Não é preciso uma
contextualização aprofundada para afirmar que vivemos em uma sociedade sexista.
Além disso, a cultura machista tenta a cada dia (se ainda for possível) despir
mais o corpo feminino enquanto se horroriza com homens sem roupas. Parece ser
assunto do passado, mas é mais atual do que se pensa. Quando, por exemplo,
surge um projeto de nu masculino, logo ele é reconhecido como algo voltado
exclusivamente para o público gay ou apenas mais um trabalho que ofende aos
bons costumes da família patriarcal. E é nessa realidade já conhecida que o
projeto de Gianfranco Briceño surge.
O Snaps Fanzine, uma publicação
em preto e branco, reúne fotos de diferentes homens nus, dentre eles, o cantor Thiago
Pethit. Viabilizado por financiamento coletivo, o fanzine só possui gastos com
o valor referente à postagem no correio para quem deseja adquiri-lo. Em
conversa por e-mail com a Tudo, o fotógrafo fala sobre seu trabalho e suas
percepções sobre o tabu chamado “pênis”.
Há mais de 15 anos no Brasil, o peruano
se formou em publicidade em Belo Horizonte, onde começou a trabalhar com
fotografia e segue na área até hoje. Na lista dos profissionais que mais
inspiram seu trabalho encontram-se artistas novos e outros mais veteranos, que,
não curiosamente, seguem linhas bem similares ao trabalho pessoal de
Gianfranco: o comum uso de modelos homens de Peter De Potter; a espontaneidade
e homoerotismo do suíço Walter Pfeiffer; o clique de belos meninos e amigos de Brett Lloyd; a liberdade e juventude nas lentes de Ryan McGinley e Larry Clark (conhecido
por dirigir o filme “Kids”, de 1994). Dentre outras referências pessoais mais
distantes do que encontramos no Snaps, Briceño também lista o russo Slava Mogutin,
conhecido por ter um trabalho ativista através da pornografia e fetichismo homossexual;
e o hedonista Tom Bianchi, fotógrafo que capturou em polaroides o paraíso gay
dos anos 70, que posteriormente veio a ser conhecido como inferno da AIDS na
década de 80.
Trabalhando principalmente como
fotógrafo de moda, Gianfranco toma outro rumo com o Snaps Fanzine. Em um
sentido poético, o projeto se apresenta como algo muito mais artístico do que o
trabalho comercial que está acostumado a fazer. Gianfranco conta que sempre teve
um retorno maior com os editoriais ou campanhas masculinas e, no primeiro
momento, pensou em compilar todo o material que já tinha e publicar. “(...) a
medida que a ideia do fanzine tomava forma, eu achei que seria melhor fazer
algo exclusivo e com uma linguagem própria, a partir daí comecei a convidar
alguns amigos para fotografar. Quase todos toparam e com esse material fiz a
primeira edição”, afirma Briceño.
Surgidos nos Estados Unidos,
perto da década de 30, os fanatic maganizes (abreviado para fanzine) são
publicações realizadas de forma amadora, apresentando conteúdos diferenciados e
que, por vezes, carregam ideologias políticas e culturais. Apesar de afirmar
que o Snaps não possui um objetivo específico, Gianfranco acredita que seu
fanzine preenche uma lacuna, principalmente no Brasil, deste tipo de
publicação. “Não vejo em bancas ou até em projetos independentes o nu masculino
tratado de uma forma natural e sem tabus, talvez a ideia seja essa,
desmistificar essa coisa de que homem não pode ser fotografado nu porque é
muito chocante ou agressivo”. Dessa forma, a escolha de Gianfranco por esse tipo
de publicação – fortemente usada na Europa pelo movimento de contracultura nos
anos 60 – se mostra coerente.
Como a vida não é um filme europeu
ou um seriado da HBO, o nu masculino e a exibição do pênis é algo menos
recorrente na mídia. Paralelamente, é comum e “natural” que o corpo feminino nu
esteja num outdoor e seja mais aceito pelo público, sem maiores questionamentos
e estranhezas. Analisando esse contexto, Gianfranco diz que, para ele, este é
um papo super repressivo, pois define o órgão genital externo (pênis) como algo
ruim e o interno (vagina)como bom, como se a sexualidade tivesse que ser
oculta. O fotógrafo conta que não entende essa dicotomia absoluta, e acredita
que tudo isso vem da publicidade, que faz do corpo da mulher um produto
vendável e o do homem não. “Eu consigo enxergar um lado sincero na nudez
masculina”, afirma Briceño. “O homem está lá de cara limpa, apenas tira a
roupa, não tem com o que se preocupar, não tem maquiagem, não tem pose; os
meninos que fotografo estão mais a serviço da foto do que deles mesmos. Acho
que o homem é mais sexual de um jeito mais simples, é um tesão mais honesto”.
Quando perguntado onde se sente
mais confortável enquanto fotógrafo, Briceño assume que é no ramo da moda,
no qual ele geralmente tem mais domínio. Como diretor, tem controle da luz, da
locação, da modelo e de como administrar a equipe técnica, onde cada um tem a
sua função. Fotografar um projeto particular causa mais “sofrimento” ao
peruano. “Eu não sei muito bem o que vai acontecer, dou certa liberdade aos
meus modelos e a maioria diz: ‘eu não sei fotografar, o que eu faço?’ e eu respondo:
‘não precisa fazer nada’”, conta Gianfranco, além de explicar que, no fim, são
situações diferentes: “Editorial de moda tem o lado didático, tem que mostrar
uma tendência de moda, uma peça de alguma coleção, um tipo de penteado, no Snaps,
por exemplo, eu apenas me preocupo com fazer imagens lindas”.






