais distantes do que encontramos no Snaps, Briceño também lista o russo Slava Mogutin, conhecido por ter um trabalho ativista através da pornografia e fetichismo homossexual; e o hedonista Tom Bianchi, fotógrafo que capturou em polaroides o paraíso gay dos anos 70, que posteriormente veio a ser conhecido como inferno da AIDS na década de 80.

 


Trabalhando principalmente como fotógrafo de moda, Gianfranco toma outro rumo com o Snaps Fanzine. Em um sentido poético, o projeto se apresenta como algo muito mais artístico do que o trabalho comercial que está acostumado a fazer. Gianfranco conta que sempre teve um retorno maior com os editoriais ou campanhas masculinas e, no primeiro momento, pensou em compilar todo o material que já tinha e publicar. “(...) a medida que a ideia do fanzine tomava forma, eu achei que seria melhor fazer algo exclusivo e com uma linguagem própria, a partir daí comecei a convidar alguns amigos para fotografar. Quase todos toparam e com esse material fiz a primeira edição”, afirma Briceño.

Surgidos nos Estados Unidos, perto da década de 30, os fanatic maganizes (abreviado para fanzine) são publicações realizadas de forma amadora, apresentando conteúdos diferenciados e que, por vezes, carregam ideologias políticas e culturais. Apesar de afirmar que o Snaps não possui um objetivo específico, Gianfranco acredita que seu fanzine preenche uma lacuna, principalmente no Brasil, deste tipo de publicação. “Não vejo em bancas ou até em projetos independentes o nu masculino tratado de uma forma natural e sem tabus, talvez a ideia seja essa, desmistificar essa coisa de que homem não pode ser fotografado nu porque é muito chocante ou agressivo”. Dessa forma, a escolha de Gianfranco por esse tipo de publicação – fortemente usada na Europa pelo movimento de contracultura nos anos 60 – se mostra coerente.


Como a vida não é um filme europeu ou um seriado da HBO, o nu masculino e a exibição do pênis é algo menos recorrente na mídia. Paralelamente, é comum e “natural” que o corpo feminino nu esteja num outdoor e seja mais aceito pelo público, sem maiores questionamentos e estranhezas. Analisando esse contexto, Gianfranco diz que, para ele, este é um papo super repressivo, pois define o órgão genital externo (pênis) como algo ruim e o interno (vagina)como bom, como se a sexualidade tivesse que ser oculta. O fotógrafo conta que não entende essa dicotomia absoluta, e acredita que tudo isso vem da publicidade, que faz do corpo da mulher um produto vendável e o do homem não. “Eu consigo enxergar um lado sincero na nudez masculina”, afirma Briceño. “O homem está lá de cara limpa, apenas tira a roupa, não tem com o que se preocupar, não tem maquiagem, não tem pose; os meninos que fotografo estão mais a serviço da foto do que deles mesmos. Acho que o homem é mais sexual de um jeito mais simples, é um tesão mais honesto”.

Quando perguntado onde se sente mais confortável enquanto fotógrafo, Briceño assume que é no ramo da moda, no qual ele geralmente tem mais domínio. Como diretor, tem controle da luz, da locação, da modelo e de como administrar a equipe técnica, onde cada um tem a sua função. Fotografar um projeto particular causa mais “sofrimento” ao peruano. “Eu não sei muito bem o que vai acontecer, dou certa liberdade aos meus modelos e a maioria diz: ‘eu não sei fotografar, o que eu faço?’ e eu respondo: ‘não precisa fazer nada’”, conta Gianfranco, além de explicar que, no fim, são situações diferentes: “Editorial de moda tem o lado didático, tem que mostrar uma tendência de moda, uma peça de alguma coleção, um tipo de penteado, no Snaps, por exemplo, eu apenas me preocupo com fazer imagens lindas”.

 

Com doses de despretensão e de maneira simples e bela, o trabalho do fotógrafo peruano acaba despertando interesse de quem gosta de fotografia e erotismo masculino, apesar de não parecer transgredir esse público (visto que o projeto só é formado por homens dentro de um padrão estético típico do mundo da moda). A segunda edição do fanzine está sendo desenvolvida e Gianfranco já adianta que é uma edição mais ambiciosa, com mais páginas, mais meninos e um projeto gráfico mais elaborado. Quando perguntado qual é o seu maior sonho enquanto fotógrafo, Gianfranco Briceño transparece que está feliz com a posição profissional que tem: “Acho que o maior sonho de todo fotógrafo é pagar as contas e o aluguel em dia com o dinheiro do trabalho, e eu, com muito esforço, estou dentro desse sonho, que espero que continue a me dar mais frutos :)”.